:: Suíte Havana (Fernando Pérez)
:: Getting the man’s foot outta your baadasssss! (Mario Van Peebles)

:: Steamboy (Katsuhiro Otomo)

:: Família rodante (Pablo Trapero)
:: Capitão Sky e o mundo de amanhã (Kerry Conran)

:: Olhos de rinoceronte (Aaron Woodley)

:: Crimes em Wonderland (Wonderland)
:: Em suas Mãos (Forbrydelser)
:: A face oculta da lua (La face cachée de la lune)
:: Má educação (La mala eudcación)
:: Um vazio em meu coração (Ett hal i mitt hjarta)

:: Durante o fim (João Trabulo)
:: Antes do pôr-do-sol (Richard Linklater)
:: Céu azul (Moon Sang Kim e Sunmin Park)
:: O jogador de cartas(Dario Argento)
:: Confidências muito íntimas (Patrice Leconte)
:: Whisky (Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella)
:: Mods (Serge Bozon)
:: Vera Drake (Mike Leigh)

:: Um dia sem mexicanos (Sergio Arau)
:: Contra a parede (Fatih Akin)

 

 

 

 

:: Em suas Mãos (Forbrydelser)
Por Leonardo Luiz Ferreira

Sinopse:
Anna, uma estudante de teologia, é casada com Frank, e há vários anos tenta engravidar. Quando é convidada para trabalhar como substituta na capela de uma prisão feminina, ela conhece Kate, uma mulher que, de acordo com as outras presidiárias, tem poderes sobrenaturais. Pouco depois, Anna descobre estar grávida. Ao mesmo tempo, descobre um segredo de Kate, que terá conseqüências terríveis para ambas. Selecionado oficial de Berlim 2004.

Crítica:
O movimento Dogma surgiu no ano de 1995 através de um manifesto, com 10 mandamentos, redigido por quatro diretores dinamarqueses. Os seus dois principais representantes são Thomas Vinterberg e Lars von Trier, que fizeram respectivamente os longas Festa de Família e Os Idiotas. Os cineastas propunham uma reflexão sobre o cinema atual, cada vez mais barulhento e voltado para efeitos especiais. Através de poucos recursos e a exclusão de técnicas maniqueístas, como efeitos sonoros e manipulação de imagem, a ação fica voltada para uma história e um grupo de atores. Uma maneira de retornar a essência cinematográfica de que nada supera um bom roteiro, uma história bem narrada e interpretada. Essa restrição gera, na verdade, uma liberdade de criar ao máximo dentro de condições adversas. Uma originalidade questionável, já que outros movimentos como 'Nouvelle Vague' e 'Cinema Novo', já quebraram os cânones da sétima arte há mais tempo. Logo após o fulgoroso início do movimento, muitos cineastas tentaram copiar o estilo e até mesmo conseguir o certificado do grupo para gerar expectativa e obter visibilidade em festivais. Mas o impacto e a qualidade vão sendo diluídos com o tempo e os tais filmes foram compondo um quadro decrescente de relevância. Em Suas Mãos, segundo filme de Annette K. Olesen, recebeu a chancela de Dogma o que fez com que a produção participasse da Seleção Oficial de Berlim 2004. Diferente do recente Corações Livres, de Suzanne Bier, em que a diretora soube trabalhar os elementos-chave de um melodrama e ainda foi auxiliada por bons atores, inclusive com renome no teatro dinamarquês. Trata-se apenas de um drama comum sobre culpa e omissão, que resvala no conflito entre o sobrenatural, ainda que apenas insinuado, e o religioso. No começo, são apresentados três personagens: uma pastora, uma presidiária e um guarda. O universo fica limitado à prisão onde há o encontro deles e em poucas externas, a locação não importa, mas sim a história que se quer narrar. Entretanto, a edição inicial é apressada, com muitos cortes seguidos, não trabalhando as possibilidades cênicas do elenco, bastante limitado, e o espaço diminuto do ambiente. Alguns diálogos, presentes em diversos filmes europeus, estranham pela abordagem e franqueza, como no momento em que um médico comprova através de exames que é possível que o filho da teóloga nasça com deficiência e, no mesmo instante, sugere a prática do aborto, que nesses casos recebe a aprovação governamental e da junta médica. A tragédia e melancolia, seguindo a risca a ortodoxia, estão presentes também - elementos que tanto apregoam a von Trier esquecendo-se que ele não constrói o seu script em cima de um desfecho negro, ele trabalha as conturbadas relações interpessoais retirando o véu que existe entre elas - mas sem força para se sustentar ou aprofundar as questões levantadas.
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:: A face oculta da lua (La face cachée de la lune)
Por Leonardo Luiz Ferreira

Sinopse:
Às vésperas de defender sua tese de doutorado sobre filosofia da ciência, Phillipe precisa lidar com muitos problemas pessoais. Ele odeia trabalhar como operador de telemarketing, sofre com a recente perda de sua mãe e ainda enfrenta sérias dificuldades de relacionamento com o único irmão, André. O convite para apresentar um resumo de seu trabalho na Rússia traz à tona as
memórias da infância, quando o homem pisou na lua pela primeira vez. Os personagens de Phillipe e André são interpretados pelo mesmo ator (e também diretor do filme) Robert Lepage. Vencedor da mostra Panorama do Festival de Berlim de 2004.


