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Suíte Havana (Fernando Pérez)
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Em
suas Mãos (Forbrydelser) Sinopse: Crítica:
:: A
face oculta da lua (La face cachée de la lune) Sinopse:
::Má
Educação (La mala educación) Sinopse: Crítica:
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Um
vazio em meu coração (Ett hal i mitt hjarta) Sinopse: Crítica: ::
Crimes
em Wonderland (Wonderland) Após anos a fio limitado a um gueto, o cinema pornô, uma indústria que longe dos holofotes movimenta milhares de dólares, paga salários de técnicos, câmeras e diretores e ainda sustenta videolocadoras, começa a se revestir de roupagem mais nobre. De uma década para cá, biografias de musas nuas, análises universitárias e até filmes passaram a encarar a usina audiovisual do sexo explícito como tema a ser estudado no mosaico da cultura de massa. O argumento do monótono Crimes em Wonderland (EUA/ Canadá, 2003), de James Cox parecia ser mais um esforço do cinema dito sério de abordar a trajetória da pornografia na tela. Até porque, o que mais se poderia esperar da cinebiografia de um mito desse gênero, o ator John Holmes? Morto em 1988, vítima de Aids, ele, ao longo de 2 mil filmes, fez nada menos do que 10 mil mulheres felizes à custa de seus, digamos, dotes naturais. Mas tais dotes não encheram os olhos de Cox. Ele preferiu atentar para outro aspecto da vida de Holmes: sua decadência profissional. E essa fase está atrelada a seu envolvimento com tráfico de drogas e, em especial, a um violento massacre do qual teria participado em 1981. É nesse episódio que o longa se detém. Cox chamou para o papel central um Val Kilmer largadão, levemente barrigudo e de rosto inchado, bem distante do galã que rivalizou com Tom Cruise em Top Gun (1986) e atacou de herói sedutor em O santo (1997). Aliás, todo o elenco é bem curioso, já que reúne atores habitualmente bons, como Lisa Kudrow, Dylan McDermott e Tim Blake Nelson. Até o polêmico dramaturgo Eric Bogosian, astro de Talk Radio - Verdades que matam (1988), faz uma ponta. Mas, diante de um roteiro cheio de declives, calcado
apenas no sensacionalismo - não sexual, mas de sangrentas cenas
de tiroteio mal filmados - bom intérprete nenhum dá jeito.
Menos ainda um Kilmer insosso. A montagem acaba por prejudicar a história,
já que idas e vindas no tempos e muitas perspectivas para os fatos
embaralham a compreensão.
:: Durante o fim (João
Trabulo) À nova geração do cinema
de arte radical português (Pedro da Costa, João Pedro Rodrigues,
entre outros) mais um nome se junta. João Trabulo cria uma obra
chatíssima, é verdade, pois cansativa em sua curta (70 minutos)
placidez, e para poucos, em que se alternam platitudes intelectuais e
conceitos de real inspiração. Mas na qual existe notável
coerência entre o estilo e o que este procura demonstrar: uma convicção
sincera e forte em sua pureza, do poder e grandeza da arte. Ainda por
cima, há dupla e tocante homenagem a Andrei Tarkovski.
:: Antes do pôr-do-sol
(Richard Linklater) O diretor Richard Linklater não é considerado um autor
pela crítica ou comentado em rodas de discussão entre cinéfilos. Mas tem
uma boa carreira, atualmente bastante prolixa, com a experiência onírica
e delirante de Waking life e com o ótimo Escola de rock,
um produto comercial sim, que destila finas ironias. Antes do amanhecer,
a sua película mais famosa, é um dos melhores romances dos anos 90. E
uma continuação seria, em teoria, desnecessária. Mas ao assistir, percebe-se
que não. É uma poesia de e sobre o amor, como um instante pode valer mais
que a vida inteira. Rodado com planos-seqüências, que remetem ao realismo
de “passar” aquele dia com o casal, com diálogos maduros sobre diversos
temas, de verborragia típica francesa, e uma proximidade que gera a cumplicidade.
O amor em estado bruto, puro, aquele da adolescência que todos sonham
para que se concretize, mas escapa ou nunca vem. Permita que o acaso faça
sua parte.
:: Céu azul (Moon Sang Kim
e Sunmin Park) Este desenho-animado vem da Ásia, mas não é japonês.
