Coisas do Brasil: Brasil: 'males de origem'
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Rodrigo de Almeida
Editor de Opinião e editorialista do JB
No imaginativo reino das alianças partidárias esdrúxulas
e dos conchavos políticos ilimitados, o comissariado petista
não é o primeiro, nem o maior exemplo da degradação
da dignidade. Mas é atualmente a melhor prova empírica
da capacidade de se autodesmistificar e, sobretudo, do reforço
à triste sina brasileira de repetir erros e perpetuar males.
O PT, afinal, reafirma vícios e arquétipos presentes
no país desde a fundação da capenga República.
A cúpula
do partido poderia constatar melhor tais chagas se lesse Manoel
Bonfim. Sergipano tinhoso, tão brilhante quanto valente,
tão visionário quanto pouquíssimo lido, Bonfim
escreveu o livro América Latina: males de origem em 1904,
ainda sob os eflúvios da Proclamação da República.
O historiador analisava, por exemplo, a apropriação
do Estado por forças políticas de enorme influência
no Parlamento - portanto, elementos centrais de governabilidade.
Na caminhada ao poder, lembra Bonfim, os partidos vão gradativamente
recebendo a adesão de aliados do velho poder. Foi o que aconteceu
na República Velha. Foi o que aconteceu na Nova República.
É o que acontece na República petista.
A simbiose entre
o ''velho'' e o ''novo'' acaba permitindo às habituais sanguessugas
mudar de barco e subir no barco vencedor. Aos partidos de oposição
- ou ao que chamávamos de ''esquerda'' - pouco resta além
de ganhar ''realismo'' e transfigurar-se em nome da governabilidade.
Difícil livrar-se desta sina, é preciso reconhecer.
Bonfim sabia disso. Mas a dificuldade se amplifica por uma característica
congênita da maioria dos políticos:
''Mesmo os mais
ousados entre os homens públicos, os mais revolucionários'',
escreveu Bonfim, ''são tão conservadores como os conservadores
de ofício. (...) Na véspera, era de vê-lo, apóstolo,
inflamado, radical, incitando as gentes ao combate; no dia seguinte,
a voz se amansa, arrasta-se sensata nos conselhos da sabedoria e
da ponderação (...). Agora o seu papel é 'conservar'
(...).''
Reafirme-se:
o sociólogo e historiador Manoel Bonfim escreveu o texto
acima em 1904. Parecia, no entanto, referir-se ao PT. Ou, convém
ressaltar, aos oito anos de mandarinato tucano. E assim caminha
a República brasileira, na qual todos são jogados
no mesmo barco, modificados pelo tempo, engolfados pelo atraso.
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