Crítica:
Robert Lepage é um famoso dramaturgo e encenador do teatro canadense. A sua primeira incursão no meio cinematográfico, Mistérios e Paixões, foi lançada em vídeo no Brasil, além de, pelo menos, dois de seus espetáculos terem sido montados por aqui, Needles and Opium e Os Sete Afluentes do Rio Ota. O primeiro contato com sua obra, para a maioria, vem com a chegada de seu quinto longa-metragem, A Face Oculta da Lua. A narrativa descritiva de apresentação já encaminha para que direção seguir. Um homem sonhador, com extrema ligação com o espaço, que formula uma teoria científica baseada em uma análise superficial e distanciada do ser humano. A negação para seu postulado - a bancada universitária nega a aprovação de seu doutorado - gera descontrole, mas não permite a desistência. A morte recente da mãe o obriga a confrontar sua tese e a buscar um novo rumo ou concretizar aquilo que almeja, mesmo que para isso tenha que se expor. Isso se torna mais claro quando entra em conflito com o bem-sucedido irmão, que funciona como um espelho que abre as portas do subconsciente. A encenação de Lepage, que conta com ótima montagem, permanece no meio termo entre a seriedade da proposta e do objetivo e a realização irônica. As comparações com seu compatriota Denys Arcand, de As Invasões Bárbaras, são inevitáveis, pois ele tece também sua crítica a partir da relação narcisista do homem na busca do corpo perfeito, da beleza padronizada, que o afasta da essência. Mas nada é tão político ou sardônico o bastante como no cinema de existencialismo x realidade de Arcand. Robert assume o papel principal, e também o do irmão, e parte para um viés cômico na formação de um tipo caricato, bem excêntrico. Ele apresenta suas teorias de conspiração, seus tiques e cada ambiente se transforma em um divã para destilar suas filosofias e obter um mínimo de interação com seu ouvinte, como na seqüência em que discursa efusivamente para um barman e esvazia a clientela do lugar. Essa construção, complexa à medida que promove digressão a sua infância, é semelhante a do grande cineasta americano Woody Allen. Mas que fica difícil de ser assimilada instantaneamente, afinal a obra tem duração de 100 minutos e se encerra nesse tempo, não havendo possibilidade de um início de um ciclo. A Lua é o refúgio final.
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::Má Educação (La mala educación)
Por Leonardo Luiz Ferreira

Sinopse:
Em meados dos anos 1960, Ignacio e Enrique, dois estudantes de uma escola religiosa no interior da Espanha, descobrem juntos o amor, o cinema e o medo. Eles temem, sobretudo, o padre Manolo, que é um dos professores da instituição e abusa sexualmente dos garotos. Anos mais tarde, Enrique é um
cineasta estabelecido. Em seu escritório, ele recebe a visita de Ignacio, que está tentando a carreira de ator e propõe a realização de um filme sobre o passado, idéia que seduz Enrique. Até que o padre Manolo reaparece em suas vidas. Filme de abertura do Festival de Cannes de 2004.

Crítica:
Almodóvar se transformou em uma celebridade no meio cinematográfico. Sua personalidade excêntrica influencia muito para isso. Assim como a escassez de grandes cineastas, com toques autorais e que tenham seus novos filmes aguardados com ansiedade por cinéfilos do mundo todo. Mas essa afirmação pode gerar a idéia de que seu trabalho se popularizou pois cedeu às exigências de mercado. Pelo contrário, a partir do regular A Flor do Meu Segredo (1995) e do excelente Carne Trêmula (1997), Almodóvar passa dos rascunhos anteriores, com exceções, entre elas A Lei do Desejo (1987), com imperfeições e algumas afetações estilísticas, para uma mise-en-scène magnífica, de habilidade narrativa e apuro técnico, que sabe dialogar com a platéia, atingindo não só a nichos específicos. O ápice dessa nova fase está na obra-prima Fale com Ela (2002), vencedor do prêmio de roteiro original no Oscar, em que utiliza abertamente a metalinguagem - aprofundada em sua nova película - e faz uma declaração de amor as mulheres. As expectativas em torno de Má Educação foram crescentes, porque se trata de um projeto pessoal do diretor, com tons autobiográficos, em um roteiro polêmico sobre o abuso sexual sofrido por crianças em escolas religiosas. Nas mãos de outro cineasta, a história poderia render o tal filme "chocante" que todos esperam, resvalando em clichês de reformatório, na denúncia de maus tratos, desconhecida pela minoria, e dessa forma poderia vencer um grande Festival, como o de Veneza, que entregou seu Leão de Ouro a Em Nome de Deus, de Peter Mullan, que respira dessa cartilha supracitada. Entretanto, Almodóvar realiza um filme que ressalta a sua paixão pelo cinema - deixa isso bem claro nos últimos frames antes dos créditos finais -, que se inicia na infância ao freqüentar uma pequena sala na Espanha para ver estrelas como Audrey Hepburn e em menor escala Sara Montiel. E não parte para a crítica óbvia aos educadores e seu ódio por eles, na verdade, não quer também se aproximar da religiosidade - coloca lado a lado o profano do sagrado, e questiona-os. O longa serve como o exorcismo dos temores, um reencontro com o passado que o remete a seu presente como realizador. A direção de seu olhar toma forma com uma composição pictórica, um dos seus elementos indispensáveis, com cores berrantes, como paredes vermelhas, e roupas extravagantes, com o auxílio nos figurinos do estilista Jean Paul Gaultier. Em contraponto, a sobriedade de tons da Igreja, das vestimentas discretas dos padres, estudantes e de pessoas comuns. Os planos são bem cuidados e realçam detalhes a cada seqüência: os braços afoitos de crianças nadando; a troca de olhares inocentes e apaixonados; e um simples passeio seguido de um mergulho em uma piscina representa mais sexualidade do que todas as muitas e desnecessárias cenas de sexo do filme. Os artifícios metalingüísticos, muito bem utilizados, permitem um excelente jogo cênico com a leitura do roteiro no tempo real da ação vista na tela e o filme dentro do filme. Exatamente, quando abandona o núcleo romântico e decide se aprofundar nas referências é que Almodóvar se perde. Na meia hora final, a fluência narrativa sofre uma quebra e a trama envereda para o gênero policial - com inspiração e homenagem ao cinema noir, vide o pôster de Pacto de Sangue, de Billy Wilder, responsável por uma ironia referencial a cena em questão. O cineasta sem habilidade, nem mesmo do mais simples artesão, para se permitir a entrada no gênero acaba concluindo, sem criar o clima que apenas ressoa no ar, e deixa mal resolvido o envolvimento dos três personagens principais e as conseqüências do seu desdobramento. Letreiros tentam explicar o que poderia ter sido encenado ou pelo menos melhor desenvolvido. Mesmo assim, o cinema continua sendo sua religião e ele um dos poucos realizadores hoje a conseguir compreendê-lo.