É coreano, logo não pode ser chamado de anime, tal como o são os
desenhos nipônicos. Entretanto, muitas das características de um anime
aqui estão presentes: voracidade sentimental que beira a pieguice, traços
rebuscados de excelente qualidade, e um certo pessimismo. Muito pessimismo,
aliás, nesse distopia futurista (que novidade...) com ecos suaves de Metropólis
(como tantos outros filmes). Rejeitará o filme quem não aprecia os anime,
que para muita gente são uma espécie de gosto adquirido.
:: O jogador de cartas(Dario
Argento) O cineasta italiano Dario Argento é subestimado por
muitos, superestimado por outros tantos. Mestre-mor vivo do subgênero
giallo, em seus melhores momentos oferece exuberância cinematográfica
de forma adorável em seu despudor criativo possibilitando à platéia ótima
fruição imagética. Em seus piores momentos, de encenação medíocre, como
neste filme todo (exceção feita ao assassinato na água), os defeitos saltam
aos olhos: indigência na dramaturgia, perfil ridículo de personagens,
tosca direção de intérpretes. Vale pela tal morte e por certa nostalgia
de um modelo de cinema popular.
:: Confidências muito íntimas
(Patrice Leconte) Polêmico e problemático não-autor (segundo os cânones
da terminologia) do cinema francês (brigado com boa parte da crítica de
seu país), e que já assinou grandes filmes, Patrice Leconte está em terreno
que lhe apetece: o das ironias cheias de filigranas em torno de processos
comunicativos. A obra tem problemas e procedimentos de ambígua validade,
não “vibra” como deveria, mas é prazer imenso acompanhar a seriedade do
porte (aparentemente) fragilizado de Sandrine Bonnaire, e o sempre soberbo
Fabrice Lucchini, que tem uma das expressões de falso sonso mais interessantes
do cinema.
:: Whisky (Pablo Stoll e
Juan Pablo Rebella) A tão propalada “nueva onda latina” é centrada na imprensa
em longas brasileiros ou argentinos, que realmente atravessam uma ótima
fase. Então porque acreditar que exista um novo e vigoroso cinema latino
representado por todos os países? São obras esparsas, sem uma unidade
ou uma qualidade especial. O fraco Cinesul comprova isso. Mas dentre as
exceções está justamente o uruguaio Whisky. Um drama sobre o cotidiano,
a passagem do tempo. O título faz referência ao sorriso falso, que muitos
fazem ao tirar fotos, que tenta transmitir um sentimento inexistente.
Os indivíduos no século XXI vivem para só sobreviver, e não viver. Narrativa
e roteiro simples, uma direção que reforça os movimentos contínuos e repetitivos
do dia-a-dia, como as operárias da fábrica de meias. Nem se percebe a
rotina, tudo é feito no automático. Inúmeros dramas baseiam seus roteiros
em reviravoltas, nos personagens que encontram um caminho melhor durante
o tempo de projeção. Em Whisky não, é uma realidade melancólica
que se reflete muito além da tela.
:: Mods (Serge Bozon) Buscar o fora do comum não é em si qualidade ou defeito.
Quando o diferencial se coaduna com categoria na execução temos algo elogiável.
O humor anti-naturalista e peculiar deste filme parte de diálogos e frases
que a princípio sugerem distanciamento crítico meio posado e artificial,
mas são puro non sequitur lúdico de verdade, que pela inteligência,
ironiza sem um pingo de empáfia (ao contrário) diversos clichês. Somando
a isso, a petulância bonitinha da diatribe na paródia física das encenações
musicais. Obra para agradar a poucos, porém, estes poucos serão muito
bem agradados.
