Heróis de águas brasileiras

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Célio Albuquerque

Comentarista

A última quinta-feira foi dia de baile em águas gregas, com direito a valsa para Torben Grael e Marcelo Ferreira, que este ano comemoram 15 anos de parceria. E até agora a gente continua dançando.

As lágrimas de Marcelo no abraço do parceiro logo após cruzarem a linha de chegada eram também as lágrimas de uma nação que aprendeu a ver esses atletas com sobrenomes repletos de consoantes (o Ferreira de Marcelo é uma exceção) seguirem em frente, independente dos ventos. Deu vontade de chorar junto com Marcelo, estar junto naquele abraço tão fraterno, tão acalentado.

Esportista mais velho da delegação brasileira em Atenas, Torben Grael era também o brasileiro mais experiente nestes Jogos. E, na hora de grandes decisões, a experiência e a harmonia com o parceiro falaram mais alto. Gritar “já ganhou” antes nunca foi com eles, nem com qualquer velejador responsável. Vencer uma regata é um somatório de talento, equipamento (barco, velas, ferragens, mastro e cabos), ventos, condições do mar e o imponderável: sorte. Dessa vez, Turbina e Playboy conseguiram unir tudo isso numa mesma semana, especialmente em um dia.

Como já havia acontecido antes, a dupla foi para a Olimpíada com um barco novo. Risco total. Com distribuição interna, velas e quilha novinhas em folha. Praticamente sem testar. Mas quem não arrisca não petisca, diz o dito popular. E, com a ajuda inestimável de amigos como Alan Adler, Ricardo Ermel, Ronaldo Senft (que conquistou com Torben sua primeira medalha olímpica, há 20 anos) e Walter Boddener (técnico da dupla), e treinos sob o escaldante sol grego, veio o resultado.

Os títulos são importantes, mas eles não vão sair por aí se gabando. Talvez até o fã fique desapontado com as poucas palavras de Torben, seu jeito meio esquivo. Mas ele sempre foi (e será) assim. Marcelo é de farra, é mais falastrão. Mas mesmo ele se sente mais à vontade entre os amigos de vela. Os dois não são de badalação e holofotes. Logo, voltarão para a luta. No início de setembro tem Campeonato Brasileiro de Star; logo depois, Match Race; em fevereiro, Mundial na Argentina. E isso sem contar a briga para colocar um barco brasileiro na regata Volvo Ocean Race, com os dois a bordo.

Pequim-2008

Se para alguns foi novidade, a decisão da dupla em fazer a campanha para Pequim-2008 já é razoavelmente antiga. Foi acertada com o patrocinador ainda durante o Mundial da classe este ano, quando Torben e Marcelo não estavam na crista da onda e andavam longe de estar entre os três favoritos ao ouro olímpico. Na China, Torben terá 48 anos, e Marcelo, 43, em plena juventude (este ano, a média etária dos comandantes na Star foi de 37 anos), sorvendo tudo que os ventos podem lhes oferecer. Alguém dúvida do potencial da dupla para daqui a quatro anos?

Torben, um vencedor

Torben é, sem dúvida, o maior nome da história do iatismo brasileiro e um dos maiores do mundo. Agora, todo mundo sabe. Na Star, no timão e na proa, só tem fera, gente que participa de grandes competições como America’s Cup e Volvo Ocean Race. Chegar em penúltimo já é vitória, pois só tem vencedor na raia.

Apoio

Ao contrário da grande maioria dos jornais, TVs e revistas, o Jornal do Brasil não embarca no iatismo brasileiro apenas quando nossos atletas sobem em pódios olímpicos. Há mais de dez anos o JB tem uma coluna sobre Náutica que sai regularmente, toda a semana. Sempre dando espaço seja a nomes consagrados, como Torben Grael/Marcelo Ferreira e Robert Scheidt, ou a estrelas ascendentes, como Bimba, João Signorini (nosso representante na Finn) e a dupla Rodrigo Duarte e André Fonseca (representantes na classe 49er).

Hoje, os patrocinadores descobriram a potencialidade desse esporte, e o torcedor brasileiro sabe de cor os feitos dos dois maiores atletas olímpicos brasileiros (nossos velejadores dourados).

Agora, é torcer para que o país comece a olhar mais para suas águas. Apesar da longevidade em termos de competitividade dos atletas, é preciso renovar o estoque de heróis. E isso não acontece da noite para o dia. É preciso investir – e não dá para conjugar este verbo apenas de quatro em quatro anos.

 

03:24 29/08/2004
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