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:: Um vazio em meu coração (Ett hal i mitt hjarta)
Por Leonardo Luiz Ferreira

Sinopse:
Eric é um rapaz tímido que passa a maior parte do tempo isolado em seu quarto, ouvindo música, e seu isolamento parece uma forma de se esconder do que acontece no resto do apartamento onde mora com o pai, diretor de filmes pornográficos amadores, o último deles em companhia de seu amigo Geko e de uma moça chamada Tess. À medida que realiza seu trabalho, o trio vai se embebedando e, pouco a pouco, perdendo as inibições que lhes restam. Seu comportamento torna-se mais cada vez mais perturbador, o que os leva a transgredirem todos os limites do bom senso.

Crítica:
Pouco se comentou na imprensa mundial sobre Um Vazio em Meu Coração. Não porque o filme não seja digno de nota, mas ele chega ao Festival do Rio tendo passado apenas no Festival de Toronto, que se encerrou no dia 22 de setembro, e exibido na Suécia, país de origem da produção, no dia 17 de setembro. Definitivamente, a partir de agora passará a ser bastante discutido e criticado. Engana-se quem pensa que se trata de uma obra seminal, que vai abalar a sétima arte. É uma das experiências cinematográficas mais repugnantes dos últimos anos. Já na cabine especial para imprensa, o filme foi recebido com total estranhamento e ao final da sessão cerca de 30% ou menos dos espectadores ainda restavam. O diretor sueco Moodysson foi acometido pela soberba e acreditou mesmo que se tratava do melhor cineasta surgido na Suécia desde o genial Ingmar Bergman. Este afirmou em entrevistas e também no documentário Intermezzo, de Gunnar Bergdahl, presente no Festival do Rio 2003, que Lukas é a grande revelação que o fez despertar para um novo cenário de seu país. Essa rápida fama, mesmo sem prêmios significativos em festivais, foi alcançada com poucos longas, entre eles o divertido Bem-Vindos e o ótimo Para Sempre Lilya - com distribuição garantida, mas sem previsão de lançamento por aqui. O seu novo projeto, com título indefinido por um tempo, foi sendo aos poucos cercado de mistério. A imprensa européia não obteve grandes informações, só se sabia que ele trabalhava com um grupo de atores em uma locação urbana. O marketing a respeito da obra foi crescendo e atingiu o ápice com a proibição do cineasta de que os atores revelassem algo sobre a película antes de seu lançamento. A arte não deve ser escondida e sim debatida. Se ele gostaria de difundir novas idéias e formatar teorias sobre o cinema, o debate seria o caminho mais adequado e não ordens ditatoriais. O filme em questão é um “ensaio poético” mal articulado em que se atiram na tela todo e qualquer tipo de imagem, através de uma desconstrução e uma exagerada edição de som, para compor um manifesto anti-humano. A estética é a de câmera na mão que acompanha o cotidiano doentio de quatro pessoas em um ambiente exíguo. E o formato é o de um falso documentário para provocar a quem assiste. Mas ao defender sua tese, Lukas confunde a transgressão da crítica com o grotesco, como a inserção de uma operação de genital ou o ato de engolir o vômito alheio, o que causa revolta e afasta, ao invés de promover a reflexão. A tortura imagética está escorada em um ínfimo argumento digno de um rebelde sem causa, de um adolescente que odeia o mundo e nem sabe o porquê. No centro está um pai e um filho, que exemplificariam a falência da família. Isto exposto através de depoimentos para câmera, bem como o Big Brother, que recebe um comentário irônico da prostituta. O adolescente enfurnado em um quarto o dia inteiro consegue ter uma percepção completa sobre o universo que o cerca e ele é o porta-voz do diretor. Em pouco tempo, e no meio da escatologia de cenas desconexas de sexo e drogas, o jovem vai dissecar a humanidade, que se recusa a receber ajuda e prefere sofrer até o fim, seguindo apenas a natureza animal, sem confrontar sua realidade e partindo para a fuga sendo destinada a desintegração. Essa análise se reforça com os personagens perdidos que remontam a infância como momento em que os sonhos dão lugar aos pesadelos. Neste instante os indivíduos retratados mostram fotos de quando eram pequenos e ao decorrer da duração do longa, incluindo tomadas deles em posição fetal, vão relembrar que foram molestados por adultos, o que provoca um ciclo de decadência até a extinção. Imaginando que o cineasta tenha mesmo essa idéia, entretanto o formato grosseiro com que ele trata seu material e o próprio público que o assiste faz com que não seja considerada série a proposta. O que desperta diversas questões: É uma brincadeira de mau gosto? Ou o diretor acreditou pretensiosamente de que se trata de um novo gênio? A discussão está aberta: autoria ou picaretagem?
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:: Crimes em Wonderland (Wonderland)
Por Rodrigo Fonseca

Após anos a fio limitado a um gueto, o cinema pornô, uma indústria que longe dos holofotes movimenta milhares de dólares, paga salários de técnicos, câmeras e diretores e ainda sustenta videolocadoras, começa a se revestir de roupagem mais nobre. De uma década para cá, biografias de musas nuas, análises universitárias e até filmes passaram a encarar a usina audiovisual do sexo explícito como tema a ser estudado no mosaico da cultura de massa. O argumento do monótono Crimes em Wonderland (EUA/ Canadá, 2003), de James Cox parecia ser mais um esforço do cinema dito sério de abordar a trajetória da pornografia na tela.

