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Livraria Pontes: eldorado do futebol na Bienal

Leonardo Filipo

No começo da década de 1990, um sujeito entrou na Livraria Pontes, em Campinas, e pediu um livro sobre a Ponte Preta, clube da cidade do interior paulista que rivaliza as atenções com o Guarani. Até então, o dono do estabelecimento, José Reinaldo Pontes, nunca tinha ouvido falar na publicação. Foi ao clube, arrumou alguns exemplares e achou que ficasse por isso mesmo. Mas não ficou.

''Veio um pedido de Portugal pelo livro, depois outro do Piauí. Foi assim que descobri o filão, formado por pesquisadores, historiadores, jornalistas e colecionadores. Tem gente que coleciona os livros só para para ter o prazer de mostrar aos amigos'', conta Pontes, que montou na XVII Bienal Internacional do Livro, no Riocentro, um verdadeiro eldorado para os amantes da literatura futebolística.

A livraria, que existe há três décadas, parecia destinada a se tornar a maior referência no país em livros sobre futebol. Está localizada entre os estádios da Ponte Preta e do Guarani. ''Mas meu coração é da Macaca'', se apressa em dizer Pontes, que já foi presidente de um clube da região, o Operário. Mas quando deixou de ser apenas dono de livraria para virar editor, em 2002, publicou o livro do maior rival, o Itatiba, pelo simples fato da torcida ser maior - e por tabela, o público consumidor.

Entre as várias encomendas recebidas, a mais comemorada pelo editor veio do Real Madrid. O clube espanhol buscava para sua biblioteca um exemplar do livro que conta a história do São Cristóvão, time pequeno do Rio de Janeiro e primeira casa do atacante Ronaldo.

''O autor pensou que eles tivessem pedido 50, 100 livros. Ficou decepcionado quando disse que foi só um. Mas para mim foi um tremendo orgulho'', conta.

Coincidência ou não, no estande da Bienal estão lado a lado o livro do São Cristóvão e uma caixa luxuosa com dois volumes sobre o centenário do Real Madrid. O primeiro, editado pela própria Pontes, custa R$ 26. Já o outro, importado, sai pela bagatela de R$ 350. Só faltou algum livro sobre o Fenômeno entre eles.

As histórias deliciosas sobre as procuras de Pontes dariam um livro. Assim como um artilheiro que persegue o gol, o editor já catalogou cerca de 1.200 livros brasileiros sobre o esporte. Em sua livraria encontram-se mais de 600 títulos, entre nacionais e importados. Rato de sebos, possui o que considera o primeiro registro literário sobre futebol no Brasil, ''Guia do futebol em São Paulo'', cuja primeira edição data de 1903. A dele é a terceira, de 1905.

''Além de estatísticas e resultados, o guia ensina como pegar o bonde para ir aos estádios. Esse eu não vendo, mesmo sem capa e faltando páginas'', diz.

Certa vez, viajando pelo Rio Grande do Sul, ficou frustrado por não ter achado o livro do Guarani de Venâncio Soares. Com um pedido de encomenda da França, insistiu. Descobriu que a publicação havia sido banida pelo clube e que 20 exemplares estavam encalhados na biblioteca. Foi informado que não poderia comprar nem ser ''presenteado'' com os livros. Sugeriu, então, uma troca.

''Perguntei a eles que títulos faziam falta. Então enviei para Paulo Coelho, Harry Potter e recebi os livros do Guarani'', lembra.

Dentre as raridades expostas na vitrine do estande na Bienal está o livro ''Zelins, Flamengo até morrer'', crônicas de José do Lins do Rego sobre o rubro-negro reunidas por Edilberto Coutinho, que custa R$ 90. A reedição seria o primeiro livro da editora de Pontes, mas na Coutinho morreu sem deixar herdeiros. No vácuo, um livro semelhante acabou sendo publicado por outra editora - ''Flamengo é puro amor'', organizado por Marcos de Castro.

[ 12:30 - 20/05/2005 ]
 
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