Coisas do Brasil: Sem perder a esperança
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Rodrigo de Almeida
Editor de Opinião e Editorialista do JB
Para um país habitualmente resignado ao rótulo dos
paradoxos, o Brasil até que se saiu bem nas eleições
municipais deste ano. Fez jus à fama conquistada pela história.
Reafirmou a condição de uma das maiores democracias
eleitorais do mundo, gabou-se mais uma vez das benesses tecnológicas
da urna eletrônica, glorificou as maravilhas da apuração
quase imediata. Na triste sina das discrepâncias nacionais,
no entanto, resta o saldo das evidências de uma prática
que arrasta para o atraso político: o clientelismo.
Um dos maus
exemplos coube ao Bolsa Família, principal programa social
do governo Lula, engolfado pela utilização política
de prefeitos e pela incapacidade de fiscalização de
Brasília. O motivo dessa face clientelista do programa, por
enquanto, parece incerto. Pode ser fruto do interesse do PT de se
enraizar pelo interior do país; da incompetência de
gerenciar um programa grande demais e descentralizado de menos;
ou do pecado original da política miúda brasileira,
que enlameia as boas intenções e as joga no ralo da
corrupção fácil e impune. Ou de tudo um pouco.
O outro exemplo
vem do Rio de Janeiro, com as recentes ações promovidas
pelo governo do Estado. A sensatez e os bons costumes políticos
pedem que não se misture máquina administrativa com
eleição. Beirou o golpe baixo, portanto, transferir
o gabinete do governo estadual para Campos - a cidade-mor da guerra
eleitoral fluminense -, promover a distribuição de
material escolar a um mês do fim das aulas e recadastrar programas
como o Cheque Cidadão. Tudo dentro da lei, diga-se, mas taxiando
a pista da ilegítima utilização da máquina
para a colheita de dividendos eleitorais.
Numa eleição
que ainda sedimentou o fetiche do paraíso na Terra a R$ 1
(ônibus ou comida, casa ou trem, em São Paulo, no Rio
ou no Nordeste), não dá para sair de alma lavada.
Mas não convém perder a esperança. O melhor
caminho ainda é a política. Só assim se resolverá
parte dos problemas coletivos, imediatos e futuros. Negue-se os
maus políticos, não a política. Sem fantasias
em excesso ou uma tola glorificação do voto, é
possível, sim, encontrar um bom lugar na história.
Mesmo sem escapar dos paradoxos.
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