Coisas do Brasil: Vale tudo pela bênção de Maluf

:: RSérgio Prado
Repórter de Política da Sucursal de Brasília


Impressiona a velocidade com que o debate ideológico desaparece do cenário político do Brasil. Seu último suspiro de que se tem lembrança mais significativa foi em 2002, ainda no calor da corrida presidencial. Mas desde que Luiz Inácio Lula da Silva encenou, em cadeia nacional de televisão, aquela famosa peça aos mercados, batizada de Carta ao Povo Brasileiro, consolida-se um jeito diferente de se ver as coisas da política.

Acalmados os mercados, Lula chegou ao Palácio do Planalto depois de três frustradas tentativas. Passados só dois anos, a voz de banqueiros e industriais nativos diz com todas as letras que o PT não assusta mais. Grandes investidores estrangeiros falam quase a mesma coisa. Diante desta interpretação dos fatos, está cada dia mais claro o alinhamento total deste recanto da América ao ideário neoliberal, que domina a maior parte do planeta.

Na eleição municipal ainda em curso, a mesma história. O fenômeno é lamentado pelo professor Paul Singer. E o maior destaque negativo vem da campanha paulistana, onde PSDB e PT duelam até o dia 31 para saber quem cuidará no próximo quadriênio do cotidiano de mais de 10 milhões de pessoas. Pois o segundo turno desnuda ainda mais seus protagonistas.

Oriundos da esquerda, o tucano José Serrra e a petista Marta Suplicy tentam conquistar a bênção Paulo Maluf, um dos expoentes mais clássicos da direita nacional.

A obsessão está nos 12% dos votos do que restou do malufismo, num contingente de quase 7,8 milhões de eleitores. Embalados pela confortável vantagem de quase meio milhão de votos, no primeiro turno, os tucanos tem sede de uma vitória massacrante.

Do outro lado da trincheira, os petistas tentam a derradeira investida para conquistar Maluf. Na ponta do lápis, estratégia mais coerente do que cortejar desta maneira a direita talvez fosse o convencimento dos 15% dos moradores da metrópole que não votaram no dia 3. Além do natural espólio de outros 3% de Luiza Erundina (PSB).

Pelo sim, pelo não, muita coisa muda de lugar. Por isso, decretar a morte da ideologia no debate futuro seria precipitado e insensato. Afinal, a capacidade de pensar ainda não foi abolida.