A eleição em que a máquina administrativa
funcionou a todo vapor
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João Bernardo Caldeira
Nas eleições municipais deste ano, concorrentes de
todas as tendências partidárias acusaram-se mutuamente
de uso abusivo da máquina pública na busca por votos.
De São Paulo a Goiânia, de Porto Alegre a Campos, de
Niterói a Florianópolis. Na opinião de analistas
políticos, o fenômeno se deve à emenda da reeleição,
aprovada na era FH. Com um cargo do Executivo nas mãos, o
político não resiste à tentação
de dar uma forcinha a mais em sua campanha eleitoral, violando a
lei 9.504, de 1997.
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Não me recordo em toda a história da democracia brasileira
de uma campanha como essa, feita por ministros, presidente e governadores.
A máquina administrativa está funcionando a pleno
vapor - constata o presidente do Tribunal Regional Eleitoral do
Rio (TRE), Marcus Faver.
Em
Campos, a troca de farpas entre candidatos do PMDB e do PDT fez
com que Marcus Faver solicitasse a presença de tropas do
Exército para garantir a tranqüilidade durante as votações.
Até o presidente Lula foi punido por declarar seu voto à
prefeita Marta Suplicy ao inaugurar uma obra em São Paulo.
O presidente pediu desculpas, mas foi multado em R$ 50 mil pela
Justiça Eleitoral, e está recorrendo por meio da Advocacia
Geral da União.
Alvaro
Lazzarini, presidente do TRE de São Paulo, informa que 31
candidaturas foram cassadas no Estado por uso da máquina,
a última na quinta-feira, em Mauá, região metropolitana,
às vésperas da realização do segundo
turno. Ele explica a decisão do tribunal em multar Lula:
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Os juízes entenderam, por 5 votos a 1, que houve uso do bem
público por parte do presidente Lula. Ele poderia ter inaugurado
a obra, mas sem fazer menção a qualquer candidatura.
Na
opinião de Manoel Peixinho, professor de direito administrativo
da PUC, a punição deveria ser mais grave para que
servisse de exemplo:
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Lula jamais poderia ter se envolvido. É o jogo do tudo ou
nada. Isso configura inclusive improbidade administrativa. O artigo
37 da Constituição diz que o lado pessoal do administrador
não pode ser confundido com sua administração.
Em
Porto Alegre, o candidato petista Raul Pont acusa o governador Germano
Rigotto de favorecer o concorrente José Fogaça (PPS),
que rebate dizendo que o ministro das Cidades Olívio Dutra
também abusa de sua posição.
Casos
semelhantes foram registrados em lugares como Goiânia, onde
Íris Rezende (PMDB) reclama de uma suposta atuação
irregular do PT. Durante toda a campanha pipocaram denúncias,
em todo o país.
No
Estado do Rio, o número de acusações foi intensificado
por causa da alta temperatura gerada pelo rearranjo das forças
políticas locais. O governo federal chegou a enviar representantes
para Nova Iguaçu em apoio a Lindberg Farias, buscando frear
a candidatura de Mario Marques (PMDB), apoiiado pelo ex-governador
Anthony Garotinho.
O
cientista político Ricardo Guanabara, professor de direito
constitucional Universidade Cândido Mendes, é dos que
acreditam que, desde a criação do dispositivo da reeleição,
o abuso do aparato público se intensificou.
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O uso da máquina representa uma tentação muito
grande para os políticos. No calor da disputa, é difícil
acreditar que eles vão se conter a concorrer de forma imparcial.
Esse é o grande mal deixado pelo dispositivo da reeleição
- afirma
Alvaro
Lazzarini também considera que a reeleição
aumentou o problema. Mas acrescenta que o grande número de
denúncias se deve também ao fato de que os políticos
e a própria Justiça Eleitoral estão mais familiarizados
com a lei 9.504, de 1997:
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Nas eleições de 2000, a lei ainda era recente. Agora,
o pessoal já está escolado, o Ministério Público
atuante e os partidos e candidatos fiscalizam seus adversários
a todo momento.
Apesar
do quadro assustador de acusações, Charles Pessanha,
professor de ciência política da UFRJ, acredita que
houve avanço:
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Hoje se usa menos a máquina do que antes. Temos uma legislação
eleitoral muito rígida, uma imprensa atuante e uma performance
incisiva do Ministério Público.
O
presidente do TRE paulista vai na mesma direção:
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O alto número de denúncias é, na verdade, um
dado positivo, porque significa que estão fiscalizando mais.
É a democracia e a cidadania que saem ganhando. Para as eleições
de 2006, espero que os candidatos cumpram a lei, porque a Justiça
Eleitoral está fazendo a sua parte.
Receoso,
o presidente do TRE carioca, por sua vez, faz um alerta:
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Falta uma maior conscientização política e
ética dos ocupantes de cargos do poder Executivo.
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