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Ficção salva a realidade em Bagdá
Ali Babá e Simbad se unem em sociedade internacional de resgate à fantasia

Paula Barcellos

Oito de abril de 2003. Tropas americanas invadem Bagdá. Milhares de pessoas são mortas. Prédios, mesquitas, bibliotecas são destruídos. E, com eles, a memória de uma das civilizações mais antigas do mundo. Para tentar salvar a história desse povo, a Sociedade Internacional de Resgate à Fantasia (Sirf) entra em ação. Membros da comunidade, espalhados pelo mundo, trocam e-mails e planejam operações. Bem que a Sirf poderia ser real. Mas, por enquanto, ainda está presa à imaginação da jornalista e escritora Luciana Savaget, em seu livro Operação resgate em Bagdá: a batalha do invisível, a ser lançado na Bienal do Livro do Rio.

Enquanto os homens mais poderosos do mundo discutem os rumos da economia e da política em Bagdá, a situação cultural do país continua literalmente em ruínas. Foi esse descaso que aguçou a autora a escrever seu mais recente livro.

– Quando estourou a guerra, entrei em desespero. Todas as histórias da literatura árabe tinham final feliz em Bagdá. Ninguém parece dar conta disso. Me questionei sobre o que aconteceria com aquela cultura – explica Luciana, lembrando que Simbá, o marujo, nasceu em Bagdá.

Admiradora explícita dos contos orientais e tendo As mil e uma noites como o romance que a impulsionou ao universo literário, Luciana mistura realidade e fantasia para resgatar reis, princesas, shakes, dançarinas – personagens e riquezas da literatura árabe – da fúria dos soldados. O dia-a-dia da guerra, a destruição dos monumentos históricos, dos arquivos, é acompanhada de perto por Ali Babá, Aladim, Simbad e companhia. Os heróis, alertados pelos componentes da Sirf, saem de seus livros para salvar suas próprias histórias. Toda a comunicação é feita por e-mail.

– É a globalização da informação. O e-mail foi o principal meio para acionar os personagens. É uma maneira também de modernizar o clássico – conta Luciana.

Entre uma e outra mensagem, há trechos de As mil e uma noites, além das reflexões da diretora de heranças culturais da Sirf – uma espécie de narradora da história, quem associa figuras da ficção a personagens da realidade: “Posso entender agora por que ao fugir de Bagdá Saddam Hussein levou parte das Mil e uma noites. Foram baús e mais baús repletos de personagens do livro mágico. Na verdade, ele queria roubar e compilar as visões do valioso livro”.

Nessa fantasiosa aventura, Simbad, Ali Babá e Aladim se juntaram para resgatar mais de 12 mil protagonistas das histórias memoráveis, entre eles, Sherazade. A operação Arelivi, como ficou conhecida entre os membros do Serif, foi um grande êxito. “Além de ceder o tapete mágico, Ali Babá contribuiu com uma pequena parte do seu tesouro para financiar a operação. Além disso, montado em seu camelo Safro, um dos mais velozes da Síria, de onde foi importado, o personagem participou pessoalmente do resgate”.

Mas Simbad não ficou satisfeito apenas com essa operação. “Continuo desolado com a destruição que se abateu sobre minha terra natal. Nada se compara à tristeza de ver a trajetória das minhas viagens se transformar num punhado de papel queimado”, escreveu, por e-mail, ao Sirf, o marujo Simbad.

A diretora de heranças culturais da Sirf lembra que, num dos ataques às bibliotecas, o original de O segredo do tesouro de Bresa – livro da famosa frase “Com estudo e trabalho pode o homem conquistar tesouros maiores do que os que se ocultam no seio da terra ou sob os abismos do mar” – foi queimado. É justamente assim, entre um e outro detalhe do texto, que a autora vai pinçando obras e personagens da literatura árabe.

– Poucos da nova geração conhecem os contos orientais. O livro tenta resgatar um pouco isso também – realça Luciana.

Essa, no entanto, é apenas o início das aventuras da Sirf. Personagens foram resgatados, mas, agora, estão todos emaranhados, juntos numa mesma história, nos mesmos lugares, no castelo de Jasmine, na gruta de Ali Babá, na casa de Amir. Agora é a hora de separar as histórias. É o momento de a própria diretora da Sirfs ir para Bagdá colocar cada personagem em seu lugar. Mais ainda: é o momento de todos se unirem em busca da lâmpada mágica do Aladim. Mas esta operação fica para o próximo livro de Luciana Savaget, que já está em fase de produção.

E para quem quiser se aliar à turma basta mandar um e-mail para a diretora da Sociedade Internacional de Resgate à Fantasia. Pois é, o endereço eletrônico presente em quase todas as páginas do livro existe. Basta escrever e pronto. Você já faz parte da Sirf.

Operação resgate em Bagdá: a batalha do invisível

Luciana Savaget
Ilustrações de Thais Linhares
Nova Fronteira
80 páginas
R$ 19

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