Coisas do Brasil: Onde está o demônio?
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Israel Tabak
Repórter político do Jornal do Brasil
Nos templos da Igreja Universal do Reino de Deus, às vésperas
da eleição, alguns pastores compararam Cesar Maia
ao demônio. O prefeito começou e encerrou a campanha
subindo as escadarias da Igreja da Penha, sinalizando aos católicos
quem era seu candidato contra a ameaça evangélica
representada por Marcelo Crivella. Quando a eleição
foi decidida no primeiro turno, por pouco mais de 7 mil votos, quem
aderiu ao voto útil para Cesar suspirou aliviado. A estratégia
foi longamente comemorada e o perigo parecia afastado.
Poucos
pararam para ver a realidade sob outro prisma. Nunca um candidato
com as características do senador-bispo havia provocado esse
tipo de reação. Nunca antes se tornara tão
nítida e bem-sucedida a instrumentalização
política da religião. Nem o medo de uma radicalização
fundamentalista, que infelicita outras partes do mundo, foi suficiente
para aguçar o debate sobre esse fenômeno eleitoral.
Nos
bares da moda, a elite intelectual ainda discute em termos de direita
e esquerda, ignorando que a esmagadora maioria da população
brasileira desconhece esses parâmetros, por isso mesmo jamais
levados em consideração na hora do voto.
Concentrada
na Grande Santa Teresa, como o cientista político Cesar Romero
rotula o gueto eleitoral onde definha a cada eleição
no Rio, a esquerda tradicional imagina, entre um e outro devaneio,
como deve ser a vida dessa gente que faz eclodir templos pentecostais
em cada beco da periferia. Certeza, só uma: são dois
mundos distantes que não se tocam.
O
mundo oficial, a burocracia emperrada e corrupta, os políticos
clientelistas e a direita tradicionalmente alheia à questão
social não se preocupam - por definição - com
essa nova sociedade que emerge de forma avassaladora, em meio a
toda sorte de vicissitudes. Talvez o demônio esteja escondido
nesse imenso espaço da indiferença.
Às
vezes, essa turma esquecida da periferia, pentecostal ou não,
irrompe na vida civilizada, interditando uma estrada, fazendo manifestação
em shopping, ocupando prédios abandonados, literalmente invadindo
a nossa praia. Deve ser um aviso.
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