:: Olhos de rinoceronte
(Aaron Woodley) Em um evento com a extensão do Festival do Rio, com mais de 300 filmes exibidos, é praticamente impossível evitar que boa parte da programação caia em algum tipo de rótulo - a própria organização da maratona cinematográfica propicia a simplificação de suas atrações, dividindo parte do roteiro em mostras de critério amplamente subjetivo, como "Capacete" e "Mundo Gay". Tal direconamento é compreensível, partindo do princípio de que uma das funções da crítica e da direção da mostra é oferecer parâmetros que permitam ao público selecionar melhor sua programação. Contudo, alguns filmes acabam tachados com adjetivos que não refletem interamente sua essência. Olhos de rinoceronte, de Aaron Woodley, é um desses casos. O filme é tido como um dos mais estranhos do festival, o que não deixa de ter propósito, considerando alguns de seus personagens, como um velha dançarina de can-can que espanca o marido com seu braço mecânico, um policial apaixonado por antigos musicais, ou um homem misterioso que corre nu pelas ruas. Porém, a narrativa poética transcende as excentricidades dos personagens, bem como as situações inusitadas do roteiro, criando uma pequena fábula sobre o limite entre sonhos e realidade. A trama é centrada em Cheep (Michael Pitt), um jovem introvertido, cuja vida divide-se entre o trabalho no galpão abarrotado de objetos de cena, onde também vive, e idas constantes ao cinema, para assistir a um antigo dramalhão de guerra. Recluso e atormentado por surtos psicóticos, que dão vida aos objetos do depósito, o contra-regra perde-se no limiar da fantasia e do mundo real ao se apaixonar por uma diretora de arte, que chega ao galpão procurando olhos de rinoceronte para um filme. A partir daí Cheep se torna capaz de qualquer coisa para atender as necessidades profissionais de sua amada. O roteiro não se aprofunda na personalidade dos demais
personagens, além do casal central, e recorre ao clichê de retratar o
cinema como fuga da realidade, tema imortalizado por Woody Allen em A
rosa púrpura do Cairo. No entanto, nada isso prejudica a narrativa
irônica do longa-metragem, nem abala a singela homenagem do diretor aos
musicais e filmes noir. De forma lúdica, Olhos de rinoceronte
cria um universo fabuloso para relativizar os parâmetros da sanidade mental
(onde é melhor viver, em uma fantasia idealizada ou na crueza do mundo
real?). Destaque para a primorosa direção de arte e para a bilheteira
do cinema apaixonada por Cheep, quase um clone da cantora Björk, só que
bonita.
:: 'Vera Drake' Ensaio sobre
a ignorância Gente patética. É delas que trata Mike Leigh. Nunca com juízos críticos definitivos ou olhares acusatórios, tampouco com panos quentes. É com o benefício da dúvida (e um velado humanismo) que o diretor inglês fala de pessoas como a protagonista do tristonho mas vigoroso Vera Drake, vencedor do Leão de Ouro no último Festival de Veneza. Inegavelmente, Vera Drake, história de uma faxineira que ajudava jovens mulheres a abortarem na Inglaterra de 1950, é um filme ''quadrado'', o que não quer dizer que seja um filme ruim. Pelo contrário. Seu roteiro fica preso à tradição de um ''começo-meio-e-fim'' no devido lugar, sem flertar um segundo que seja com a experimentação. Mas isso foi opção, não desleixo. Isso não chega a ser novo na carreira de Leigh. À exceção do vistoso Topsy-Turvy - O espetáculo (1999), o filme mais próximo de suas raízes teatrais - o diretor é autor de mais de 20 peças -, seus trabalhos como cineasta se sustentam na crônica de costumes de uma Londres casmurra, miúda, imersa em intrigas ''sócio-sentimentais''. É o caso de Nu (1993) e de Segredos e mentiras (1996) . Em Vera Drake, são as tintas políticas que ganham evidência. Preservando um tom trágico sem descambar para
afetações, Leigh quase faz do filme uma plenária
sobre o moralismo. Fica na intenção, por confiar no julgamento
do espectador. E oferece a Imelda Stauton - Copa Volpi de melhor atriz
em Veneza - a chance de desfilar talento. Imelda compõe uma personagem
ingênua que acredita apenas estar fazendo o bem, sem saber que a
ignorância (assim como a bondade) cobra preços altos.
