Coisas do Brasil: A tarefa de cada um

:: Ana Maria Tahan
Editora Executiva do Jornal do Brasil


Cansaço natural de um longo relacionamento, vontade de se aventurar, de testar outros limites e avançar horizontes, todos os desejos e outros tantos mais embalaram a reviravolta dos votos nas eleições municipais. Sem se ater a padrões, ou se preocupar com quem é mais próximo ou distante do Planalto, o eleitor avisou que não gostava tanto assim de Marta Suplicy em São Paulo. Estava cansado do mandarinato do PT em Porto Alegre. Não queria mais os Amin e apadrinhados em Santa Catarina. Que Antonio Carlos Magalhães já teve tudo o que podia da Bahia e era hora de parar. Os Sarney deveriam repensar sua trajetória no Maranhão. E a dupla Amazonino Mendes-Gilberto Mestrinho precisa abrir espaço para outros se revelarem no Amazonas.

Não é de se estranhar, nem o PT deve se lamentar. Foram justamente estes os ingredientes que conduziram Luiz Inácio Lula da Silva ao Palácio do Planalto dois anos atrás. Nos municípios, os ventos sopraram em várias direções. Deram alento ao PPS, ao PSB e ao PDT em grandes centros urbanos. Bafejaram o orgulho do PMDB em uma capital e do PFL em cidades médias.

Concentraram-se, sobretudo, na planície petista e tucana. Sábio o eleitor. Amadurecido pelo constante exercício do voto, calejado das promessas vãs, irrequieto e exigente, identificou em cada ungido o administrador de vidas por um tempo determinado: quatro anos. Derrotados e vitoriosos podem até esboçar dezenas de justificativas para explicar a contagem final das urnas eletrônicas. Não é sábio se furtar, contudo, do recado armazenado na memória dos computadores dos Tribunais Regionais Eleitorais.

Políticos sobrevivem se sabem ler além dos números. Terão dois anos para analisar acertos e erros antes do novo teste eleitoral para a escolha do presidente da República, dos governos estaduais, de um terço do Senado, da Câmara e das Assembléias Legislativas em 2006. E muito a fazer até lá pelo país. Como o eleitor soube cumprir seu dever, aos políticos cabe agora votar projetos urgentes para manter o país no rumo econômico ascendente. Ao governo federal, conduzir o leme em direção a portos menos sujeitos a alterações globalizadas. E aos prefeitos eleitos, tornar melhor e mais felizes dos dias de seus cidadãos.