[29/04/2001]

Operários, festas e protestos

EUGÊNIO BUCCI

Terça-feira, depois de amanhã, é feriado. E, se terça é feriado, a segunda vai de lambuja. Trata-se de uma operação lógica. Bastante razoável. A segunda-feira precisa fazer a ''ponte'' que liga o fim de semana a terça-feira, entende? Muita gente vai ''emendar''. Eu também vou. A propósito, é muito boa essa nova acepção do verbo emendar, ''emendar o feriado''. De novo, trata-se de uma evolução etimológica perfeitamente razoável. Emendar, no dicionário, quer dizer tirar defeito, melhorar, corrigir. Ora, um feriado sozinho, perdido ali no meio da semana, apresenta uma nítida imperfeição. Carece mesmo de emenda. Uma vez emendado, ficará redondo. Estamos, portanto, arredondando uma conta quebrada. Arredondando para cima.

Os economistas de antigamente, aqueles dos tempos do Plano Cruzado, diriam que o feriado precisa ser ''realinhado''. É assim que eles se referiam aos aumentos de preço: realinhamentos. Interessante isso. Não que os preços estivessem baixos; eles estavam, por assim dizer, um pouco fora de linha. Como o feriado que vem aí. Fora de linha. Cuidemos então de emendá-lo, de arredondá-lo, de realinhá-lo. Descansemos todos, que todos merecemos. Os patrões que não nos ouçam, digo, que não nos leiam.

Por acaso, terça que vem é Primeiro de Maio. Pelo que me lembro, teria sido uma data histórica da classe operária, coisa que já não importa, naturalmente. Classe operária designa um conceito em desuso, fora de moda. Mesmo assim eu me lembro. Consta que foi num primeiro de maio, no ano de 1825, que o inglês Robert Owen iniciou sua experiência de colônias igualitárias nos Estados Unidos. Sua utopia não deu certo. A data só ganharia a estatura de um marco histórico mais tarde, em 1886, um sábado. Em várias cidades, trabalhadores saíram às ruas pela jornada diária de oito horas de trabalho. Em Chicago, uma passeata toma a Avenida Michigan, com milhares de famílias, culminando num comício pacífico. Os operários estavam em greve naqueles dias. Na segunda, dia 3, a polícia dispara contra os trabalhadores, deixando um saldo de seis mortos, cinqüenta feridos e centenas de presos. Na terça, mais mortes. Meses depois, os líderes foram condenados à morte ou à prisão perpétua. Desde então, o Primeiro de Maio é o dia internacional de luta dos trabalhadores.

De que importa tudo isso, hoje? Acho que nada. Entro na internet e vou ao site da Força Sindical e da CUT, as duas centrais sindicais mais fortes do Brasil. No primeiro, nada encontro sobre a história desse dia. O site da CUT traz dois breves artigos sobre as lutas do passado. Pelo menos isso. De volta ao site da Força Sindical, dou de cara com a organização de um megaevento com astros da indústria fonográfica. As presenças prometidas vão de Zezé Di Camargo e Luciano a Daniel, Leonardo, e muitos pagodeiros. Sou surpreendido também pela presença de merchandising e de publicidade no supershow: ''o evento é patrocinado por empresas como Brahma, Embraer, Telefonica (sem acento), GM, CBA (Companhia Brasileira de Alumínio), Caixa Econômica Federal e Bovespa.'' Cotas de patrocínio serão comercializadas e os anunciantes terão seus logotipos espalhados por toda parte. E mais: sorteios de cinco apartamentos e dez automóveis para os sócios da entidade.

Não quero generalizar, mas tenho a impressão de que a mídia e a indústria do entretenimento devoraram o Primeiro de Maio. Um misto de Baú da Felicidade e Festa do Peão Boiadeiro, com prêmios e cantoria, vai embalar o feriadão. Talvez os organizadores acreditem que, se não for assim, a massa não comparece. Pior: talvez estejam certos. Como um Sabadão Sertanejo. Como um Domingão do Faustão.

O papa é pop e o operariado é pagode. Assim como o Natal dos nossos dias tem mais a ver com passear no shopping center do que com uma oração na igreja, o Primeiro de Maio já não guarda semelhanças com o que se passou em Chicago. Não se tornou uma festa cívica, como era o projeto dos governos militares que tivemos, mas virou uma festa de qualquer jeito. Já não protesta contra a exploração da indústria - ao contrário, celebra a indústria cultural. E a indústria automobilística. A indústria de cerveja. O mercado imobiliário. Com tanto merchandising envolvido, podemos estar perto do Primeiro de Maio que dá lucro. O Primeiro de Maio capitalista.

Não que eu seja contra. Vai ver que é isso mesmo. Fazer o quê? Talvez não haja mais política possível fora dos domínios do imenso espetáculo de mau gosto em que se converteu o nosso mundo. Mesmo os protestos mais agressivos - o que certamente não é o caso do Primeiro de Maio musical e alegre que se aproxima - falam a língua do espetáculo. Só falando essa língua ganham visibilidade. O Greenpeace, por exemplo, é antes de tudo um eficiente aparelho de marketing. Suas manifestações ganham repercussão porque rendem imagens espetaculares para a platéia global: barcos minúsculos tripulados por meia dúzia de voluntários atravessam a frente de navios antipáticos que matam baleias; casacos de pele caríssimos são tingidos por tintas fosforescentes. É a delícia dos telejornais. As passeatas contra a Alca, no Brasil ou no Canadá, criam fatos políticos à medida que produzem cenas impactantes: um adolescente de coturnos negros e cabeleira alaranjada atira-se contra o escudo do tenente da tropa de choque. Isso vai para todas as emissoras de TV. Quebram-se MacDonalds pelo mundo afora. É notícia. Depredar MacDonalds é a forma que restou aos descontentes de dizer ''Yankees Go Home''. É a única forma que os yankees ainda escutam.

No nosso tempo, a batalha ideológica acontece dentro dos marcos do espetáculo. O discurso não se faz mais com palavras, mas com imagens chocantes. E as imagens chocantes, de protesto, só podem ser fabricadas pela desmontagem de objetos que viraram os signos da tal ordem mundial. Um barco pesqueiro é um signo. Um casaco de pele é um signo. A tropa de choque é um signo. O MacDonalds é um signo. Para dizer não a eles é preciso desgrenhá-los, rompê-los, desconstruí-los.

Mas que ninguém se preocupe. Que ninguém se anime. O Primeiro de Maio não será um protesto agressivo. Será um piquenique. Eu, que não gosto de pagode, não tenho nada a ver com isso. Prefiro emendar.

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