:: Um
dia sem mexicanos (Sergio Arau) Perdido entre o panfleto e o beteirol, Um dia sem mexicanos é prejudicado pelos excessos de suas opções narrativas. O longa-metragem do mexicano radicado em Los Angeles Sergio Arau - filho de Alfonso Arau, diretor de Como água para chocolate - é uma engajada comédia sobre o preconceito sofrido pelos latinos nos Estados Unidos, relativizado através da questão central do roteiro: o que aconteceria se todos os imigrantes hispânicos desaparecessem misteriosamente da noite para o dia? O filme decorre desta premissa fantástica, quando uma estranha névoa isola o Estado da Califórnia do resto da federação americana, e provoca o desaparecimento de todos os "chicanos", uma das formas depreciativas como os latinos são chamados na Grande Nação do Norte. O que inicialmente parece a materialização dos desejos da ala conservadora norte-americana, torna-se um pesadelo para a economia da Califórnia, já que um terço da população do Estado é formada por latinos e seus descendentes. O lixo acumula nas ruas, restaurantes têm de fechar as portas, escolas perdem um quarto de suas professoras primárias e a agricultura, principal fonte de renda do Estado, entra em colapso após o sumiço quase total de seus trabalhadores. O filme aproveita para derrubar alguns mitos, como a demanda de verbas sociais destinadas à população de origem hispânica: se a Califórnia destina anualmente US$ 3 bilhões aos latinos, estes contribuem com US$ 100 bilhões aos cofres do Estado, em serviços. A abordagem pseudo-documental criada pelo diretor se
dá através de programas televisivos, que discutem sem êxito a razão do
desaparecimento dos hispânicos. O pânico coletivo abre espaço até para
um ufólogo delirante teorizar sobre a semelhança entre o formato dos sombreiros
mexicanos e os discos voadores, além de um possível contato extra-terrestre
com a civilização Asteca. Apesar de divertido, o filme peca tanto pela
excessiva sucessão de piadas (como o desaparecimento de celebridades,
do tenor espanhol Plácido Domingo à atriz mexicana Salma Hayek), quanto
pelo teor panfletário - e um tanto didático - das informações sobre a
importância da comunidade latina nos EUA, apresentadas ao longo da história.
Um híbrido de As amazonas na lua e Pão e rosas, que garante
boas risadas, mas não vai além disso.
:: Contra a parede (Fatih
Akin) Os júris de grandes festivais são compostos por pessoas ligadas ao meio cinematográfico e provenientes de diferentes nacionalidades. Essa mistura faz com que se crie uma heterogeneidade que, por suposição, traz um julgamento mais isento e único, sem beneficiar um determinado país. Por um lado o não apego a bandeira, mas por outro o deslumbre com culturas diferentes, esquecendo-se muitas vezes do mérito artístico. No cinema de hoje, em sua maioria superficial nos contornos humanos, os cineastas optam por uma abordagem centrada do exótico para retirar dali reações inesperadas. Para facilitar isso, a instituição familiar e o casamento são os alvos mais recorrentes. O extrato cultural vai estar limitado a uma cerimônia de casamento em que se desfilam arquétipos. Apenas para se ater ao recente, os exemplos são Um casamento à indiana, de Mira Nair, Casamento grego, de Joel Zwick, As bodas (russo), de Pavel Longuine. Contra a parede é o turco. A história deste se entrelaça a partir da união matrimonial,
abusando dos costumes e danças típicos. Retirando o invólucro que atrai
júri e público, resta um imperfeito romance, com propensões suicidas despropositadas,
de personagens mal delineados, que embarcam em uma falsa jornada de autodestruição
ao calcular cada passo. A melancolia da trilha, capitaneada por Depech
Mode, e as referências aos anos 80 passam ao largo do centro da ação,
que conta com diálogos ruins como “Meu marido muge como um boi quando
está transando”. A tentativa é de chocar pela violência física, regada
a sexo e drogas, e verbal, sem qualidade para isso, e não narrar um belo
conto de amor, uma tragédia moderna, além de expor muito
pouco da cultura turca,.
