Florença Mazza
Se o carnaval é famoso por ser democrático, os problemas para quem quer curti-lo plenamente também o são. Seja nos camarotes, seja nas arquibancadas montadas na Avenida Presidente Vargas, quem quer assistir à maior festa popular do mundo tem que - literalmente - suar a camisa.
Apesar de todo o luxo apregoado pelos organizadores dos camarotes da Sapucaí, quem gosta mesmo de ver os desfiles enfrenta uma maratona nada confortável. Afinal, as janelas que dão visão para a Passarela do Samba não comportam tamanho volume de convidados.
Num deles, por exemplo, 26 pessoas se apertavam no domingo para ver o desfile da Mangueira. Torcedora da verde-e-rosa, a mineira Denise Freitas, de 40 anos, jurava estar confortável durante a passagem de sua escola de coração. Mas, debruçada sobre a janela há cerca de seis horas (ela chegara às 20h ao camarote), era difícil de acreditar.
- Já me acostumei. Este é o quarto ano que venho para a avenida. Vou ficar até a última escola- prometia.
E cumpriu o prometido. No desfile da Vila Isabel, lá estava Denise, bravamente guardando seu lugar ao sol.
Perto dali, uma outra mangueirense também montou guarda na janela do camarote da Goodyear. A dona de casa Iracema Pignott, de 50 anos, repetia com vigor a rotina dos últimos cinco anos. Sentada de lado, com uma perna pendurada para fora do camarote (câimbras?), ela assistia empolgada ao desfile.
- Fico sentadinha a noite inteira para guardar o lugar - confessa.
Mas Iracema pelo menos pode pedir para alguém reservar o seu espaço, caso queira ir ao banheiro. Prerrogativa que não têm os que assistem às escolas do lado de lá do Canal do Mangue, na arquibancada para cerca de 3 mil pessoas, que não era montada há mais de dez carnavais. A estudante Natália Rodrigues, de 15 anos, revela:
- Não podemos nem fazer xixi para não perder o lugar.
Ela foi ao desfile com a sogra, a cabelereira Helenilsa Esteves, de 42 anos. Apesar de não ter visto quase nada da sua Mangueira, que se armou do lado oposto ao que estava, ela não se arrependeu dos R$ 30 pagos no táxi que a levou de sua casa em Bangu à Sapucaí.
- Chegamos cedo, às 20h, para pegar um bom lugar. Mesmo com o empurra-empurra na entrada, valeu a pena. É uma boa oportunidade para quem não tem condições de comprar o ingresso - opina Helenilsa.
Cedo mesmo chegou a família Dias. A avó, Irene, de 68 anos, a mãe, Luciene, de 43, e a filha Patrícia, de 17, foram para a Avenida Presidente Vargas ainda na tarde de domingo. As mais velhas demoraram um pouco mais para chegar, já que vieram de ônibus de Duque de Caxias para a folia, enquanto Patrícia veio do Méier. Na segunda-feira, entretanto, o trio resolveu chegar mais cedo ainda ao Sambódromo: às 15h. Tudo para poder assistir às suas escolas de coração: Grande Rio, Beija-Flor e Salgueiro, em ordem decrescente de idade.
- Para quem gosta de ver as fantasias, aqui é até melhor do que lá dentro, já que a escola ainda está toda arrumadinha - elogia Patrícia.
O segurança Paulo Roberto Menezes, de 39 anos, pegou o metrô sozinho, enfrentou a multidão para conseguir um lugar e não estava nada perto de sua casa, em Vicente de Carvalho. Mas o amor pelo carnaval é tanto que o portelense não titubeou ao opinar sobre a novidade das arquibancadas populares no Mangue:
- Foi uma boa idéia. Mesmo sem o samba (que só começa a ser tocado no setor 1), a animação é a mesma.
Apesar dos elogios, a falta de segurança no entorno do Sambódromo foi mais uma intempérie para os foliões que se espremiam nas arquibancadas da Avenida Presidente Vargas. Um grupo promoveu arrastões e roubou celulares, relógios, cordões e carteiras de quem estava na arquibancada popular ou perto dali.