Coisas do Brasil: O sentido da responsabilidade
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Alexandre Carauta
Editor do Jornal do Brasil
Dissipada a fumaça da contabilidade com que a primeira rodada
das urnas esboçou a nova geografia política, a nitidez
perseguida se debruça menos em perdas e danos partidários,
na simplificada polarização entre PT e PSDB, do que
nos ventos reais de mudança.
Os arranhões
sofridos por caciques como Sarney e ACM; a fragorosa derrota da
cúpula nacional do PT em Fortaleza; a despaulistização
da legenda, tampouco a diluição do DNA sindicalista
no alinhamento ao centro que azuleja o ''projeto de governo'' -
em passo siamês ao do PSDB sob a pele palaciana - não
erguem necessariamente a chama do novo. De alternativas que iluminem
crescimento econômico e justiça social. De novidades
graduadas de saneamento, capazes de forjar um horizonte para dirimir
misérias viscerais, como burocracia, violência, renda
atrofiada, distorções sociais, democraticamente estampadas
no cotidiano de rincões e metrópoles.
Misérias
cujos antídotos exigem, entre outras ginásticas, a
afinação entre as instâncias administrativas
em favor do bem público.
Em que pese
o sopro de reciclagem depreendido por leituras otimistas da caligrafia
eleitoral, a nova silhueta dos municípios tem força
para melhorar o dia-a-dia? Do outono de números e percentuais
que balançam das urnas, eis o que importa.
No Rio, por
exemplo, pouco significa para o cidadão se a vitória
de Cesar Maia foi uma exceção ao êxodo do PFL
das grandes cidades para o interior. Interessa se a reeleição
trará luz a problemas crônicos como a escalada da insegurança
- cuja solução, questão de sobrevivência,
demanda um esforço urgente entre os poderes municipal, estadual
e federal. Assim berram os sucessivos assaltos na Zona Sul - nas
praias, casas e calçadas -, o fogo cruzado em que Rocinha
e Vidigal mergulham há seis meses, os ônibus queimados
e as 80 famílias expulsas pelo tráfico em Vigário
Geral. Emblemas da violência da qual o carioca caminha refém,
distorcida como normalidade pelos olhos calejados de guerra.
Combatê-la
é obrigação conjunta. Pois, adverte o pensador
Edgar Morin, ''a compartimentalização destrói
o sentido da responsabilidade''.
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