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Escritos de chegada e de partida
O angolano José Eduardo Agualusa
lança seu primeiro livro de contos no Brasil
Paula Barcellos
Neto de brasileiros e portugueses, o angolano José
Eduardo Agualusa é um típico intrépido
viajante nome, por sinal, do Café literário
de que participará, dia 15, na Bienal do Livro, ao
lado de Antonio Torres e Jean-Christophe Rufin. O escritor,
que na última edição da Festa Literária
Internacional de Paraty (Flip) provocou suspiros femininos
e arrematou a simpatia dos leitores, não tem endereço
fixo: divide-se entre Lisboa e Luanda, sem contar as freqüentes
visitas a São Paulo, Rio e Recife. É justamente
esse ar nômade que conduz as narrativas de Manual prático
de levitação, primeiro livro de contos do autor
a ser publicado no país.
Divididos em três blocos Angola,
Brasil e Outros lugares de errância
, os contos apresentam características distintas
de acordo com a terra onde foram produzidos ou apenas inspirados.
As seis narrativas em solos africanos são moldadas
pelos reflexos da guerra civil angolana. Entre o temor e a
lembrança dos dias de chumbo, desenvolvem-se os sonhos
de pessoas comuns, de sobreviventes sonhadores.
É o caso de Nicolau Alicerces Peshkov, personagem
de O homem da luz, que há 40 anos percorria
as cidades mais longínquas de Angola, apenas com sua
bicicleta e um projetor de filmes. A guerra de independência
destruiu as estradas, mas não abalou a vontade naquele
homem de exibir esperança.
Tampouco afetou a fé do enfermeiro Justo Santana,
de Passei por um sonho. Depois de sonhar com um
pássaro, Justo passa a fazer milagres às margens
do Rio Zaire. Uma multidão padecia à porta de
sua casa em busca de ajuda até o dia em que foi preso.
Se na primeira parte do livro, Agualusa abusa do contexto
histórico para explorar conflitos do pensamento, nos
contos que mostram o Brasil como cenário onde predominam
cenas pitorescas, frases curtas, ritmo cortante nas narrativas.
Mas nada de um literatura edênica e ufanista, aquela
que retrata as belas paisagens brasileiras. Agualusa foge
do lugar comum e captura imagens e personagens em pequenas
cidades, em sebos praticamente escondidos. É neste
bloco também que a metalinguagem surge com força.
Escritores e obras voltam a atuar nas mãos de Agualusa.
Em Se nada mais der certo leia Clarice, um velho
pescador de Itamaracá conta que a autora de A hora
da estrela aparecia para ele durante as madrugadas. Clarice
lhe apareceu, trazendo nas mãos uma Maçã
no escuro e lhe leu o romance inteiro. A seguir, depois que
o achou mais recomposto, ensinou-o a sonhar peixes.
Desde então, o pescador andava pela ilha tentando converter
os demais a lerem Clarice.
Os alfarrabistas dominam a cena em Discurso sobre o
fulgor da língua. Entre traças e desordem,
escondem-se edições preciosas de Pessoa, Camões,
Cruz e Sousa. E o melhor: tudo a preço de um romance
de Paulo Coelho, como brinca Agualusa. Neste universo de livros
raros, o autor não dispensou uma visita à biblioteca
de José Mindlin uma peregrinação
obrigatória, como escreve o angolano, para quem quer
que se interesse pelo nosso idioma, transformada em mote de
Catálogo de sombras.
Brasil e Angola de lado, na última parte do livro
o que predomina são hotéis, lugares comuns a
grandes metrópoles, seja na Europa, nos Estados Unidos,
onde for. É o momento em que a nostalgia soma-se ao
não-lugar. Ou como bem define Agualusa em um dos títulos
de seus contos, Não há mais lugar de origem.
Nessas oito narrativas, vozes de espaços e tempos diferentes
se confundem. Personagens estão sempre de chegada e
de partida. É o retrato das tais fronteiras perdidas.
Nada muito distante da realidade de Agualusa, que já
tem cinco romances publicados no Brasil: Nação
crioula, Estação das chuvas, Um estranho em
Goa, O ano em que Zumbi tomou o Rio e O vendedor de passados.
Todos pela Gryphus.
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Manual Prático de Levitação
José Eduardo Agualusa
Gryphus
162 páginas
R$ 29
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