Uma vitrine de surpresa e estilo
Quinta edição do Fashion Rio começou com referências à cultura afro e aposta no charme e simplicidade do couro como matéria-chave para moda verão


:: Iesa Rodrigues

A quinta edição do Fashion Rio, que começou na sexta-feira no Jardim Botânico e mostra as modas de verão até a próxima quarta-feira, no Museu de Arte Moderna (MAM), agradou desde os primeiros desfiles. O belo conceito de cenografia natural e roupas elaboradas, mostrado pela Maria Bonita, foi o ponto de partida para a série de quase 40 coleções - algumas em minidesfiles, como é o caso dos jovens selecionados no Rio Moda Hype.
No sábado, os jardins ensolarados do MAM contrastavam com as tendas refrigeradas na medida certa. Os coquetéis dividiam a platéia, que corria de uma sala para outra, para assistir à abertura do Jóia Brasil, para ver a beleza do espaço do Sebrae, montado por Gringo Cardia, e conferir o poder do rímel Double Extension, da L'Oréal Paris. Mais uma vez, repetiu-se o fenômeno do lounge do Jornal do Brasil, com fila de espera na porta para entrar no ambiente tropicalista decorado por Joy Garrido.

Em matéria de estilo, cada participante surpreendeu com algo diferente, desde a graça do casual cintilante da grife catarinense Colcci, desenvolvido por Lila Colzani, ex-proprietária, ainda estilista depois de ter vendido a marca para o grupo AMC, da malharia Menegotti, de Santa Catarina. O jeans e a camiseta ganham um upgrade para visuais de luxo, graças ao trabalho de aplicações de cristais Swarovski nas batas e blusões rendados e estampados.

As sereias de Paquetá, musas da Santa Ephigênia, também pareciam bem mais ricas do que as meninas que circulam na ilha carioca. Os longos listrados, com cintura marcada e as saias rodadas deram o recado da volta ao glamour dos anos 50 às colunáveis na primeira fila: Patrícia Mayer, Amelinha Meggiolaro, Claudine de Castro, Julinha Serrado, Fernanda Basto e Tanit Galdeano aplaudiram as criações de Marco Maia e Luciano Canale. A destacar, a lembrança de acrescentar cardigans preciosos à coleção - afinal, verão é tempo de ar condicionado.

O couro como matéria-chave do ano inteiro é afirmação de Patrícia Viera, que seguiu os passos de Frankie Mackey e Amaury Veras, pioneiros que abriram caminho com a marca Frankie Amaury, a primeira a tirar o estigma de quente e rústico da moda em camurças, pelicas e chamois. Patrícia deslumbrou com chemises listrados, casacos de rosas bordadas, calças amarfanhadas, cardigans perfurados, jaquetas com bordados no forro do capuz. Detalhe: tudo feito em couro, do chamois que parece seda até o liso, tratado por processo que dá o visual amassado e toque macio.

Isabeli Fontana, modelo catarinense de prestígio internacional, abriu a maioria dos desfiles de sábado. A Salinas não foi exceção. Ao som dos Filhos de Gandhi, o bloco-raízes de Salvador, a coleção intitulada Prece Profana mostrou que as praias cariocas e o catálogo da americana Victoria's Secrets, que costuma dar a capa para modelos da Salinas, serão lotados de borboletas, morangos, elásticos bicolores, xadrez vichy e estampa de oncinhas com golfinhos brilhando. Além do brilho dourado, agora admitido na praia, Jaqueline de Biase propõe a volta do biquíni com saiote, solução que pode parecer pudica para quem não viu o desfile e não sabe a sensualidade que o estilo tem.

O livro A viagem de Théo, de Catherine Clements, com citações de curupiras, caiporas fumando pito, botos do Amazonas e tantãs da África, inspirou a segunda coleção de Walter Rodrigues desfilada no Fashion Rio. Misturando temas musicais de novela e batucadas, as roupas tiraram do espírito carnavalesco as saias curtas, os drapeados e os brilhos dos cristais White Opals e Violet Opal, da Swarovski cuidadosamente tramados nos trabalhos de crochê e inhanduti. A estamparia e o colorido, no entanto, são em geral em cartela sóbria, já que Walter usou tons acinzentados de azul e estampas em listras desencontradas em azul, cinza, amarelo e branco, que davam movimento nas saias com nesgas. Na complementação, se os sapatos anabelade tecido pareciam pesados, em compensação, os colares, braceletes e adornos de cabelo em prata com miçangas brancas, da cearense Sandra Rocha deram o toque afro falado no livro inspirador. Mas os curupiras e caiporas se esconderam, não estavam visíveis na passarela. Esta coleção deve fazer sucesso quando for desfilada em Paris, em outubro.

Pode ser coincidência, mas a campanha da cerveja Nova Schin, uma das patrocinadoras do evento, que mostra o africano sedento atravessando a nado o oceano em busca da bebida, tem muito a ver com a moda, já que o tema África esteve presente em vários desfiles.




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[28/JUN/2004]