programação
lançamentos e autores
mapa
serviços
histórico
imagens
notícias
bastidores

Editoras.gov
Estandes do Senado, da Biblioteca do Exército, do IBGE e do Centro de Documentação da Marinha se destacam na Bienal com livros baratos e de alto nível

Alexandre Werneck

Houve um tempo em que a difusão do conhecimento era privilégio do Estado. Nada era sabido sem passar por órgãos de censura do rei ou, mais recentemente, do governo republicano (ditatorial, claro). Hoje, em tempos de “ditadura do mercado”, o Estado acabou se tornando só mais um fornecedor de cultura e informação, tendo que disputar a atenção dos cidadãos (consumidores) com outros fornecedores.

Um bom exemplo dessa tese aparece em quatro estandes da 12ª Bienal Internacional do Livro, que acontece até domingo, no Riocentro: Editora do Senado; Biblioteca do Exército Editora (Bibliex); Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); e Serviço de Documentação da Marinha (SDM). São as editoras. gov, ligadas direta ou indiretamente à administração federal, que publicam material produzido pela ação dos órgãos a que são ligadas ou de importância para essa ação. Ou livros bons mesmo.

Por exemplo, no estande da Editora do Senado, no Pavilhão Vermelho da Bienal, feito em formato inspirado no desenho de Oscar Niemeyer para o prédio do Congresso Nacional, encontra-se As aventuras de Nhô-Quim e Zé Caipora, um exemplar fac-similado daquele que é o primeiro quadrinho brasileiro, publicado pela primeira vez em 1869 (existiu até 1883). Edição de luxo, em papel couchê, é a obra mais cara do catálogo. Sai por R$ 50. De uma editora comum, em uma livraria comum, custaria, fácil, R$ 90. A obra mais vendida da editora, uma caixa que junta dois livros de Joaquim Manuel de Macedo (autor de A moreninha), Memórias da Rua do Ouvidor e Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, sai pela bagatela de R$ 30. E, claro, a Editora do Senado vende, entre outros textos da legislação do país (o que a faz ser procurada principalmente por estudantes de direito e advogados) a Constituição brasileira. Por R$ 5. Mas publica também a Constituição brasileira em inglês. Fora da Bienal, tudo pode ser encontrado na página www.senado.gov.br.

Já na Bibliex, que se dedica a livros de história e estratégia militares, além de história do Brasil, universal e geopolítica, pode-se comprar, por exemplo, Canhões de agosto, clássico da historiadora americana Barbara Tuchman sobre a Primeira Guerra Mundial, um calhamaço, pelo preço de um Paulo Coelho. O estande, no Pavilhão Azul (perto do do SDM), conta com cerca de 100 títulos.

A política, então, parece ser mais ou menos esta: catálogos próprios, publicações importantes, preços baixos e escassa divulgação, o que cria uma situação curiosa: poucos leitores sabem que podem comprar o excelente Atlas para crianças, que o IBGE está disponibilizando agora na feira de livros, ou Diário da campanha naval do Paraguai, do SDM (www.sdm.mar.mil.br).

– Nossos orçamentos são limitados e ficam restritos à produção dos livros – explica o coordenador do Núcleo de Editoração Eletrônica do Senado, José Carlos Britto, responsável pelo estande da editora e pela equipe que editora os livros, cujas tiragens são de mil exemplares.

– A vendagem não tem fim comercial. Atuamos nas áreas em que vemos que há vácuo de informação no mercado – diz David Wu Tai, coordenador do Centro de Documentação e Disseminação de Informações do IBGE, que conta com um catálogo de cerca de 70 títulos, dez à venda no Riocentro, entre eles, Estatísticas do século 20, conjunto de séries históricas completas do país no século passado, trabalho único no mundo (para consultas: www.ibge.gov.br).

No caso do Senado, os livros são impressos na gráfica da casa e os títulos publicados são, além de leis, textos que já caíram em domínio público, ou seja, não pagam direito autoral. Daí haver clássicos brasileiros da sociologia (como Oliveira Vianna) e da política (como Eduardo Prado), coletâneas (raras) de artigos de jornal e crônicas de nomes como o historiador Capistrano de Abreu ou o diplomata e abolicionista Joaquim Nabuco.

Na Biblioteca do Exército, as tiragens (geralmente de 3 mil exemplares) são dedicadas ao programa de assinaturas (que podem ser feitas, assim como compras, pelo site www.bibliex.com.br), em que leitores fiéis pagam um valor anual e recebem uma coleção inteira. É o excedente dessa operação que é vendido.

Talvez um pouco por conta disso, outro texto que, por conta das circunstâncias, acaba por ficar pouco conhecido do leitor é A história oral do movimento de 31 de março de 1964, uma coleção de sete volumes que recolheu depoimentos de militares e militantes que testemunharam os eventos ligados ao início da ditadura militar no Brasil. A obra é a que mais chama a atenção dos passantes pelo estande na Bienal e atrai sobretudo jovens, interessados em ouvir a versão do Exército.

– É um trabalho de recuperação da memória daqueles eventos feito pelo Exército. O que estamos fazendo é tentar levar isso ao público – diz o coronel Luiz Eugênio Duarte Peixoto, diretor-editorial da Bibliex.

Para sair do papel

[voltar]