programação
lançamentos e autores
mapa
serviços
histórico
imagens
notícias
bastidores


À margem da festa das letras

Alexandre Fontoura e Ana Carolina Alves

Durante os 11 dias da Bienal do Livro, Arlindo José de Souza, 40 anos, percorreu os corredores indiferente aos lançamentos, palestras ou entrevistas de escritores. Mesmo assim, a feira lhe rendeu um bocado. Mais precisamente, R$ 275. Analfabeto, o mineiro de Carangola é parte de um dos retratos mais tristes do Brasil, no qual se enquadram os 16 milhões de brasileiros que não sabem ler - número que pode chegar a 30 milhões, se forem incluídos na conta os analfabetos funcionais, que conseguem apenas assinar o nome. Pai de cinco filhos, Arlindo tenta a sorte no Rio aproveitando bicos como o que encontrou no Riocentro, trabalhando como lixeiro.

- Na verdade não vale muito a pena. Mas ficar parado é pior ainda. Gosto desses eventos porque é de onde tiro sustento para os meus filhos. Quando recebia vale-transporte, trocava por pão e vinha de bicicleta - conta Arlindo, enquanto separa parte do lanche que recebeu para levar para a filha filha de 14 anos, mãe de sua primeira neta.

O único contato com uma carteira escolar não teve qualquer relação com estudo.

- Quando eu era garoto, sentava numa carteira para tomar conta do gado numa fazenda - lembrou Arlindo, que, em meio às estantes repletas de livros na Bienal, diz sentir-se como ''cego em tiroteio''. Mas sem desanimar para as dificuldades.

- Ainda quero ler e escrever - avisa.

De acordo com dados do IBGE, a taxa de analfabetismo da população caiu de 65,3% em 1900 para 13% em 2000. Mas os avanços ainda não atingem a população de forma homogênea. Só nas três últimas décadas houve melhora nos índices que comprovam o número de negros nas escolas. Entre as pessoas com 15 anos de idade ou mais, o analfabetismo atinge 8,3% entre brancos. Entre os pretos, o problema está presente em 21% da população.

A grandeza de um evento que contabiliza mais de 2,3 milhões de livros vendidos (17% a mais que em 2003) e público de 630 mil visitantes impressiona e emociona até quem não sabe ler.

- Nunca ganhei livro. Aqui, só me deram lixo pra carregar. Às vezes tinha um escritor do meu lado e eu nem sabia quem era, mas escutava as pessoas comentando. Se eu soubesse ler, ia querer o livro, ia falar com ele - sonha Arlindo.

Durante os 11 dias de Bienal, Arlindo pasou cerca de 150 horas trabalhando, sempre das 7h às 23h, recolhendo o lixo gerado por estandes, deixado nas ruas, nas lixeiras dos cafés e nos coquetéis. Nos corredores lotados de estudantes, intelectuais e gente famosa, ele nem de longe se sentiu pior. Nem perdeu o humor.

- Não tenho vergonha de ser analfabeto. Vergonha é roubar e não poder carregar. Gosto de me sentir bem com os outros e que os outros se sintam bem comigo - brinca.

De volta ao conjunto habitacional Cesar Maia, no Coroado, Zona Oeste, Arlindo espera por mais uma oportunidade de trabalho temporário. E procura conversar com os filhos sobre a importância do estudo. Não quer que, no futuro, as dificuldades que enfrenta sem saber ler se repitam para os quatro. para ele, não conseguir ler não é sinônimo de alienação.

- O presidente Lula precisa ver o lado dos pobres. Tem muita gente sofrendo nas ruas. Nosso salário é vergonhoso ao lado dos impostos absurdos. A gente não recebe nada em troca, vai tudo para os bolsos dos grandes empresários - resume ele, dando sua versão sobre parte dos problemas que atingem a população pobre.

Conteúdo: Nelson Gobbi • Laura Rodrigues • Ana Carolina Alves       Webdesign: Fernanda Garrafiel