ano de 2004 terminou sem uma nova Maria Rita ou qualquer outro fenômeno de vendas para reanimar o mercado fonográfico, assim como aconteceu em 2003. Todavia, a constelação da música brasileira manteve seu brilho, ainda que sem o brilho de novas estrelas. No ano em que Chico Buarque completou 60 anos e Dorival Caymmi chegou aos 90, os destaques foram Pitty e Marcelo D2, que em 2004 colheram os frutos plantados no ano anterior.

rapper abocanhou vários troféus nas principais premiações brasileiras, como o prêmio Multishow (Melhor CD), Tim (Disco Pop Rock, Canção e Cantor) e Vidio Music Brasil (Clipe de Rap, Fotografia e Clipe do Ano), ratificando os prêmios que o álbum À procura da batida perfeita já havia recebido no ano de lançamento, entre eles o de Melhor Disco de 2003 dado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Coroando a boa fase, o vocalista do Planet Hemp gravou o disco Marcelo D2 - Acústico MTV, com sucessos do grupo e da carreira solo.

em tanto alarde, a cantora baiana conquistou espaços de forma mais modesta, consolidando o seu álbum de estréia, Admirável chip novo (2003), como um dos melhores lançamentos da nova geração do pop-rock nacional. O peso e as letras de faixas como Teto de Vidro, Equalize e Máscara caíram no gosto do público e se tornaram hits, demonstrando à crítica que Pitty estava um passo adiante de outros ídolos adolescentes, como os Detonautas, CPM 22 e Charlie Brown Jr. A consagração chegou com os troféus conquistados em 2004, no Prêmio Tim (Revelação) e no Video Music Brasil (Melhor Clipe pela escolha da audiência), além dos convites para gravar ao lado de dois ícones do rock brasileiro, nos acústicos do grupo Ira! e da diva Rita Lee.

álbum Ira! Acústico MTV que, além de Pitty contou com as participações de Samuel Rosa e Paralamas do Sucesso, marcou a volta ao estúdio de alguns ícones do rock brasileiro da década de 80. A banda paulistana regravou sucessos de sua carreira, como Dias de luta, Núcleo base e Envelheço na cidade. Os Engenheiros do Hawaii também aderiram ao formato desplugado, regravando hits como O Papa é pop, Infinita highway e A revolta dos dândis, em seu Acústico MTV, lançado no mês de novembro. O hiato de cinco anos na discografia do Barão Vermelho - o último álbum foi Balada MTV, lançado em 1999 - também terminou em 2004, com o lançamento de um disco homônimo. Além do título do primeiro disco, lançado em 1982, a banda carioca retomou a essência rock'n'roll do início da carreira, em faixas inéditas como Cara a cara e Cuidado.

disco do Barão Vermelho foi dedicado a Tom Capone, um dos principais produtores do país, que morreu no dia 2 de setembro, em Los Angeles, em um acidente de trânsito. Capone estava na capital da Califórnia para a cerimônia do Grammy Latino, no qual concorria em cinco categorias. Ele não levou nenhum troféu, mas comemorou os prêmios de Maria Rita (Revelação, Melhor Álbum de MPB e Melhor Canção Brasileira), pelo álbum homônimo, produzido por Capone. Após a cerimônia, o produtor brasileiro saiu em uma moto alugada e acabou morrendo ao se chocar contra um carro dirigido por uma jovem de 23 anos.

om Capone também foi lembrado no recente CD/DVD de Gilberto Gil, Eletracústico, o qual não pode ver concluído, além de ser homenageado na décima edição do Video Music Brasil, realizado no dia 6 de outubro, por amigos como Samuel Rosa, do Skank, e Falcão, do Rappa. A perda precoce do produtor chocou o meio artístico, que neste ano também sentiu a falta da violonista Rosinha de Valença, morta após permanecer por 12 anos em coma na cidade fluminense que lhe emprestou o nome artístico. No início de dezembro, Rosinha foi homenageada com o lançamento do álbum Namorando a Rosa, produzido pelas amigas Maria Bethânia e Miúcha, com participações de Martinho da Vila, Dona Ivone Lara e Alcione, entre outros amigos da violonista.

m mais um ano difícil para a indústria fonográfica, quando a Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD) reduziu a vendagem necessária para certificar o Disco de Ouro, de 100 mil para 50 mil cópias, a música brasileira buscou novos caminhos para driblar a crise. Os ringtones, arquivos musicais baixados em celular, viraram febre em 2004, fazendo crescer um mercado que vem atraindo artistas como Lulu Santos, Pitty e a banda CPM 22. A internet abriu um novo espaço às bandas novas, com o lançamento do Trama Virtual, site que permite que artistas de qualquer parte disponibilizem suas músicas na rede, desde que sejam temas originais.

e os números da indústria fonográfica continuaram longe do ideal, os palcos brasileiros receberam estrelas internacionais, como os rappers 50 Cent, Snoop Dogg e Ja Rule, e o astro da música eletrônica, o DJ Fatboy Slim. O caubano Ibrahim Ferrer voltou a se apresentar no país, assim como o cantor e guitarrista B.B. King. Os jazzófilos ainda puderam assistir aos shows da estrela Norah Jones, além das atrações da segunda edição do Tim Festival, como Art Van Damme, Dave Holland, Branford Marsalis e Nancy Wilson. O festival, realizado em São Paulo, ainda trouxe o Kraftwerk, PJ Harvey, The Libertines, Primal Screen, Pet Shop Boys e Brian Wilson, ex-líder dos Beach Boys. Linkin Park e o Offspring levaram ao delírio milhares de fãs brasileiros, mas o ano foi mesmo dos veteranos do rock, como Jon Anderson (Yes), Ian Anderson (Jethro Tull), Iron Maiden, Motörhead, Living Colour, o projeto de guitarristas G3, com Robert Fripp, Joe Satriani e Steve Vai, além da atual formação do The Doors.

á a passagem de David Byrne pelo país não foi tão agradável. O ex-Talking Heads foi a atração principal da 10ª edição do Video Music Brasil, cantando ao lado de Caetano Veloso uma das músicas do antigo grupo, (Nothing but) Flowers. Mas sucessivos problemas de som irritaram o baiano, que deu uma bronca em público na produção do evento, até conseguir cantar a canção inteira, apenas na quarta tentativa. Uma polêmica que manteve o nome de Caetano na mídia por tanto tempo quanto no lançamento de seu último álbum, A foreign sound, com regarvações de sucessos de língua inglesa.