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No Rio, o papa do novo jornalismo
Tom Wolfe chega para a Bienal do Livro
e diz que pensa em escrever um livro sobre a cultura brasileira
Vivian Rangel
Uma das presenças mais aguardadas da 12ª Bienal Internacional
do Rio que começa hoje, o escritor Tom Wolfe afirmou, em sua
primeira entrevista no Rio, que tem planos de escrever um
livro sobre o Brasil, apesar de admitir que não conhece muito
a cultura brasileira. Com um dos cinco ternos brancos que
trouxe para a temporada carioca - escolhidos entre os 24 da
mesma cor que mantém no armário -, o integrante da geração
que criou o jornalismo literário (ou new journalism) como
é conhecido, disse que gostaria de fazer um livro sobre como
funcionam os parâmetros que conferem status no Brasil.
- Claro que existe a barreira da língua, mas seria interessante
descobrir os códigos de status no Brasil, ou o que faz as
pessoas serem consideradas bacanas ou sensuais - detalhou
o jornalista.
O escritor franzino e elegante em seu terno branco adentrou
o Salão Carioca, sem expressão de surpresa, acostumado à alta
roda nova-iorquina, mas com incansáveis movimentos oculares,
que não negam que, mesmo aos 74 anos, Wolfe tem alma de repórter.
Sentou-se ao centro da mesa e examinou a audiência de jornalistas,
acostumado aos flashes, mas vendo pela primeira vez o mar
de Copacabana. Lançando seu terceiro romance, Eu sou Charlotte
Simmons, Wolfe afirmou que entrou na ficção por acaso.
- Precisava de dinheiro e como sempre me diziam que eu fazia
jornalismo literário por temer a literatura, resolvi experimentar
- conta Wolfe, se referindo ao best-seller Fogueira das
Vaidades, que conta uma história típica de yuppies americanos.
Com comentários espirituosos, ele evitou discutir conceitos
e rumos para o jornalismo e de ''um movimento que ele promete
não comentar desde 73''. Na literatura, ouviu diversas vezes
que sua obra não passava de narração jornalística, e fez piada
sobre um de seus mais famosos inimigos, o escritor John Irving.
- Pediria a vocês que não mencionem meu nome a Irving. Ele
fica nervoso, usa palavras de baixo calão e como vocês sabem
é um senhor de idade - ironizou Wolfe.
Questionado sobre suas referências, admitiu que desde os anos
60 sua maior inspiração é o naturalismo literário de Émile
Zola. Confessou que conhece pouco da produção de letras latino-americana,
apesar de ter sido correspondente em Cuba mas não poupou elogios
a Gilberto Freyre.
- Ele é mais que um sociólogo ou jornalista, mas um literato.
Talvez nem Andy Warhol tenha conseguido tanta admiração quanto
ele - exagerou.
Acusado pela elite intelectual nova-iorquina de defender Bush
e sua política conservadora, Wolfe, que nunca trabalhou com
assuntos da Casa Branca, deixou claro que votou em Bush, mas
reclamou do peso que seu voto ganhou na mídia americana. Segundo
ele, a política americana é estável há 20 anos, ''como um
trem que passa entre pessoas que gritam à direita e à esquerda,
mas mantêm-se nos trilhos''
- É impossível comparar Bill Clinton a George Bush. Bush teve
que reagir a um ataque, em um triste incidente em que perdi
três amigos e acho que teve a melhor postura possível. Clinton
não enfrentou uma crise grave como o 11 de setembro e só será
lembrado por cenas que estimularam o imaginário americano,
como o episódio Monica Lewinsky. Detalhes, apenas detalhes!
- enfatizou.
Admitindo desconhecer a política brasileira, o escritor perguntou
sobre o filme Cidade de Deus, comparado por ele a uma
película de Federico Fellini por seu realismo.
- Fico feliz em saber que o filme é baseado em um livro, porque
há detalhes que só podem ser explicados através da narrativa.
Gostaria de lê-lo, se houvesse uma versão em inglês - afirmou
o dândi.
Depois de discorrer sobre o passado, a política e o Brasil,
o escritor detalhou o trabalho de pesquisa de Eu sou Charlotte
Simmons que conta a história de uma universitária inocente,
em choque com as práticas sexuais, etílicas e não intelectuais
do campus da fictícia Universidade de Dupond.
- Tentei entrar na rotina desses estudantes sem apelar para
o moralismo. Charllote vem de uma cidade minúscula e os olhos
de espanto dessa menina por esse universo são o melhor narrador
possível. Ela não é sofisticada, é virgem e foi inspirada
em uma menina real que mora na Carolina do Norte, assim como
Charllote - detalha o jornalista, rebatendo as críticas de
que sua virgem puritana seria caricatural e admitindo que
para entrar no campus sem chamar tanta atenção, trocou o terno
branco por roupas mais informais.
A mudança de guarda-roupa não será necessária nas visitas
à Lapa que o escritor pretende fazer até segunda-feira, quando
vai se despedir do Rio. O terno branco, a calça engomada,
a gravata combinando com a meia e o lenço cuidadosamente dobrado
causarão inveja à velha-guarda do samba, facilitando as notas
mentais desse observador nato, que despreza o bloquinho e
acumula descrições sobre yuppies, hippies ou corredores de
stock-car, em ficção ou reportagem, mas sempre em deliciosas
narrações.
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