:: Steamboy (Katsuhiro Otomo) Acertadamente, este desenho levou quase dez anos em produção e gastou mais de US$ 20 milhões. Katsuhiro Otomo, o criador do superestimado Akira realizou sua obra máxima e, quiçá, um dos melhores desenhos animados da história. Sem apelar para bichinhos engraçadinhos, atmosfera sobrenatural ou monstros ridículos, Otomo (desenhista, roteirista e diretor) realiza uma aventura que muito 'blockbuster live-action' queria ser e não conseguiu. Através dos olhos do jovem Ra Stim, o Steam Boy do título, somos apresentados a uma Europa do século 19, apinhada de inventores corrompidos pelo poder. De como uma nova fonte de energia pode, ao invés de incitar ao progresso, causar destruição e medo. Sem se preocupar em distinguir o bem do mal, o filme não lança mão dos confortáveis maniqueísmos de praxe neste tipo de saga, pelo contrário, segue por uma trilha pouco recorrida pelo cinema atual: a originalidade. E aí a ficção científica é mera conseqüência dentro de uma realidade alternativa num mundo recém industrializado. Algo como se a Era Industrial fosse muito mais significativa e producente do que realmente foi. De minuciosa reconstituição histórica, este épico adiciona ao passado um maquinário bélico avançadíssimo, incluindo exércitos em armaduras mecânicas e geringonças voadoras que, se possível fossem, já teriam exterminado o planeta. E ainda dispensa recursos de que os animes como conhecemos costumam ser acometidos: expressões faciais esgazeadas, piadas infantilóides e ação desenfreada e gratuita. Aliás, SteamBoy tem ação desenfreada sim, mas segue um contexto lógico, sem gratuidades e o que é melhor, desviando quase sem esbarrar nos inexoráveis clichês. No clima dos antigos seriados cinematográficos de aventura e rico em influências que vão de Tintim de Hergé à Flash Gordon, passando pelo quadrinho europeu dos anos 1960 e 70, as mais de duas horas de projeção não são notadas e a animação flui solta e beirando a perfeição (o que o auxílio luxuoso da informática não faz...). Disparado, a melhor atração deste festival,
o que mostra que desde Akira, seu criador vem se aperfeiçoando.
Saberemos se ele aprendeu mais, na continuação que, esperemos,
não leve uma década para ser feita: SteamGirl. Imperdível,
é o mínimo a se dizer sobre esse valoroso espetáculo.
:: Família rodante
(Pablo Trapero) Ficção com toques auto-biográficos, Família rodante acompanha a viagem de uma família pelo interior da Argentina, da da capital Buenos Aires até a província de Missiones, região de grande beleza natural que faz fronteira com o Brasil. A trama gira em torno de Vovó Emília (interpretada pela octagenária avó do diretor Pablo Trapero, Graciana Chironi), que em seu aniversário de 84 anos decide viajar até sua terra natal, para ser dama-de-honra do casamento de sua sobrinha-neta. Toda a famíla pega a estrada em um motor-home adaptado, enfrentando as dificuldades da longa jornada e dos próprios obstáculos familiares. Repleto de planos deslumbrantes do interior da Argentina,
o filme segue o padrão dos roadie-movies, no qual a viagem se transforma
numa saga de auto-conhecimento, marcada por uma série de conflitos entre
os personagens. Além da sucessão de percalços enfrentados durante o trajeto,
a família também tem de lidar com suas diferenças, alimentadas por desentendimentos
entre entre sogro e genro e uma paixão não-resolvida entre cunhados. No
afã de criar um novo conflito a cada quilômetro do percurso, o diretor
acaba deixando de lado os aspectos reflexivos da sua narrativa. Quando
é fiel ao tempo de Vovó Emília, o filme ganha em densidade, como nas sequências
iniciais e no plano final, onde a atriz Graciana Chironi dota sua personagem
de toda a dolorosa sabedoria de uma matriarca que já não pode oferecer
muito à sua prole, além de conselhos e orações.
