|
Sobre Columbine, caipirinhas e capivaras
Na Bienal, o australiano DBC
Pierre mostra desenvoltura com temas espinhosos
Vivian Rangel
Peter Finlay estava com raiva, muita raiva. Viciado em heroína,
desempregado, morando em um subúrbio de Londres e abismado
com a política americana e as matanças protagonizadas por
adolescentes, ele resolveu escrever um livro. Seis meses depois
de enviar os originais para 12 agentes literários e não receber
respostas, o australiano criado no México quase aceitou um
emprego na Arábia Saudita para saldar dívidas, mas mudou de
idéia ao conseguir uma proposta de publicação. O que Finlay
não esperava é que "Vernon God Little" (Record)
fosse ganhar o Booker Prize, mais prestigioso prêmio do universo
editorial britânico, e acabar com sua rotina de pedir dinheiro
emprestado a amigos e se inscrever em listas de e-mails de
propaganda para se sentir menos sozinho.
O escritor chegou ao Rio na quinta-feira de manhã e correu
para a Praia de Copacabana. O passeio incluiu degustação de
biscoito Globo, considerado por ele ''muito bom''. Circulando
pelos estandes da 12ª Bienal Internacional do Livro, em Jacarepaguá,
sempre acompanhado de uma garrafa de cerveja e entretido com
a produção de vários cigarros artesanais, ele se alternou
entre a modéstia, ao falar de seu livro (''Não é nada intelectual''),
e manifestos irados contra o domínio cultural e político americano.
O romance, inspirado no massacre de Columbine, foi escrito
em oito meses, entre 1999 e 2000, quando Peter morava em um
pequeno apartamento e precisava de dinheiro emprestado para
sobreviver, após tentar empregos de cartunista e cineasta
e participar de pequenos golpes. E alguns nem tão pequenos
assim, como vender uma casa de um amigo e fugir com o dinheiro.
- Era como se fosse minha última chance. Eu precisava falar
sobre a indústria de consumo, essa forma de satisfação psicológica
imposta aos adolescentes que fazem de tudo para se tornar
celebridade. Inclusive protagonizar massacres - diz o escritor,
que adotou a alcunha de DBC (Dirty But Clean, algo como ''sujo
porém limpo'') Pierre.
"Vernon God Little" conta a história de Vernon,
um adolescente de 16 anos acusado injustamente de ter participado
de um massacre em sua escola inspirado na tragédia da escola
de Littleton, Colorado, em abril de 1999, quando morreram
12 estudantes, um professor e os dois adolescentes atacantes.
Escrita em linguagem direta, ritmo alucinante e ironia afinada,
a história acontece na fictícia cidade de Martírio, no Texas.
Jesus, um estudante latino de 16 anos, mata colegas de escola
e comete suicídio. Vernon, seu melhor amigo, é acusado de
cumplicidade e tem que provar que não está envolvido ou será
enviado ao corredor da morte.
- O tema era irresistível, então sentei e comecei a escrever.
Nos primeiros capítulos fiz Vernon culpado dos assassinatos,
depois achei que era muita pretensão tentar justificar os
motivos de um crime como esse. Então o construí inocente,
sendo perseguido pela sociedade - conta DBC Pierre, que publicou
o livro na Europa em 2001.
O texto faz uma radiografia da sociedade americana e apresenta
personagens irresistíveis, como uma delegada viciada em costeletas
de porco ao molho barbecue; repórteres locais que querem transformar
Vernon em um bandido; e sua mãe, que insiste em divulgar a
todos que ele sofre de desarranjo intestinal. A narrativa
em primeira pessoa leva o leitor a torcer pelo protagonista,
que foge para o México e se torna o mais famoso serial killer
do Texas.
- Todos me perguntam se o livro foi inspirado no 11 de Setembro,
mas o original foi entregue para edição em agosto de 2001.
A situação era caótica, o mundo caminhava para uma série de
tragédias - afirma.
A América também está no segundo romance de Peter, "Ludmila's
broken english", em fase de edição na Inglaterra. O livro
narra um romance entre um inglês e Ludmila, que ele conheceu
pela internet ao procurar por mulheres submissas. Além de
narrar o crescimento do protagonista, que tem suas idéias
transformadas pela agressiva personagem feminina, a história
tem como pano de fundo a globalização, ou a ''americanização'',
como o autor prefere denominar.
- O conceito de globalização é um engodo, uma justificativa
para a soberania americana, um país que dita diariamente aos
jovens: tenha sucesso ou morra. Já que o presidente de lá
faz escolhas representando todas as nações, deveríamos ao
menos ter uma eleição mundial - ironiza.
Atualmente morando na Irlanda, Peter demonstrou ter intimidade
com a cultura brasileira e afirmou querer conhecer mais que
o carnaval brasileiro. Ele brincou dizendo que adoraria atuar
como vilão em uma novela brasileira e disse que vai visitar
um centro de umbanda ''para se purificar''. E adorou saber
que a capivara da Lagoa foi uma grande personalidade do verão
passado.
- Adoro capivaras, são animais que têm um olhar intelectual
incrível, transparecem uma manifestação divina - diz o escritor,
que tem um desenho do animal estampado em seu cartão de visitas,
feito quando ele tinha apenas 11 anos.
O escritor, que volta hoje para a Irlanda, teve um final de
semana movimentado, um indicativo de que o Brasil deixará
lembranças. No sábado ele se mostrou bastante à vontade em
um baile funk no Clube Boqueirão, no Aterro do Flamengo. A
descoberta da cachaça, in natura e em caipirinhas, foi feita
no domingo, acompanhada de petiscos brasileiros e muita pimenta
- que DBC adora. ''Salvo pela literatura'', Peter saldou as
dívidas, está clean e ainda sabe se divertir. Desta vez sem
precisar de verdinhas emprestadas.
[voltar]
|