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Inspiração verde-amarela
Entrevista: Jean-Christophe Rufin
Vivian Rangel
Já faz mais de uma década que o francês
Jean-Christophe Rufin deixou o Recife, mas seu português
continua em dia, reflexo da relação afetiva
e da inspiração literária que as terras
verde-amarelas exercem sobre ele. O médico, cientista
social e fundador da ONG Médicos sem fronteiras já
havia escrito ensaios, mas foi nos dois anos passados no Brasil
que descobriu seu lado de romancista. E também a esquecida
história da ocupação francesa no país
no século 16, liderada por Villegaignon, tema de seu
livro de maior sucesso, Vermelho Brasil (Objetiva). Em entrevista
ao Idéias, Rufin, que estará na Bienal e participará
de um Café Literário sobre a experiência
das viagens na escrita, fala sobre a importância história
do episódio da França Antártica e opina
sobre as guerras religiosas de hoje e do passado. Ele adianta
que seu novo romance também tem DNA brasileiro e dispara
um tiro certeiro nos livros de história que tratam
o iluminismo como um filhote puro-sangue europeu: Idéias
fundamentais da Filosofia das Luzes resultaram do contato
entre índios e franceses no Brasil.
Vermelho Brasil, seu livro de maior sucesso, recupera
a ocupação francesa no século 16, um
episódio pouco lembrado. Por que você se interessou
pela história?
Meu interesse começou quando morava no Recife
e viajava freqüentemente para o Rio. Na França,
quando se falava na América do Sul, as únicas
referências eram as conquistas espanholas no México,
ninguém citava a ocupação no Brasil.
Ao começar a descobrir o episódio da França
Antártica ficou claro para mim que idéias fundamentais
da Filosofia das Luzes resultaram do contato entre índios
e franceses no Brasil, como a inversão de conceitos
tradicionais sobre percepção do outro, e o pensamento
de que talvez os selvagens fossem mais civilizados do que
os próprios europeus.
Na época do lançamento do livro,
houve algumas críticas em relação a imprecisões
históricas, incluindo um capítulo em que você
romantiza a prática da antropofagia.
Tenho certeza de que meu livro é fiel aos fatos,
a diferença é que usei o ponto de vista histórico
de pesquisas que estão em andamento na França.
Fiz um trabalho exaustivo de pesquisa, consultando inclusive
brasileiros que moram na Europa, e se você confrontar
o enredo do romance com dados da historiografia moderna, não
vai restar nenhuma dúvida de que meu trabalho é
fiel. A figura de Villegagnon, por exemplo: tradicionalmente
se afirma que ele era um católico que se converte ao
protestantismo e, ao retornar à Europa, volta ao catolicismo.
Nas pesquisas atuais fica claro que os limites entre catolicismo
e protestantismo eram muito frágeis. Ele era católico,
mas acreditava que o catolicismo precisava de uma reforma.
Villegagnon chegou ao Brasil imbuído de idéias
humanistas e tolerantes, e só então descobriu
o fanatismo. Essa análise é importante para
entender como se deram as guerras religiosas anos depois na
França.
De que forma os conflitos prenunciaram as guerras
religiosas francesas?
Villegagnon chegou ao Brasil e encontrou muitas dificuldades
de adaptação. Ele escreveu diversas cartas pedindo
ajuda ao rei mas não teve respostas. Então,
em uma atitude desesperada, ele começa a enviar pedidos
de ajuda para todos que conhecia na Europa. Por sorte foi
atendido por Calvino, com quem havia estudado. O resultado
disso foi a vinda de um grupo protestante que formou uma colônia
e também as condições para as
futuras guerras religiosas no Rio. Por causa disso, a cidade
foi um laboratório das guerras de religião na
europa que aconteceriam anos depois. O comportamento foi o
mesmo, assim como as etapas das brigas entre católicos
e protestantes.
É possível comparar a situação
religiosa hoje, após o 11 de Setembro, com as guerras
do século 16, quando se pensa, por exemplo, na polêmica
proibição do uso dos véus?
A minha intenção era mostrar que o fanatismo
não é um privilégio de religião
específica. O perigo do islamismo é evidente,
mas no Rio no século 16 os conflitos foram entre religiões
cristãs. A questão do véu é uma
iniciativa para manter o modelo laico francês,
que determina que a religião tem que estar à
parte do Estado e da política. Quando se é confrontado
com religiões radicais, é preciso reafirmar
o contrato feito entre os cidadãos, que determina que,
ao entrar em um local público ou uma escola, não
se faça uso de artigos religiosos. A ligação
com o livro está no conceito de que essas etapas das
grandes guerras religiosas foram a base do modelo republicano
e o conceito de laico foi concebido para evitar novos conflitos.
Essa proibição limita o poder da religião
no campo político.
Você é médico, um dos fundadores
da Médicos sem fronteiras e cientista social. A descoberta
de seu lado romancista veio depois. Como foi começar
em outra atividade?
Publiquei meu primeiro romance com 45 anos de idade,
mas já tinha escrito diversos ensaios políticos
e participado da criação da ONG, que começou
com uma reunião com outros médicos que trabalharam
na guerra civil de Biafra, e queriam fundar uma organização
que levasse ajuda médica às vítimas de
crises humanitárias. Quando fui morar no Brasil em
1989, comecei a pensar que gostaria de me expressar de maneira
diferente. Então escrevi O abissínio (lançado
em 1997 na França e em 2000 no Brasil, pela Record).
Contrariando todas dicas que dão aos iniciantes, escrevi
um livro longo, que acabou tendo sucesso na França
e ganhou o Goncourt (principal prêmio literário
francês) de romance de estréia.
Gostaria que você falasse um pouco de Globalia,
lançado no ano passado, e também de La Salamandre
(A salamandra), que acaba de sair, ambos ainda sem previsão
de tradução para o português do Brasil.
A construção narrativa de Globalia é
a mesma dos meus livros históricos. Tentei recriar
a experiência de George Orwell em 1984, quando ele se
inspira no stalinismo e projeta o futuro 50 anos depois. Sob
o eco do totalitarismo e das proibições, Orwell
constrói seu romance em um tempo onde comprar livros
era difícil. A ameça hoje é diferente
está na evolução da democracia,
na liberdade excessiva e de certa forma na abundância
dos bens materiais. Hoje há milhares de livros e isso
faz com que haja um menor interesse dos jovens pela leitura.
Queria falar sobre isso. La Salamandre,, por sua vez, é
um pequeno romance, quase uma novela. É a história
de uma francesa que vem ao Recife e se apaixona por um rapaz,
morador de uma favela. Uma história atual, mas também
verdadeira.
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