O décimo da competência
Lula Branco Martins

O título de campeã do carnaval está em boas mãos. A Beija-Flor levou a melhor pelo terceiro ano seguido, desta vez apresentando um enredo de cunho religioso - misturando índios, jesuítas e bandeirantes - sobre os Sete Povos das Missões, episódio marcante dentro da história da colonização do Rio Grande do Sul. Foi a vitória do profissionalismo. Comandada por Laíla, a comissão de carnaval da escola funciona de forma eficiente, cada um dos cinco componentes com funções bem definidas. Sua diretoria é extremamente organizada - a ponto de mandar publicar, com bastante antecedência, revistas e informativos sobre o desfile, revelando minúcias sobre carros e posição de alas, com o objetivo de orientar seus componentes, isso apesar de todo segredo que costuma rondar os barracões. E, enfim, a escola tem comunidade. Ela pode ser na verdade a maior responsável por tantos títulos. Exibe garra, sempre canta o samba (que invariavelmente é bom, e foi assim este ano), defende Nilópolis a todo custo. Isso. Nilópolis. A Beija-Flor não é escola de um ou dois bairros. É escola de uma cidade inteira. Por isso é forte também.

Conseguiu ontem, depois do anúncio das notas, na Praça da Apoteose, o segundo tri de sua história. O primeiro foi nos anos 70, com Joãosinho Trinta como carnavalesco - e na época Laíla já estava por lá, era diretor de Harmonia. A última escola a ser tricampeã havia sido a Imperatriz, entre 1999 e 2001. Só que naquela época, há de se recordar, era uma chiadeira só. Muitos questionavam a legitimidade do resultado, chegando a dizer que a escola de Ramos só ganhava porque seu dono, Luizinho Drummond, presidia a Liga Independente das Escolas de Samba, a Liesa, e tinha influência sobre os jurados. Com os títulos da Beija-Flor não acontece o mesmo. Pelo contrário, existe um certo respeito no ar. A Beija-Flor é inquestionável.

Sua conquista deste ano deu-se por um décimo, em cima da Unidos da Tijuca, que levou para a Sapucaí um enredo sobre cidades, reinos e mundos imaginários. Se a Beija-Flor, do patrono Anízio Abrahão David, foi a mais correta na avenida, a mais completa, a gigante, a maioral, a escola do Morro do Borel foi, de novo, como já acontecera no ano passado, a mais criativa. Deve isso ao carnavalesco Paulo Barros. Este ano ele radicalizou o conceito de alegorias vivas - que ganhou grande repercussão em 2004, com o carro do DNA -, levando para a avenida uma alegoria em que quase 300 jovens, com movimentos marcados, formavam o corpo de um pavão, símbolo da escola. E não foi só isso: ainda havia belos dráculas, coreografados com rigor numa alegoria, e um outro carro, o do purgatório, em que novamente o elemento humano era a informação principal, com pessoas umas em cima das outras, se mexendo muito, quase se pegando. Por essas e por outras, Paulo Barros está revolucionando o desfile das escolas de samba. O presidente da Tijuca, Fernando Horta, que já renovou o contrato do carnavalesco, confiava na vitória. ''A sensação é de tristeza'', disse, após a divulgação das notas. ''Se nossa bandeira tivesse mais peso, seríamos os campeões'', acusa.

Ele não é o único insatisfeito com o resultado. O presidente da Imperatriz, Wagner Araújo, não engole notas como o 9,7 em Alegorias (dado por Ana Bernachi) e quer urgentemente dar uma olhada no mapa com as justificativas de notas, que daqui a alguns dias será liberado para consulta pela Liesa. Sua escola, que havia feito um belo desfile, falando dos personagens da literatura infantil, enredo assinado pela veterana Rosa Magalhães, era uma das favoritas. Ficou atrás da Beija-Flor e da Tijuca e, pior, atrás também da Grande Rio - que faturou um inesperado terceiro lugar, após ter defendido um enredo patrocinado por poderosa multinacional do ramo alimentício, cujos produtos eram citados explicitamente na letra do samba. No cômputo geral, porém, as notas foram justas. A Tradição fez realmente o pior desfile do ano, tentando tirar leite de pedra ao contar as histórias e as glórias da soja. Desfila ano que vem no Grupo de Acesso. A Portela enfrentou mil problemas de evolução, teve alegorias quebradas, componentes humilhados e barrados no portão de entrada e, no fim das contas, deu até sorte: ficou em penúltimo e se mantém entre as grandes.

Salgueiro beliscando um quinto lugar, Mocidade e Viradouro na zona intermediária, Caprichosos em 11° e Império em 12°, tudo normal. Mas o resultado merecia uma mexidinha. Se os deuses do carnaval fossem justos, o Porto da Pedra trocava de lugar com a Mangueira - por três décimos a escola de São Gonçalo não ultrapassou a verde-e-rosa. Se assim fosse ficaria em sexto e desfilaria novamente no sábado que vem. Mas Ana Bernachi (ela de novo) tratou de dar um 7,6 para as alegorias de Alexandre Louzada, carnavalesco do Porto da Pedra. Nota estranhíssima, para uma agremiação que mostrou no Sambódromo carros criativos e bem acabados. ''Só posso acreditar que deve ser algo pessoal dela contra o Louzada'', disse Ricardo Fernandes, diretor de carnaval da escola. Esta mesma jurada deu 9,2 para a Portela da águia sem asa, dos carros pela metade e das alegorias que nem passaram.

Os Acadêmicos da Rocinha venceram o Grupo de Acesso A e ano que vem desfilam entre as grandes. A escola mostrou na avenida um enredo de caráter social, falando de paz e cidadania. Superou, também por décimos, a União da Ilha do Governador na luta pela vaga única no Grupo Especial. É, seja em que grupo for, o carnaval está mesmo ficando assim: milimétrico.

[ - 10/02/2005 ]
 
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