:: Capitão Sky
e o mundo de amanhã (Kerry Conran) Cinema-pipoca de primeira, Capitão Sky e o mundo de amanhã oferece ao espectador um entretenimento sofisticado, e, à sétima arte, uma revolução na forma de fazer filmes. Rodado com cenários totalmente virtuais, o longa-metragem de estréia do diretor Kerry Conran congrega componentes indispensáveis aos gêneros de aventura e ficção científica: um herói intrépido, uma heroína irreverente, boas doses de ação em sucessões de planos curtos e ágeis, efeitos especiais impressionantes, e, principalmente, uma trama bem amarrada, desencadeada pelo misterioso desaparecimento dos principais cientistas de todo o mundo. Travestido numa espécie de Indiana Jones da Força Aérea Americana, Jude Law ratifica seu nome como a bola da vez entre os galãs hollywoodianos, ao interpretar o intrépido e sarcástico piloto Joe Sullivan, o Capitão Sky do título. Se o personagem não alcança o carisma do arqueólogo mais famoso do cinema, imortalizado por Harrison Ford, Law acerta no acento canastrão do protagonista, dentro da proposta arquetípica de um herói dos anos 30. Gwyneth Paltrow convence menos na pele da repórter Polly Perkins, já que a personagem se perde entre o tipo da heroína voluntariosa, porém desastrada, e as funções de par romântico e parceira cômica do protagonista. Os atores de carne e osso dividem as atenções do espectador com o mundo virtual que os cerca. Os cenários, os robôs, as naves e demais traquitanas cibernéticas, as batalhas aéreas e submarinas são criados por computador, bem como a luz opaca e a granulação do filme, que compõem seu nostálgico visual preto-e-branco. O universo criado por Conran segue a estética dos quadrinhos e de antigos seriados de ficção-científica, como Flash Gordon e Buck Rogers, dando às inovações tecnológicas o aspecto imaginado na década de 30, onde não destoariam das linhas dos dirigíveis ou do caça monomotor do Capitão Sky. É a computação gráfica que também cria uma das maiores
atrações do filme, a presença do ator Lawrence Olivier, que morreu em
1989, "interpretando" o misterioso vilão Dr Totenkopf, um cientista genial
cujos delírios megalômanos ameaçam a vida na Terra. Além dos efeitos especiais
sofisticados que, integrados à estética e à narrativa do filme, transcendem
às sequências banais de explosões dos blockbusters do gênero, outra
atração à parte é Angelina Jolie, no papel da durona Capitã Frankie Cook,
que de tapa-olho não fica devendo nada à Daryil Hannah.
:: Getting the man’s
foot outta your baadasssss! (Mario Van Peebles) Até 1971 os negros mantinham um papel secundário no cinema norte-americano. Se não interpretavam escravos, criados, bandidos, entre outros estereótipos (não muito diferente do que acontece na teledramaturgia brasileira), os personagens reservado a atores negros dificilmente fugiam à caricatura, mostrados de forma pejorativa e em evidente subordinação aos núcleos brancos. Antenado com as lutas pelos direitos civis, que culminaram com as mortes de Martin Luther King e Malcon X, e fenômenos como a resistência da comunidade negra em lutar no Vietnã e o surgimento dos Panteras Negras, o cineasta Melvin Van Peebles decidiu criar um filme que mostrasse sua etnia sem preconceitos ou estereótipos, nem que para isso tivesse de arriscar seu patrimônio e sua carreira. A história do célebre longa-metragem Sweet Sweetback's Badassss song (1971), que deu origem ao blaxploitation - série de filmes voltados para platéias negras, realizados por atores, diretores e equipe técnica negros - é contada em Getting the man’s foot outta your baadasssss!, dirigido e estrelado por Mario Van Peebles, filho de Melvin. A cinebiografia mostra como o pai do cineasta contornou o conservadorismo e o preconceito racial de Hollywood para realizar seu sonho, que muitos viam como uma afronta aos pilares da sociedade branca norte-americana. O protagonista Sweetback é um personagem de moral dúbia, ao contrário dos típicos heróis brancos de caráter ilibado que fizeram a história do cinema norte-americano. Para a geração que cresceu assistindo John Wayne matar índios como moscas sem questionar a ética de sua valentia, um personagem negro que recorria a seus atributos sexuais para atingir seus objetivos e era perseguidos por policiais brancos corruptos era um barril de pólvora em forma de celulóide, numa época de confrontos raciais acirrados. Além da ótima reconstituição de época, o filme de Mario Van Peebles tem o mérito de mostrar, de maneira apaixonada mas isenta, até que ponto seu pai foi capaz de chegar para ver concluída sua obra, que comprometeu suas finanças, carreira, família e saúde. O cineasta e ator, que viveu o personagem Sweetback quando criança no filme original e interpreta o pai em seu filme, dá a dimensão da obstinação paterna em concluir seu projeto, ainda que para isso tivesse de tomar atitudes eticamente questionáveis, como endividar-se com agiotas e deixar parte da equipe presa durante dois dias, acusada de roubo de equipamento. Como boa parte do público já conhece o fim da trajetória
da obra-prima de Melvin - apesar de todas as adversidades, o filme se
torna um sucesso de bilheteria graças ao público negro, que finalmente
pôde identificar-se com um herói no cinema, abrindo caminho para outros
ícones black, como Shaft, Cleoprata Jones e Foxy Brown - o melhor
de Getting the man’s foot outta your baadasssss! é a reconstituição
da produção do filme original, que revela o comediante Bill Cosby como
uma das poucas pessoas a acreditar no potencial da obra, ou como o iniciante
grupo Earth, Wind and Fire foi catapultado para fama ao compor a trilha
sonora do longa. Mais do que retratar a gênese do blaxploitation, gênero
que voltou à moda após Jackie Brown (1997), de Quentin Tarantino
e foi o tema do documentário Baadasssss cinema (2002), de Isaac
Julien, a homenagem de Mario Van Peebles a seu pai prova como a ousadia
para romper padrões estabelecidos é essencial à vitalidade de qualquer
cinematografia. Impossível não associar a trajetória do diretor norte-americano
com a história de José Mojica Marins, que provou, sob a incredulidade
de muitos críticos e colegas cineastas, ser viável adaptar o gênero de
terror à tradição brasileira, ainda que para isso precisasse viver à sombra
de sua criatura, o imortal personagem Zé do Caixão.