Até porque, o que mais se poderia esperar da cinebiografia de um mito desse gênero, o ator John Holmes? Morto em 1988, vítima de Aids, ele, ao longo de 2 mil filmes, fez nada menos do que 10 mil mulheres felizes à custa de seus, digamos, dotes naturais. Mas tais dotes não encheram os olhos de Cox. Ele preferiu atentar para outro aspecto da vida de Holmes: sua decadência profissional. E essa fase está atrelada a seu envolvimento com tráfico de drogas e, em especial, a um violento massacre do qual teria participado em 1981. É nesse episódio que o longa se detém.

Cox chamou para o papel central um Val Kilmer largadão, levemente barrigudo e de rosto inchado, bem distante do galã que rivalizou com Tom Cruise em Top Gun (1986) e atacou de herói sedutor em O santo (1997). Aliás, todo o elenco é bem curioso, já que reúne atores habitualmente bons, como Lisa Kudrow, Dylan McDermott e Tim Blake Nelson. Até o polêmico dramaturgo Eric Bogosian, astro de Talk Radio - Verdades que matam (1988), faz uma ponta.

Mas, diante de um roteiro cheio de declives, calcado apenas no sensacionalismo - não sexual, mas de sangrentas cenas de tiroteio mal filmados - bom intérprete nenhum dá jeito. Menos ainda um Kilmer insosso. A montagem acaba por prejudicar a história, já que idas e vindas no tempos e muitas perspectivas para os fatos embaralham a compreensão.
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:: Durante o fim (João Trabulo)
por João Marcelo F. de Mattos

À nova geração do cinema de arte radical português (Pedro da Costa, João Pedro Rodrigues, entre outros) mais um nome se junta. João Trabulo cria uma obra chatíssima, é verdade, pois cansativa em sua curta (70 minutos) placidez, e para poucos, em que se alternam platitudes intelectuais e conceitos de real inspiração. Mas na qual existe notável coerência entre o estilo e o que este procura demonstrar: uma convicção sincera e forte em sua pureza, do poder e grandeza da arte. Ainda por cima, há dupla e tocante homenagem a Andrei Tarkovski.
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:: Antes do pôr-do-sol (Richard Linklater)
Por Leonardo Luiz Ferreira

O diretor Richard Linklater não é considerado um autor pela crítica ou comentado em rodas de discussão entre cinéfilos. Mas tem uma boa carreira, atualmente bastante prolixa, com a experiência onírica e delirante de Waking life e com o ótimo Escola de rock, um produto comercial sim, que destila finas ironias. Antes do amanhecer, a sua película mais famosa, é um dos melhores romances dos anos 90. E uma continuação seria, em teoria, desnecessária. Mas ao assistir, percebe-se que não. É uma poesia de e sobre o amor, como um instante pode valer mais que a vida inteira. Rodado com planos-seqüências, que remetem ao realismo de “passar” aquele dia com o casal, com diálogos maduros sobre diversos temas, de verborragia típica francesa, e uma proximidade que gera a cumplicidade. O amor em estado bruto, puro, aquele da adolescência que todos sonham para que se concretize, mas escapa ou nunca vem. Permita que o acaso faça sua parte.
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:: Céu azul (Moon Sang Kim e Sunmin Park)
Por João Marcelo F. de Mattos

Este desenho-animado vem da Ásia, mas não é japonês. É coreano, logo não pode ser chamado de anime, tal como o são os desenhos nipônicos. Entretanto, muitas das características de um anime aqui estão presentes: voracidade sentimental que beira a pieguice, traços rebuscados de excelente qualidade, e um certo pessimismo. Muito pessimismo, aliás, nesse distopia futurista (que novidade...) com ecos suaves de Metropólis (como tantos outros filmes). Rejeitará o filme quem não aprecia os anime, que para muita gente são uma espécie de gosto adquirido.
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:: O jogador de cartas(Dario Argento)
Por João Marcelo F. de Mattos

O cineasta italiano Dario Argento é subestimado por muitos, superestimado por outros tantos. Mestre-mor vivo do subgênero giallo, em seus melhores momentos oferece exuberância cinematográfica de forma adorável em seu despudor criativo possibilitando à platéia ótima fruição imagética. Em seus piores momentos, de encenação medíocre, como neste filme todo (exceção feita ao assassinato na água), os defeitos saltam aos olhos: indigência na dramaturgia, perfil ridículo de personagens, tosca direção de intérpretes. Vale pela tal morte e por certa nostalgia de um modelo de cinema popular.
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:: Confidências muito íntimas (Patrice Leconte)
Por João Marcelo F. de Mattos

Polêmico e problemático não-autor (segundo os cânones da terminologia) do cinema francês (brigado com boa parte da crítica de seu país), e que já assinou grandes filmes, Patrice Leconte está em terreno que lhe apetece: o das ironias cheias de filigranas em torno de processos comunicativos. A obra tem problemas e procedimentos de ambígua validade, não “vibra” como deveria, mas é prazer imenso acompanhar a seriedade do porte (aparentemente) fragilizado de Sandrine Bonnaire, e o sempre soberbo Fabrice Lucchini, que tem uma das expressões de falso sonso mais interessantes do cinema.
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:: Whisky (Pablo Stoll e Juan Pablo Rebella)
Por Leonardo Luiz Ferreira

