Coisas do Brasil: Chegar ao poder, para que serve?

:: Israel Tabak
Repórter político do Jornal do Brasil


Depois de dois depoimentos na Polícia Federal, Paulo Maluf anuncia apoio a Marta Suplicy. Após ser satanizado por Anthony Garotinho, Lindberg Farias ganha a adesão do pastor Manoel Ferreira, aquele que foi o vice de Luiz Paulo Conde, do PMDB, o partido do ex-governador. A aliança do PL com o PT não foi suficiente para impedir o bispo Marcelo Crivella de se juntar à campanha de Mario Marques, adversário do petista Lindberg, em Nova Iguaçu. Em Caxias, o mesmo Lindberg marcha com Zito e Cesar Maia, todos apoiando o mesmo candidato. No plano nacional, o PDT sonha em coligar-se com o PFL conservador.
Exemplos como estes podem ser multiplicados pelo país afora. Alguém dirá que política é assim mesmo, alianças e reviravoltas fazem parte do jogo, por mais estranhas que pareçam. Seria interessante tentar, então, um pequeno exercício: tirar promessas de campanha da boca de um concorrente e imaginar que foram ditas pelo adversário. Na esmagadora maioria dos casos, ninguém vai notar qualquer diferença significativa.

A conclusão é óbvia. Os discursos ficaram pasteurizados, ninguém propõe algo que seja de fato inovador. Na briga para chegar ao poder vale tudo ou quase tudo. Um aliado de peso - e de ocasião - invariavelmente clama por cargos com verbas generosas.

Por isso mesmo nada muda. Alianças amplas pressupõem a manutenção do status quo da administração pública, no município, nos Estados, ou na área federal. Em outras palavras: com raras exceções, isso significa a eternização de máquinas e esquemas viciados. São, por exemplo, licitações beneficiando os grupos que financiaram candidatos, ou serviços essenciais permanecendo monopolizados, cartelizados, ou funcionando como cartórios hereditários.

Às vezes, ocorre uma substituição: um grupo antes premiado é substituído por outro, que vai se locupletar com as mesmas vantagens indevidas.

O denominador comum - seja de um licenciamento danoso ao meio ambiente, seja de uma concessão ad infinitum para uma companhia de ônibus - é sempre o prejuízo para a maioria, em troca das benesses indevidas para alguns. E o barco segue, até a próxima campanha.