Enredo reciclado para contar a história do carnaval

Bruno Agostini

Abrindo o desfile de segundafeira, a Porto da Pedra apostou na reedição do enredo Carnaval, festa profana, cujo excelente samba tornou-se um clássico. O refrão ''eu vou tomar um porre de felicidade'', apresentado em 1989 pela União da Ilha, era a senha para atrair a simpatia do público e embriagar de animação a apresentação da escola. Prejudicada pela ordem do desfile - quando entrou, as arquibancadas ainda não estavam cheias -, a escola demorou um pouco a engrenar, mas, à medida que a avenida era tomada por clóvis, colombinas, gôndolas venezianas e arlequins, o contágio foi inevitável.

- Acho que vai ser o melhor desfile da escola. Estamos com muita garra e alegria e o trabalho artístico foi bem executado - animava-se a atriz Cláudia Mauro, uma das poucas celebridades da escola de São Gonçalo a desfilar no chão. Ela tinha razão.

O desfile, muito bem conduzido pelo carnavalesco Alexandre Louzada, versava sobre o carnaval, das origens até hoje, passando pelos cultos agrários que terminavam em festa, pelos folguedos, por Baco e as dionísicas, pelos cordões, ranchos. Teve até criança fantasiada de confete e serpentina. Enfim, uma festa profana, que embalou a Sapucaí com alegorias bem resolvidas, componentes animados e samba na ponta da língua.

A comissão de frente saía de uma torre medieval para saudar o público. Um Momo evoluía rodeado por pierrôs, colombinas e porta-bandeiras, que carregavam estandartes representando as 14 escolas do Grupo Especial.

No carro abre-alas, o tigre, símbolo da escola, estava fantasiado de Rei Momo e acenava para o público - que aplaudia o gesto da alegoria. Mesmo sem luxo, as fantasias e alegorias estavam bonitas e cumpriram a função de contar o enredo. Os carros alegóricos foram um dos pontos altos do desfile. Um dos que mais agradaram remetia às colheitas de trigo no Egito Antigo. Com fantasias simples - em tons ocre - seus 120 componentes simulavam os vento balançando a plantação, sob aplausos das arquibancadas.

A cerimônia da pisa da uva (quando a fruta é espremida em tinas com os pés) invadiu a avenida. Quilos de uvas foram usados na alegoria e o público das frisas foi agraciado com cachos arremessados pelos destaques.

Representando uma pintura de Debret à frente de um sobrado colonial, a alegoria seguinte fazia alusão aos entrudos e bumbos do Zé-Pereira.

A penúltima alegoria trazia uma síntese da folia carioca do início do século passado. O carnaval motorizado dos corsos, as grandes sociedades. Havia até lança-perfume de verdade.

Na ala das baianas, 15 componentes que desfilaram na Sapucaí em 1989 pela União da Ilha, espécie de escola madrinha do Porto da Pedra, se empolgavam:

- Os dois desfiles foram lindos. É incrível voltar aqui e cantar este samba de novo - desmanchava-se Claudete Honório Romeu, 50 anos, uma das remanescentes daquele carnaval.

No fim, a diretoria e componentes se cumprimentavam certos de que esse foi o melhor ano da escola na avenida.

[ 16:24 - 09/02/2005 ]
 
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