A tão propalada “nueva onda latina” é centrada na imprensa em longas brasileiros ou argentinos, que realmente atravessam uma ótima fase. Então porque acreditar que exista um novo e vigoroso cinema latino representado por todos os países? São obras esparsas, sem uma unidade ou uma qualidade especial. O fraco Cinesul comprova isso. Mas dentre as exceções está justamente o uruguaio Whisky. Um drama sobre o cotidiano, a passagem do tempo. O título faz referência ao sorriso falso, que muitos fazem ao tirar fotos, que tenta transmitir um sentimento inexistente. Os indivíduos no século XXI vivem para só sobreviver, e não viver. Narrativa e roteiro simples, uma direção que reforça os movimentos contínuos e repetitivos do dia-a-dia, como as operárias da fábrica de meias. Nem se percebe a rotina, tudo é feito no automático. Inúmeros dramas baseiam seus roteiros em reviravoltas, nos personagens que encontram um caminho melhor durante o tempo de projeção. Em Whisky não, é uma realidade melancólica que se reflete muito além da tela.
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:: Mods (Serge Bozon)
Por João Marcelo F. de Mattos

Buscar o fora do comum não é em si qualidade ou defeito. Quando o diferencial se coaduna com categoria na execução temos algo elogiável. O humor anti-naturalista e peculiar deste filme parte de diálogos e frases que a princípio sugerem distanciamento crítico meio posado e artificial, mas são puro non sequitur lúdico de verdade, que pela inteligência, ironiza sem um pingo de empáfia (ao contrário) diversos clichês. Somando a isso, a petulância bonitinha da diatribe na paródia física das encenações musicais. Obra para agradar a poucos, porém, estes poucos serão muito bem agradados.
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:: Olhos de rinoceronte (Aaron Woodley)
Por Nelson Gobbi

Em um evento com a extensão do Festival do Rio, com mais de 300 filmes exibidos, é praticamente impossível evitar que boa parte da programação caia em algum tipo de rótulo - a própria organização da maratona cinematográfica propicia a simplificação de suas atrações, dividindo parte do roteiro em mostras de critério amplamente subjetivo, como "Capacete" e "Mundo Gay". Tal direconamento é compreensível, partindo do princípio de que uma das funções da crítica e da direção da mostra é oferecer parâmetros que permitam ao público selecionar melhor sua programação. Contudo, alguns filmes acabam tachados com adjetivos que não refletem interamente sua essência. Olhos de rinoceronte, de Aaron Woodley, é um desses casos.

O filme é tido como um dos mais estranhos do festival, o que não deixa de ter propósito, considerando alguns de seus personagens, como um velha dançarina de can-can que espanca o marido com seu braço mecânico, um policial apaixonado por antigos musicais, ou um homem misterioso que corre nu pelas ruas. Porém, a narrativa poética transcende as excentricidades dos personagens, bem como as situações inusitadas do roteiro, criando uma pequena fábula sobre o limite entre sonhos e realidade.

A trama é centrada em Cheep (Michael Pitt), um jovem introvertido, cuja vida divide-se entre o trabalho no galpão abarrotado de objetos de cena, onde também vive, e idas constantes ao cinema, para assistir a um antigo dramalhão de guerra. Recluso e atormentado por surtos psicóticos, que dão vida aos objetos do depósito, o contra-regra perde-se no limiar da fantasia e do mundo real ao se apaixonar por uma diretora de arte, que chega ao galpão procurando olhos de rinoceronte para um filme. A partir daí Cheep se torna capaz de qualquer coisa para atender as necessidades profissionais de sua amada.

O roteiro não se aprofunda na personalidade dos demais personagens, além do casal central, e recorre ao clichê de retratar o cinema como fuga da realidade, tema imortalizado por Woody Allen em A rosa púrpura do Cairo. No entanto, nada isso prejudica a narrativa irônica do longa-metragem, nem abala a singela homenagem do diretor aos musicais e filmes noir. De forma lúdica, Olhos de rinoceronte cria um universo fabuloso para relativizar os parâmetros da sanidade mental (onde é melhor viver, em uma fantasia idealizada ou na crueza do mundo real?). Destaque para a primorosa direção de arte e para a bilheteira do cinema apaixonada por Cheep, quase um clone da cantora Björk, só que bonita.
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:: 'Vera Drake' Ensaio sobre a ignorância
Por Rodrigo Fonseca

Gente patética. É delas que trata Mike Leigh. Nunca com juízos críticos definitivos ou olhares acusatórios, tampouco com panos quentes. É com o benefício da dúvida (e um velado humanismo) que o diretor inglês fala de pessoas como a protagonista do tristonho mas vigoroso Vera Drake, vencedor do Leão de Ouro no último Festival de Veneza.

Inegavelmente, Vera Drake, história de uma faxineira que ajudava jovens mulheres a abortarem na Inglaterra de 1950, é um filme ''quadrado'', o que não quer dizer que seja um filme ruim. Pelo contrário. Seu roteiro fica preso à tradição de um ''começo-meio-e-fim'' no devido lugar, sem flertar um segundo que seja com a experimentação. Mas isso foi opção, não desleixo.

Isso não chega a ser novo na carreira de Leigh. À exceção do vistoso Topsy-Turvy - O espetáculo (1999), o filme mais próximo de suas raízes teatrais - o diretor é autor de mais de 20 peças -, seus trabalhos como cineasta se sustentam na crônica de costumes de uma Londres casmurra, miúda, imersa em intrigas ''sócio-sentimentais''. É o caso de Nu (1993) e de Segredos e mentiras (1996) . Em Vera Drake, são as tintas políticas que ganham evidência.

