Bruno Agostini
Na armação da Portela, uma da madrugada, Paulinho da Viola, confiante, esbanjava otimismo: ''Viemos para ganhar, a escola está linda. Desta vez vamos vencer''. Na dispersão, 3h20, Chope, o diretor de Harmonia, desabafava: ''O problema não foi na avenida, foi no barracão. De que adianta o carnavalesco construir um carro lindo se ele não passa no viaduto?''. Entre as palavras esperançosas do cantor e o lamento triste do diretor, passaram-se pouco mais de duas horas. Tempo suficiente para carros quebrarem e irem por água abaixo as esperanças de mais um título (leia abaixo).
Logo no carro abre-alas, sinais do caos portelense - que, na verdade, estava apenas em seu início. Não apenas a confusão sombria - temática que abriu o desfile - proposta pelo enredo que falava sobre a ONU e as metas da entidade para o início de milênio na intenção de se criar um mundo melhor. A águia, símbolo da escola, que sempre entra na avenida batendo asas e gritando, estava mutilada. O incêndio que consumiu parte da alegoria na véspera do desfile queimou as asas da ave. Sem ela, o animal mais parecia um peixe escamoso. Prenúncio, quem sabe, de que a escola iria afundar. E, a exemplo da mascote, a Portela não decolou.
É bem verdade que os componentes esbanjaram garra, unidos pelos problemas de última hora. O primeiro setor da escola, apresentado pela comissão de frente abstrata, que fazia referência à degradação do planeta, tratava do caos, da morte e concluía indicando que o mundo está doente. Alas impregnadas de baixo astral se sucederam.
Em seguida, a escola foi listando o males que assolam o planeta: a fome e a miséria; a necessidade de educação de qualidade a todos; crianças de rua; trabalho infantil; discriminação; armas; doenças; degradação ambiental.
As alas alternavam-se entre a crítica e o recado otimista de que tudo pode mudar. Quando tratou da fome, em uma animada ala chamada O feijão da Vicentina (aliás, sabe-se que a feijoada preparada pelas tias da Velha Guarda da Portela é uma das melhores que há), pães foram jogados para o público. Referências bíblicas, como a própria distribuição dos pães e o milagre da multiplicação dos peixes, fundiam-se a ambientes alegres, como o circo, ou a cenários depressivos, como a degradação ambiental.
No fim, a escola exaltou as conquistas da ciência, clamou pela preservação da ecologia e recordou personagens como Gandhi, Dalai Lama, Nelson Mandela, Irmã Dulce e o brasileiro Vieira de Mello, funcionário da ONU morto em um atentado no Iraque. Politicamente correta, a Portela não nadou em boa maré. Agora, resta torcer contra o rebaixamento.