:: Suíte Havana
(Fernando Pérez) Uma das melhores atrações do Festival do Rio 2004, Suíte Havana traça um panorama da capital cubana, revelada ao público através dos olhos de seus personagens reais. O diretor Fernando Pérez recorre a não-atores para mostrar, através de suas atividades cotidianas, a passagem de um dia na cidade caribenha. Dialogando com o formato dos "filmes-sinfonia", como Berlim, sinfonia da metrópole (1927), de Walter Ruttman (maior expoente do sub-gênero caracterizado pela construção de um painel urbano através da união de imagens e sons que remetam a tal universo), o longa-metragem transpõe a fronteira entre ficção e documentário para criar um mosaico livre das simplificações socio-políticas com as quais o mundo se volta para a ilha de Fidel Castro. Havana pode ser entendida através de suas próprias sutilezas, manifestadas tanto na arquitetura corroída pela penúria do regime da ilha, como no semblante de seus habitantes, acompanhados com cumplicidade pela câmera de Pérez, que em nenhum momento descamba para o sentimentalismo exacerbado ou para um olhar paternalista e ideologizado, que fatalmente comprometeriam a narrativa. As dificuldades enfrentadas pelos personagens, como um jovem que sustenta a família como pedreiro durante o dia, para a noite se dedicar ao balé clássico, não são mostradas de forma condescendente pelo diretor, que prefere valorizar a inteligência do espectador a entorpecê-lo com fórmulas dramáticas de apelos rasteiros. Tal opção permite que um garoto com síndrome de Down se revele como um componente ativo da sociedade, longe do discurso complacente que costuma deturpar histórias que envolvem deficiências físicas e mentais. Assim também são mostrados outros personagens que compõem a colcha de retalhos cosida entre os diversos aspectos da capital cubana. A senhora que sustenta o marido idoso vendendo amendoim torrado nas ruas da cidade e dedica algumas de suas horas de sono à pintura; um funcionário de linha férrea que toca saxofone na igreja; o encarregado da limpeza de um hospital que brilha no palco encarnando um personagem inusitado. Manifestações humanas da condição mutante da cidade, que esconde suas surpresas e contradições sob os universos paralelos reservados a sua população ou aos turistas. edição e a música de Edesio Alejandro
e Ernesto Cisneros dão densidade às imagens dos prédios,
monumentos e pessoas dos quais Havana é feita. Aos acordes da trilha
fundem-se os sons da cidade, orquestrados pela rotina das ruas e de cada
personagem. Sem um único diálogo, Fernando Pérez
conduz sua crônica com invejável eloquência, tornando
o espectador íntimo de cada recanto da capital cubana, ao mesmo
tempo que reforça a complexidade de sua sociedade, aparentemente
insondável aos olhos estrangeiros. Um exercício cinematográfico
ambicioso e sinceramente tocante, que serve de exemplo identitário
às escolas latino-americanas e a própria cinematografia
brasileira, que por vezes se perde em busca de um modelo fabuloso que
congregue qualidade ao apelo popular. |