Preservando um tom trágico sem descambar para afetações, Leigh quase faz do filme uma plenária sobre o moralismo. Fica na intenção, por confiar no julgamento do espectador. E oferece a Imelda Stauton - Copa Volpi de melhor atriz em Veneza - a chance de desfilar talento. Imelda compõe uma personagem ingênua que acredita apenas estar fazendo o bem, sem saber que a ignorância (assim como a bondade) cobra preços altos.
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:: Um dia sem mexicanos (Sergio Arau)
Por Nelson Gobbi

Perdido entre o panfleto e o beteirol, Um dia sem mexicanos é prejudicado pelos excessos de suas opções narrativas. O longa-metragem do mexicano radicado em Los Angeles Sergio Arau - filho de Alfonso Arau, diretor de Como água para chocolate - é uma engajada comédia sobre o preconceito sofrido pelos latinos nos Estados Unidos, relativizado através da questão central do roteiro: o que aconteceria se todos os imigrantes hispânicos desaparecessem misteriosamente da noite para o dia? O filme decorre desta premissa fantástica, quando uma estranha névoa isola o Estado da Califórnia do resto da federação americana, e provoca o desaparecimento de todos os "chicanos", uma das formas depreciativas como os latinos são chamados na Grande Nação do Norte.

O que inicialmente parece a materialização dos desejos da ala conservadora norte-americana, torna-se um pesadelo para a economia da Califórnia, já que um terço da população do Estado é formada por latinos e seus descendentes. O lixo acumula nas ruas, restaurantes têm de fechar as portas, escolas perdem um quarto de suas professoras primárias e a agricultura, principal fonte de renda do Estado, entra em colapso após o sumiço quase total de seus trabalhadores. O filme aproveita para derrubar alguns mitos, como a demanda de verbas sociais destinadas à população de origem hispânica: se a Califórnia destina anualmente US$ 3 bilhões aos latinos, estes contribuem com US$ 100 bilhões aos cofres do Estado, em serviços.

A abordagem pseudo-documental criada pelo diretor se dá através de programas televisivos, que discutem sem êxito a razão do desaparecimento dos hispânicos. O pânico coletivo abre espaço até para um ufólogo delirante teorizar sobre a semelhança entre o formato dos sombreiros mexicanos e os discos voadores, além de um possível contato extra-terrestre com a civilização Asteca. Apesar de divertido, o filme peca tanto pela excessiva sucessão de piadas (como o desaparecimento de celebridades, do tenor espanhol Plácido Domingo à atriz mexicana Salma Hayek), quanto pelo teor panfletário - e um tanto didático - das informações sobre a importância da comunidade latina nos EUA, apresentadas ao longo da história. Um híbrido de As amazonas na lua e Pão e rosas, que garante boas risadas, mas não vai além disso.
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:: Contra a parede (Fatih Akin)
Leonardo Luiz Ferreira

Os júris de grandes festivais são compostos por pessoas ligadas ao meio cinematográfico e provenientes de diferentes nacionalidades. Essa mistura faz com que se crie uma heterogeneidade que, por suposição, traz um julgamento mais isento e único, sem beneficiar um determinado país. Por um lado o não apego a bandeira, mas por outro o deslumbre com culturas diferentes, esquecendo-se muitas vezes do mérito artístico. No cinema de hoje, em sua maioria superficial nos contornos humanos, os cineastas optam por uma abordagem centrada do exótico para retirar dali reações inesperadas. Para facilitar isso, a instituição familiar e o casamento são os alvos mais recorrentes. O extrato cultural vai estar limitado a uma cerimônia de casamento em que se desfilam arquétipos. Apenas para se ater ao recente, os exemplos são Um casamento à indiana, de Mira Nair, Casamento grego, de Joel Zwick, As bodas (russo), de Pavel Longuine. Contra a parede é o turco.

A história deste se entrelaça a partir da união matrimonial, abusando dos costumes e danças típicos. Retirando o invólucro que atrai júri e público, resta um imperfeito romance, com propensões suicidas despropositadas, de personagens mal delineados, que embarcam em uma falsa jornada de autodestruição ao calcular cada passo. A melancolia da trilha, capitaneada por Depech Mode, e as referências aos anos 80 passam ao largo do centro da ação, que conta com diálogos ruins como “Meu marido muge como um boi quando está transando”. A tentativa é de chocar pela violência física, regada a sexo e drogas, e verbal, sem qualidade para isso, e não narrar um belo conto de amor, uma tragédia moderna, além de expor muito pouco da cultura turca,.
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:: Steamboy (Katsuhiro Otomo)
Por Antero Leivas

Acertadamente, este desenho levou quase dez anos em produção e gastou mais de US$ 20 milhões. Katsuhiro Otomo, o criador do superestimado Akira realizou sua obra máxima e, quiçá, um dos melhores desenhos animados da história. Sem apelar para bichinhos engraçadinhos, atmosfera sobrenatural ou monstros ridículos, Otomo (desenhista, roteirista e diretor) realiza uma aventura que muito 'blockbuster live-action' queria ser e não conseguiu.

Através dos olhos do jovem Ra Stim, o Steam Boy do título, somos apresentados a uma Europa do século 19, apinhada de inventores corrompidos pelo poder. De como uma nova fonte de energia pode, ao invés de incitar ao progresso, causar destruição e medo. Sem se preocupar em distinguir o bem do mal, o filme não lança mão dos confortáveis maniqueísmos de praxe neste tipo de saga, pelo contrário, segue por uma trilha pouco recorrida pelo cinema atual: a originalidade. E aí a ficção científica é mera conseqüência dentro de uma realidade alternativa num mundo recém industrializado. Algo como se a Era Industrial fosse muito mais significativa e producente do que realmente foi.

De minuciosa reconstituição histórica, este épico adiciona ao passado um maquinário bélico avançadíssimo, incluindo exércitos em armaduras mecânicas e geringonças voadoras que, se possível fossem, já teriam exterminado o planeta. E ainda dispensa recursos de que os animes como conhecemos costumam ser acometidos: expressões faciais esgazeadas, piadas infantilóides e ação desenfreada e gratuita. Aliás, SteamBoy tem ação desenfreada sim, mas segue um contexto lógico, sem gratuidades e o que é melhor, desviando quase sem esbarrar nos inexoráveis clichês. No clima dos antigos seriados cinematográficos de aventura e rico em influências que vão de Tintim de Hergé à Flash Gordon, passando pelo quadrinho europeu dos anos 1960 e 70, as mais de duas horas de projeção não são notadas e a animação flui solta e beirando a perfeição (o que o auxílio luxuoso da informática não faz...).

