Joana Dale e Paulo Celso Pereira
Mesmo com os enredos difíceis de algumas escolas de samba, os foliões parecem se preparar cada vez melhor para entender os desfiles. Neste carnaval, as histórias de Shangrilá, na Tijuca; de Hans Cristian Andersen, na Imperatriz; e as metas da ONU, na Portela, estavam na ponta da língua de muitos componentes.
A professora de educação física Andréa Apolônia, 32 anos, desfilava pela primeira vez na Tijuca, na ala Castelo das Bruxas, e consultou até suas alunas para ficar tinindo no Carnaval.
- Shangrilá é o paraíso. Eu não sabia, mas quando li a letra, perguntei a uma das minhas alunas, que é judia. Não sei se a palavra é judia, mas ela soube me responder - contou a educadora.
Na Imperatriz, alguns integrantes não tinham a menor noção de quem foi o autor dinamarquês. Mas, desfilando na comissão de frente, Rener Souza Ramos demonstrou entrosamento com a obra:
- As histórias dele são mundialmente conhecidas. Quem nunca ouviu falar do Patinho Feio e da Pequena Sereia, por exemplo?
Na Portela, as metas da ONU emplacaram. Com temas atuais e mais familiares, alguns componentes tiveram até aula de última hora. A publicitária paulista Camila Piagge, de 23 anos, enumerava as metas a 30 amigos paulistas que não haviam estudado a cartilha:
- No meu carro, vamos desfilar pela educação infantil. Há outras metas como combater o HIV, reivindicar o direito da mulher, promover o desarmamento e cuidar da proteção ambiental - explicava a foliã.
A professora Rosana Martins, de 34 anos, que saiu na ala Banquete para todos, da escola de Oswaldo Cruz, escolheu sambar na Portela justamente pela atualidade e polêmica do enredo.
- A minha ala é uma das metas da ONU, que está prevista para ser realizada em 15 anos. Resolvi sair na escola pois brigo por um mundo melhor. É uma maneira alegre de lutar por uma causa justa - reforçou.
Embora falando da história brasileira, o problema na Beija-Flor não vinha do enredo, mas do samba. Mesmo sendo um dos mais elogiados do carnaval, assim como no ano passado a letra tinha palavras incompreensíveis em guarani. Só quem sabia o que significava ''Tubichá'', ''Crué'' e ''Yyvy Maraey'' eram alguns dos diretores:
- Tubichá e Crué são nomes de líderes da feitiçaria guarani, e Yvy Maraey é a Terra sem mal. São termos difíceis, mas pode ver como os componentes estão na ponta dos cascos. Estão cantando a letra toda - explicou o presidente da Ala de Compositores da escola, Gilson Doutor, um dos mais entendidos nas expressões do enredo.
Realmente, na avenida a escola inteira cantou o samba, e até as palavras mais complicadas. Mas, daí a saber o que significam, havia uma grande distância. Nem Mestre Plínio, da bateria, dominava os significados:
- Nós somos responsáveis pela música. O canto é com os carnavalescos e os compositores.