Beija-Flor se empenha para levar o título
Devido ao atraso provocado pela confusão na Portela, a última escola a entrar na Marquês de Sapucaí começou a desfilar depois das 7h (cerca de duas horas além do previsto), com o dia já claro e temperatura agradável. Pouca gente havia abandonado as arquibancadas. Quem o faria, se o encerramento do Carnaval de 2005 cabia à favorita Beija-Flor?

Desde 2000, a escola de Nilópolis é campeã ou vice. Tornou-se, assim, a agremiação a ser batida. A Beija-Flor sabe muito bem o que quer: do mais simplório componente ao poderoso Laíla, que comanda a trupe de carnavalescos; do mais chato dos diretores de harmonia, que costumam tratar a cotoveladas os que estão trabalhando na avenida, ao patrono Anísio Abrão David – todos querem o título. Desfilam para ganhar, muito bem ensaiados e entrosados. Sem falar que a verba para o carnaval é substanciosa. Dá-lhe luxo.

Este ano não foi diferente. As arquibancadas dos setores populares compreenderam o recado, gritando ao fim do desfile: “Tricampeã, tricampeã”, enquanto um outro grupo deixava os camarotes e as frisas para se juntar ao já tradicional Bloco dos Garis, incorporando-se ao corpo da escola até a dispersão na Praça do Apoteose. O samba ajudou. Pode ser considerado, sem favor, o melhor do ano, com harmonia sofisticada e andamento adequado. O difícil é saber quem, entre os doze autores (isso mesmo, mais que um time de futebol), fez o quê. Mas se pensarmos no enunciado quilométrico do enredo – O vento corta as terras dos Pampas, em nome do Pai, do Filho e do espírito guarani: sete povos na fé e na dor, sete missões de amor – até que o número de autores ficou de bom tamanho.

A princípio, pensou-se que o enredo traria novas polêmicas com a Igreja Católica, o que acontecia amiúde nos tempos em que a escola era comandada por Joãosinho Trinta. Mas Laíla & cia pegaram leve. O abre-alas, que representava o episódio bíblico da mortandade de crianças ordenada por Herodes, era de muito bom gosto e criatividade, assim como as demais alegorias também teatralizadas, com destaque para o belo carro dos anjos. A Beija-Flor pode não ganhar, mas está no páreo.

Quem já pode desistir até de uma colocação honrosa é, quem diria, a antes toda-poderosa Portela. O mais provável é que a escola de Osvaldo Cruz e Madureira caia, pela primeira vez na história, para o segundo grupo. Um duro golpe para a agremiação que mais títulos ostenta no carnaval carioca (21), mas que desde 1980 não belisca um campeonato. A fim de acabar com esse jejum, a Portela deu uma geral: novo presidente (Nilo Figueiredo), puxador, casal de mestre-sala e porta-bandeira, mestre de bateria e carnavalescos (Nelson Ricardo e Amarildo de Melo).

De positivo, a Portela teve o seguinte: as alas infantis com 580 crianças, as presenças de Paulinho da Viola, Marisa Monte, Zeca Pagodinho, Valéria Valenssa, e pouco mais. De negativo, um chorrilho de coisas: carro queimado, carro quebrado, alas que de tão descompostas causaram riso, o impedimento de a Velha Guarda desfilar sob a alegação de que a escola estouraria o tempo previsto no regulamento. Um desastre e uma vergonha.

Entre as demais escolas que desfilaram no segundo dia, a Porto da Pedra valeu-se do belo samba de Franco, Bujão e J. Brito (reedição do da Ilha do Governador, em 1989) para fazer um desfile muito bom; a Caprichosos teve Luma de Oliveira e parece ter-lhe bastado; a Viradouro, apesar de Juliana Paes, também sofreu com um carro quebrado e a apatia dos componentes; a Grande Rio, numa palavra, estava pesadona.

[ - 09/02/2005 ]
 
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