Disparado, a melhor atração deste festival, o que mostra que desde Akira, seu criador vem se aperfeiçoando. Saberemos se ele aprendeu mais, na continuação que, esperemos, não leve uma década para ser feita: SteamGirl. Imperdível, é o mínimo a se dizer sobre esse valoroso espetáculo.
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:: Família rodante (Pablo Trapero)
Por Nelson Gobbi

Ficção com toques auto-biográficos, Família rodante acompanha a viagem de uma família pelo interior da Argentina, da da capital Buenos Aires até a província de Missiones, região de grande beleza natural que faz fronteira com o Brasil. A trama gira em torno de Vovó Emília (interpretada pela octagenária avó do diretor Pablo Trapero, Graciana Chironi), que em seu aniversário de 84 anos decide viajar até sua terra natal, para ser dama-de-honra do casamento de sua sobrinha-neta. Toda a famíla pega a estrada em um motor-home adaptado, enfrentando as dificuldades da longa jornada e dos próprios obstáculos familiares.

Repleto de planos deslumbrantes do interior da Argentina, o filme segue o padrão dos roadie-movies, no qual a viagem se transforma numa saga de auto-conhecimento, marcada por uma série de conflitos entre os personagens. Além da sucessão de percalços enfrentados durante o trajeto, a família também tem de lidar com suas diferenças, alimentadas por desentendimentos entre entre sogro e genro e uma paixão não-resolvida entre cunhados. No afã de criar um novo conflito a cada quilômetro do percurso, o diretor acaba deixando de lado os aspectos reflexivos da sua narrativa. Quando é fiel ao tempo de Vovó Emília, o filme ganha em densidade, como nas sequências iniciais e no plano final, onde a atriz Graciana Chironi dota sua personagem de toda a dolorosa sabedoria de uma matriarca que já não pode oferecer muito à sua prole, além de conselhos e orações.
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:: Capitão Sky e o mundo de amanhã (Kerry Conran)
Por Nelson Gobbi

Cinema-pipoca de primeira, Capitão Sky e o mundo de amanhã oferece ao espectador um entretenimento sofisticado, e, à sétima arte, uma revolução na forma de fazer filmes. Rodado com cenários totalmente virtuais, o longa-metragem de estréia do diretor Kerry Conran congrega componentes indispensáveis aos gêneros de aventura e ficção científica: um herói intrépido, uma heroína irreverente, boas doses de ação em sucessões de planos curtos e ágeis, efeitos especiais impressionantes, e, principalmente, uma trama bem amarrada, desencadeada pelo misterioso desaparecimento dos principais cientistas de todo o mundo.

Travestido numa espécie de Indiana Jones da Força Aérea Americana, Jude Law ratifica seu nome como a bola da vez entre os galãs hollywoodianos, ao interpretar o intrépido e sarcástico piloto Joe Sullivan, o Capitão Sky do título. Se o personagem não alcança o carisma do arqueólogo mais famoso do cinema, imortalizado por Harrison Ford, Law acerta no acento canastrão do protagonista, dentro da proposta arquetípica de um herói dos anos 30. Gwyneth Paltrow convence menos na pele da repórter Polly Perkins, já que a personagem se perde entre o tipo da heroína voluntariosa, porém desastrada, e as funções de par romântico e parceira cômica do protagonista.

Os atores de carne e osso dividem as atenções do espectador com o mundo virtual que os cerca. Os cenários, os robôs, as naves e demais traquitanas cibernéticas, as batalhas aéreas e submarinas são criados por computador, bem como a luz opaca e a granulação do filme, que compõem seu nostálgico visual preto-e-branco. O universo criado por Conran segue a estética dos quadrinhos e de antigos seriados de ficção-científica, como Flash Gordon e Buck Rogers, dando às inovações tecnológicas o aspecto imaginado na década de 30, onde não destoariam das linhas dos dirigíveis ou do caça monomotor do Capitão Sky.

É a computação gráfica que também cria uma das maiores atrações do filme, a presença do ator Lawrence Olivier, que morreu em 1989, "interpretando" o misterioso vilão Dr Totenkopf, um cientista genial cujos delírios megalômanos ameaçam a vida na Terra. Além dos efeitos especiais sofisticados que, integrados à estética e à narrativa do filme, transcendem às sequências banais de explosões dos blockbusters do gênero, outra atração à parte é Angelina Jolie, no papel da durona Capitã Frankie Cook, que de tapa-olho não fica devendo nada à Daryil Hannah.
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:: Getting the man’s foot outta your baadasssss! (Mario Van Peebles)
Por Nelson Gobbi

Até 1971 os negros mantinham um papel secundário no cinema norte-americano. Se não interpretavam escravos, criados, bandidos, entre outros estereótipos (não muito diferente do que acontece na teledramaturgia brasileira), os personagens reservado a atores negros dificilmente fugiam à caricatura, mostrados de forma pejorativa e em evidente subordinação aos núcleos brancos. Antenado com as lutas pelos direitos civis, que culminaram com as mortes de Martin Luther King e Malcon X, e fenômenos como a resistência da comunidade negra em lutar no Vietnã e o surgimento dos Panteras Negras, o cineasta Melvin Van Peebles decidiu criar um filme que mostrasse sua etnia sem preconceitos ou estereótipos, nem que para isso tivesse de arriscar seu patrimônio e sua carreira.

