Coisas do Brasil: A arrogância tucana

:: Rodrigo de Almeida
    Editor de Opinião e Editorialista do JB


A profusão de críticas dirigidas ao comissariado petista tem ajudado a tirar uma lasca do narcisismo imaginário do PT. Essa (bem-vinda) vacina contra a miragem oficial, no entanto, não significa que o principal adversário, o PSDB, transforme-se de uma hora para outra na única maravilha reinante entre as opções políticas do país. O truque retórico vem sendo descaradamente utilizado pelos tucanos nestas eleições. Convém rechaçá-lo.

Não é de hoje que os tucanos se sentem mais inteligentes e preparados do que qualquer mortal. É o que o jornalista Elio Gaspari, com a precisão de sempre, classificou uma vez como o jeitão superior de um cardeal espanhol saindo de uma reunião do Tribunal do Santo Ofício. É possível, verdade, sair mais inteligente de uma conversa com um tucano de alta plumagem, mas isso não o torna a melhor redenção contra as fragilidades petistas. Julgam, com a altivez e a arrogância próprias, que o eleitorado não compreendeu o projeto que tinham para o país - como se ainda não estivéssemos pagando caro pelos dez anos de fernando-malanismo.

Esse ativismo doutrinário típico - que tanto mal faz ao Brasil - se tem traduzido num tom ameaçador, emitido por políticos e intelectuais ligados ao PSDB. Recorre-se até a idéia de que o voto no PT nas eleições municipais deste ano é uma opção anti-democrática, porque confere ao governo Lula e ao partido a hegemonia política do país.

Conversa fiada. Como mostrou o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, em artigo recente no jornal Valor Econômico, a distribuição dos votos municipais não sustenta a tese de ''partido único''. O PSDB alavancou, em 1996, mais do que o PT o fez nestas eleições. ''No confronto direto entre PSDB e PT'', escreveu o professor do Iuperj, ''a vantagem do PSDB sobre o PT foi, de aproximadamente, oito prefeituras tucanas para cada uma petista em 1996, de cinco por uma, em 2000, e continua com 2,1 prefeituras tucanas por cada uma do PT''.

Conclusão: estamos bem de oposição. No passado, petistas pleiteavam o monopólio da transformação utópica. Hoje, tucanos julgam-se iluminados pela convicção democrática. Ainda que à base de terrorismo.