Rio é cidade partida pela religião
Pesquisa
mostra que eleição municipal teve voto útil
de evangélicos em Crivella e de católicos em Cesar
Maia
::
Israel Tabak
O Rio está se transformando numa cidade partida pela religião.
Não é palpite ou conversa de intelectual de botequim,
mas o resultado do cruzamento de dois importantes estudos realizados
por especialistas da PUC-Rio e pesquisadores franceses: o Atlas
da Filiação Religiosa e a análise, zona por
zona, das últimas eleições municipais.
Não foi por acaso que Cesar Maia começou e acabou
a campanha subindo as escadas da Igreja da Penha. Nem tampouco o
fato de pastores da Universal – com maiores ou menores subterfúgios
– pedirem aos fiéis para que não votassem no
“demônio” do PFL.
Nos escombros
do brizolismo e germinado pelo início da erosão do
garotismo nas áreas mais pobres da cidade, principalmente
na Zona Oeste, brotou o voto útil evangélico, detectado
pelos pesquisadores como uma tentativa de combater o voto útil
católico, urdido para evitar a chegada de Marcelo Crivella
ao segundo turno. Os dois movimentos são claramente evidenciados
pelos mapas do estudo cruzado.
A votação
de Marcelo Crivella sobrepuja o percentual do eleitorado potencial
da Ig reja Universal, abarca o restante do universo pentecostal
e o da Igreja Batista, também forte na Zona Oeste, assim
como em alguns subúrbios da Central e Leopoldina.
A região
em que o percentual de votos do senador do PL foi mais alto corresponde
exatamente às áreas onde são mais numerosos
os fiéis desses três grupos. Da mesma forma, as áreas
onde a população católica é mais compacta
também são aquelas em que Cesar Maia teve a sua melhor
votação.
O cientista
político Cesar Romero Jacob, da PUC, esclarece que isso não
significa que todos os evangélicos votaram em Crivella ou
que todos os católicos escolheram Cesar Maia. Nem que, na
mão inversa, apenas evangélicos votaram no senador
e só católicos sufragaram o nome do prefeito.
– O que
vemos apenas é a forte convergência entre os mapas
das confissões religiosas e o dos votos nos dois candidatos.
Cesar Romero enfatiza que os números indicam o insucesso
da manobra política que transformou o pastor Manoel Ferreira,
da Assembléia de Deus, no vice de Luis Paulo Conde (PMDB),
candidato de Garotinho. Os fiéis da igreja não ligaram
para o acordo político e aderiram a Crivella.
O fenômeno
detectado pelos pesquisadores tem origem no descompasso entre o
crescimento da população da cidade nas últimas
décadas em direção à Zona Oeste, abrigando
sobretudo massas marginalizadas, e a incapacidade do Estado de prover
os serviços e a proteção necessária
aos novos habitantes.
– O populismo
já predominava na área, mas o ex-governador Anthony
Garotinho introduziu uma novidade. Aliou o populismo à religião,
criando uma espécie de populismo religioso, que demonstrou
excelentes resultados eleitorais em 2002.
A política
passou a instrumentalizar a religião. O palanque foi ao púlpito.
O reverso da medalha não tardou. Pentecostais da Igreja Universal
resolveram dispensar intermediários e p assaram a instrumentalizar
a política em seu proveito.
– Assim,
o púlpito é que foi para o palanque e quase conseguiu
a façanha inédita de levar um bispo pentecostal para
o segundo turno – analisa o cientista político da PUC.
Entre outros
fatores que desencadearam a presença maciça dos pentecostais
na política, Cesar Romero aponta a ausência do Estado,
a ação insuficiente da Igreja Católica nas
regiões mais afastadas e o insucesso dos partidos de esquerda,
que não conseguiram ocupar o espaço político
aberto pela avassaladora ocupação das áreas
periféricas da cidade.
A esquerda não
se deu conta de que a cidade se expandiu, incluindo a Zona Oeste
rica (Barra da Tijuca e Recreio). Esse espectro político,
cada vez mais insignificante em termos eleitorais ficou no seu guetto,
que tem Santa Teresa como epicentro, obtendo suas melhores votações
também em Laranjeiras, Flamengo, e de outro na Tijuca, Maracanã
e Vila Isabel, bairros de classe média. É o que revelam
os mapas criados por Cesar Romero, pela geógrafa Dora Hees
e pelos pesquisadores franceses Phippe Waniez e Violette Brustlein,
especializados em cartografia eleitoral.
– É
uma espécie de etnocentrismo. Parece que a esquerda só
sabe olhar a cidade a partir da Zona Sul ou dos bairros de classe
média da Zona Norte. “Pragmáticos” e “ideológicos”
se desentendem sobre alianças quando o fóco da discussão
é a quase total ausência política do segmento
nas áreas para onde o Rio se expandiu – observa Romero.
No vácuo
formado, a religião substitui a ideologia enfraquecida. Hoje,
esse avanço só tem um freio político: a competência
demonstrada pelo prefeito para armar eficiente máquina em
todos os quadrantes da cidade, incluindo aqueles onde os evangélicos
se concentram. Nesses últimos, o prefeito também ganhou,
embora por margens menores.
Em São
Paulo, o quadro não se repete, pois o cruzamento dos dados
indica que os votos evangélicos foram absorvidos pelo sistema
político tradicional. O PT, por exemplo, tem abocanhado boa
parte do eleitorado da Zona Leste e de outras áreas nas quais
a população evangélica é mais concentrada.
O inédito
quadro de cisma religioso traz um paradoxo: o Rio, que tem 60% que
se declaram católicos e 17% evangélicos, é
também a capital com maior percentual dos que se dizem sem
religião: 13%.
A perspectiva
desenhada é preocupante: a tradição republicana
brasileira separa o Estado da religião.
– Um eventual
embate religioso significa um retrocesso histórico –
lembra Romero.
O estudioso
diz que, após a queda do Muro de Berlim, em várias
regiões do mundo a religião e não mais as ideologias
vem sendo usada como instrumento de ação política,
como se vê, por exemplo, no Oriente Médio e na Irlanda.
– Isso
tem sido fonte constante de conflitos. Ao invés de o mundo
caminhar, como seria de se esperar, para o díálogo
inter-religioso e a criação de uma cultura que promova
a paz, ocorre uma nefasta instrumentalização da religião.
O Rio e o Brasil já têm problemas demais para ainda
se verem envolvidos com a despolitização da política
e a partidarização da religião – conclui
o especialista.
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