A história do célebre longa-metragem Sweet Sweetback's Badassss song (1971), que deu origem ao blaxploitation - série de filmes voltados para platéias negras, realizados por atores, diretores e equipe técnica negros - é contada em Getting the man’s foot outta your baadasssss!, dirigido e estrelado por Mario Van Peebles, filho de Melvin. A cinebiografia mostra como o pai do cineasta contornou o conservadorismo e o preconceito racial de Hollywood para realizar seu sonho, que muitos viam como uma afronta aos pilares da sociedade branca norte-americana. O protagonista Sweetback é um personagem de moral dúbia, ao contrário dos típicos heróis brancos de caráter ilibado que fizeram a história do cinema norte-americano. Para a geração que cresceu assistindo John Wayne matar índios como moscas sem questionar a ética de sua valentia, um personagem negro que recorria a seus atributos sexuais para atingir seus objetivos e era perseguidos por policiais brancos corruptos era um barril de pólvora em forma de celulóide, numa época de confrontos raciais acirrados.

Além da ótima reconstituição de época, o filme de Mario Van Peebles tem o mérito de mostrar, de maneira apaixonada mas isenta, até que ponto seu pai foi capaz de chegar para ver concluída sua obra, que comprometeu suas finanças, carreira, família e saúde. O cineasta e ator, que viveu o personagem Sweetback quando criança no filme original e interpreta o pai em seu filme, dá a dimensão da obstinação paterna em concluir seu projeto, ainda que para isso tivesse de tomar atitudes eticamente questionáveis, como endividar-se com agiotas e deixar parte da equipe presa durante dois dias, acusada de roubo de equipamento.

Como boa parte do público já conhece o fim da trajetória da obra-prima de Melvin - apesar de todas as adversidades, o filme se torna um sucesso de bilheteria graças ao público negro, que finalmente pôde identificar-se com um herói no cinema, abrindo caminho para outros ícones black, como Shaft, Cleoprata Jones e Foxy Brown - o melhor de Getting the man’s foot outta your baadasssss! é a reconstituição da produção do filme original, que revela o comediante Bill Cosby como uma das poucas pessoas a acreditar no potencial da obra, ou como o iniciante grupo Earth, Wind and Fire foi catapultado para fama ao compor a trilha sonora do longa. Mais do que retratar a gênese do blaxploitation, gênero que voltou à moda após Jackie Brown (1997), de Quentin Tarantino e foi o tema do documentário Baadasssss cinema (2002), de Isaac Julien, a homenagem de Mario Van Peebles a seu pai prova como a ousadia para romper padrões estabelecidos é essencial à vitalidade de qualquer cinematografia. Impossível não associar a trajetória do diretor norte-americano com a história de José Mojica Marins, que provou, sob a incredulidade de muitos críticos e colegas cineastas, ser viável adaptar o gênero de terror à tradição brasileira, ainda que para isso precisasse viver à sombra de sua criatura, o imortal personagem Zé do Caixão.
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:: Suíte Havana (Fernando Pérez)
Por Nelson Gobbi

Uma das melhores atrações do Festival do Rio 2004, Suíte Havana traça um panorama da capital cubana, revelada ao público através dos olhos de seus personagens reais. O diretor Fernando Pérez recorre a não-atores para mostrar, através de suas atividades cotidianas, a passagem de um dia na cidade caribenha. Dialogando com o formato dos "filmes-sinfonia", como Berlim, sinfonia da metrópole (1927), de Walter Ruttman (maior expoente do sub-gênero caracterizado pela construção de um painel urbano através da união de imagens e sons que remetam a tal universo), o longa-metragem transpõe a fronteira entre ficção e documentário para criar um mosaico livre das simplificações socio-políticas com as quais o mundo se volta para a ilha de Fidel Castro.

Havana pode ser entendida através de suas próprias sutilezas, manifestadas tanto na arquitetura corroída pela penúria do regime da ilha, como no semblante de seus habitantes, acompanhados com cumplicidade pela câmera de Pérez, que em nenhum momento descamba para o sentimentalismo exacerbado ou para um olhar paternalista e ideologizado, que fatalmente comprometeriam a narrativa. As dificuldades enfrentadas pelos personagens, como um jovem que sustenta a família como pedreiro durante o dia, para a noite se dedicar ao balé clássico, não são mostradas de forma condescendente pelo diretor, que prefere valorizar a inteligência do espectador a entorpecê-lo com fórmulas dramáticas de apelos rasteiros. Tal opção permite que um garoto com síndrome de Down se revele como um componente ativo da sociedade, longe do discurso complacente que costuma deturpar histórias que envolvem deficiências físicas e mentais.

Assim também são mostrados outros personagens que compõem a colcha de retalhos cosida entre os diversos aspectos da capital cubana. A senhora que sustenta o marido idoso vendendo amendoim torrado nas ruas da cidade e dedica algumas de suas horas de sono à pintura; um funcionário de linha férrea que toca saxofone na igreja; o encarregado da limpeza de um hospital que brilha no palco encarnando um personagem inusitado. Manifestações humanas da condição mutante da cidade, que esconde suas surpresas e contradições sob os universos paralelos reservados a sua população ou aos turistas.

edição e a música de Edesio Alejandro e Ernesto Cisneros dão densidade às imagens dos prédios, monumentos e pessoas dos quais Havana é feita. Aos acordes da trilha fundem-se os sons da cidade, orquestrados pela rotina das ruas e de cada personagem. Sem um único diálogo, Fernando Pérez conduz sua crônica com invejável eloquência, tornando o espectador íntimo de cada recanto da capital cubana, ao mesmo tempo que reforça a complexidade de sua sociedade, aparentemente insondável aos olhos estrangeiros. Um exercício cinematográfico ambicioso e sinceramente tocante, que serve de exemplo identitário às escolas latino-americanas e a própria cinematografia brasileira, que por vezes se perde em busca de um modelo fabuloso que congregue qualidade ao apelo popular.
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