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Incorreto, amargo e ácido
Romance "Mamíferos",
do escritor francês Pierre Mérot, trata da experiência
de ser homem
Sérgio Mota
Ensaísta
Mamífero é o animal que alimenta seus filhotes.
Já o livro de Pierre Mérot é um registro
documental e aleatório sobre o modo de vida de outra
espécie animal, denominada ser humano, e de como ele
se alimenta de experiências que acumula por toda uma
vida. Aliás, acúmulo é uma palavra pertinente
para o livro, porque é isso que dá o tom de
balanço que a narrativa tem desde o início.
Se não chega a ser o testamento literário do
personagem e de toda sua pobre raça (o substantivo
plural presente no título aponta para tal entendimento),
o livro pode ser encarado como uma parada obrigatória
para indagar: o que faço eu no mundo? Mas sem o clima
de acerto de contas.
Dito dessa maneira, o romance parece um tratado humanista
sobre a existência, com rigor científico, expiação
de culpas e outros formalismos pertinentes ao gênero.
Não é. O tom encontrado pelo autor para desfiar
seu corolário de fracassos é algo da ordem do
politicamente incorreto, do amargo e da acidez. Mamíferos
é o quarto livro de Pierre Mérot e o primeiro
a ser publicado aqui, aproveitando uma nova onda de escritores
franceses que chega ao Brasil a reboque da Bienal. Essa nova
safra inclui, além de Mérot, Martin Page, Hafid
Aggoune e David Foenkinos, abençoados pelo sucesso
de Plataforma, de Michel Houellebecq. Os críticos já
se apressam em organizar em grupos esses autores, a fim de
lhes dar uma identidade literária. De concreto esses
autores têm o pessimismo e o cinismo como lema.
É justamente essa faceta que se amplifica no texto
de Mamíferos. O narrador onisciente fala de um personagem
designado anonimamente como o tio. Um sujeito
fracassado de 40 anos que habita um apartamento de 30 metros
quadrados. O narrador o acompanha de perto e se confunde com
ele, em um jogo de espelhamento raro na literatura. Esse anti-herói
francês dorme tarde, freqüenta bares e passa a
noite com mulheres ambíguas, além de beber em
demasia. O depressivo personagem é um celibatário
desiludido que, mesmo sem ter a intenção, escreve
sua história já se colocando no papel de coadjuvante
alcoólatra, depressivo, inconstante no emprego, mulherengo
e desrespeitoso dos valores tradicionais de sua espécie.
É um completo perdedor.
Se lido como uma retomada de O homem sem qualidades, de
Robert Musil, uma reflexão sobre a crise social e espiritual
do século 20, o livro de Mérot é uma
pequena obra-prima. O personagem de Musil é um oficial
repleto de dotes intelectuais, mas incapaz de encontrar uma
finalidade em que aplicá-los. No caso de Mamíferos,
o "tio" tem esse mesmo talento, mas se diverte em
torpedear tudo à sua volta, sem se preocupar se tem
competência ou não para enfrentar a vida.
Tentativa gaiata de revelar às gerações
futuras o testemunho de uma época, o texto de Mérot
questiona a própria autonomia do fazer literário,
ausentando-se de qualquer idealismo, para captar a natureza
do fragmento de realidade sórdida para o qual se volta.
O narrador que registra com humor e sarcasmo a decadência
do personagem exercita-se entre o eterno presente da sua condição
também marginal (por contaminação) e
um futuro incerto que se constrói pela negação
e não pelo desejo de instauração de uma
utopia. Há um movimento dialético que percorre
o livro, porque o personagem fracassado tem certeza da inexistência
de uma saída que culmine em um possível paraíso,
acreditando que é ridícula qualquer tentativa
de recuperação de horizontes utópicos
enfraquecidos. É a utopia da utopia.
O fio cínico que sustenta as reflexões do
personagem em relação ao legado de sua miséria,
à maneira do Brás Cubas machadiano, revela um
quadro sombrio no campo do amor, do trabalho, da família,
da arte, da pedagogia e da psicanálise. O livro pode
ser encarado como uma teoria complexa do liberalismo econômico
ou sexual, francamente risível porque possível
de destruição na página seguinte. Assumindo
um tom burlesco, o personagem ri desse naufrágio humano
na condução de seu balanço de vida, terrivelmente
pessimista e deliciosamente cáustico.
Mamíferos lança às favas qualquer escrúpulo
politicamente correto diante dessa inadaptação
ao mundo a que o leitor assiste maravilhado, principalmente
pela ausência de autocompaixão. Em alguns momentos,
o estilo de Mérot fica maior que o próprio livro,
como um ator que fica à frente do próprio filme,
principalmente nas vezes em que, à imagem do protagonista,
a escrita se torna alcoólica e oleosa, tocando freqüentemente
numa parcela de delírio, que apresenta seres e situações
na sua encarnação mais absurda.
Apesar de seu cinismo de carteirinha e de sua vontade de
destruir qualquer aforismo edificante, o personagem de Mérot
é orgulhoso de algumas pequenas liberdades, como se
permanecesse no meio do inferno sem diretamente fazer parte
dele. Principalmente quando descreve suas sucessivas tentativas
de suicídio afetivo é assim
que ele classifica seus casamentos fracassados. Diante da
total ausência de qualidades, a idéia de esperança
acaba desacreditada em meio a causticidade e ironia corrosiva
do texto, que, embora indiretamente, traz consigo a mais óbvia
das leituras. A denúncia de um mundo onde não
se olha para o outro desinteressadamente. A escrita de Mérot
é quase um relatório, na revelação
de um diagnóstico que não alivia nem faz uso
de meias palavras.
O romance de Pierre Mérot é uma ótima
surpresa. É aquele tipo de livro em que se reconhecem
muitas referências, mas que está longe de perder
a originalidade. Há ecos de Bukovski, Henry Miller,
Dylan Thomas, Faulkner e Céline, não só
pela titulatura de escritores malditos, mas, principalmente,
no que diz respeito à linguagem que é contagiada
pelo impulso incontrolável à transgressão
da ordem e das convenções. Mamíferos
vale muito mais que o alvoroço que pode provocar, e
quem se precipitar a lê-lo atraído pelo tom ácido
que o enfeixa vai ter uma decepção. O livro
não cultiva apenas o gesto iconoclasta nem evidencia
somente seu potencial erótico e agressivo, nem tem
muito menos a intenção de provocar escândalo.
Ao contrário, é um exercício de corrosão
de linguagem e uma reflexão inteligente, crua, insolitamente
franca, que às vezes adota o aspecto de um relatório
clínico, a meio termo entre ficção e
biografia (autor e personagem têm a mesma idade). Não
é só uma recusa ao jogo social que o personagem
propõe, mas um exercício de insolência
literária e de visão anatomista da sociedade
contemporânea. A virulência de sua prosa abre
caminho para a oportuna constatação: roupa suja
se lava diante do leitor.
Sergio Mota é professor do departamento
de Comunicação Social da PUC-Rio
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