Juventude trocou a política pelas armas
Hilka Telles

Evandro Teixeira

Nas ruas,cresciam os protestos e prisões de jovens contra o endurecimento do regime instaurado

O destino do país seria outro se o presidente João Goulart, na manhã de 2 de abril de 1964, tivesse chegado ao Rio Grande do Sul e encontrado as forças políticas e militares unidas em torno dele. Jango teria resistido ao golpe de Estado que acabara de sofrer, mesmo sabendo que a armada norte-americana estava na costa brasileira, pronta a atacar caso ele não se desse por vencido. Essa certeza integra as memórias de uma testemunha direta dos acontecimentos subseqüentes à tomada do poder pelas Forças Armadas: o médico Wilson Fadul, então ministro da Saúde de Jango, hoje com 84 anos e muita história para contar.

– Estávamos no avião indo de Brasília para o Rio Grande do Sul, quando Jango perguntou minha opinião sobre uma possível resistência. Respondi que se as forças políticas e militares estivessem coesas em torno dele, não havia outra coisa a fazer senão resistir. Porém se a realidade fosse diferente, o melhor seria aceitar a derrota – recorda Fadul.

Jango estava abatido, preocupado, e tentava por todos os meios políticos um acordo para restabelecer a ordem e garantir a democracia. Em Porto Alegre, reuniu-se com Fadul, os ministros do Trabalho, Amauri Silva, e da Agricultura, Oswaldo Lima Filho, o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, e o comandante do III Exército, general Ladário Telles, que impressionou Fadul pela firmeza de caráter e lealdade às instituições.

– O general admitiu que havia revoltosos em suas fileiras, mas afirmou que ainda seria possível controlá-los. Ele foi categórico ao dizer a Jango que preferia morrer à frente do seu exército do que se render. Tinha-se informações de que os políticos não estavam coesos quanto à resistência e Brizola apregoava uma guerra radical. Diante desse quadro, Jango entendeu que a situação estava incontrolável, admitiu a derrota e retirou-se para o seu exílio no Uruguai – relata o ex-ministro.

O Brasil vivia momentos de grande tensão política naqueles primeiros dias pós-golpe. Os militares que assumiram o poder prometiam assegurar a democracia, garantindo a realização de eleições para presidente em 1965. O Congresso Nacional só teria de eleger um militar para governar o país até o fim do mandato de João Goulart.

– Jango, do exílio, sugeriu que trabalhássemos a candidatura do general Amaury Kruel, o melhor nome naquelas circunstâncias. Kruel comandava o II Exército, de São Paulo, arrebanhara o apoio do governador daquele estado, Adhemar de Barros, transitava com facilidade no meio militar, tinha contatos políticos e seria um facilitador para as eleições no ano seguinte – conta Fadul.

Jango pensara em tudo, menos num pequeno detalhe: as aspirações pessoais do ex-presidente Juscelino Kubitschek, que via na eleição do marechal Castello Branco, em detrimento à de Kruel, uma curta ponte que o levaria à Presidência em 1965.

– Juscelino foi convocado pelo deputado Joaquim Ramos para uma reunião com ele, Negrão de Lima e o marechal Castello Branco. Negrão de Lima era padrinho da mulher de Castello. Quando Juscelino era o presidente do Brasil, Negrão pediu que ele promovesse Castello a general-de-divisão. O marechal Lott era o ministro da Guerra de Juscelino e posicionou-se contra a promoção, mas Kubitschek atendeu ao pedido. Portanto, julgava que Castello, a quem fizera um favor no passado, uma vez na Presidência, seria um bom aliado nas eleições de 1965 – revela.

Nessa reunião foi firmado um acordo de cavalheiros entre Juscelino e Castello, no qual este se comprometia a respeitar o calendário eleitoral. Confiante de que o apoio a Castello lhe daria mais chances de concorrer às eleições de 1965, Juscelino atirou por terra todo o trabalho de Fadul e um grupo de políticos, que já haviam catequizado os parlamentares para a eleição de Kruel. Os deputados do PSD, que marchavam com Juscelino, eram a maioria no Congresso e, assim, Castello tornou-se presidente. Cerca de dois meses depois, cassou os direitos políticos de Juscelino Kubtischek – recorda.

Em 1965, a juventude já mostrava forte inclinação para a luta armada. A preocupação com os rumos do país levou um grupo de políticos e militares a estabelecer uma via alternativa, para que o andamento do processo político não fosse mais prejudicado ainda: formar uma Frente Ampla contra a ditadura, idealizada e constituída por correntes que iam do juscelinismo à esquerda. A Frente foi sedimentada pelo brigadeiro Francisco Teixeira, o editor Ênio Silveira e Wilson Fadul. João Goulart aprovou o movimento.

– Nosso objetivo era substituir a idéia da guerrilha, que seria uma atitude heróica, mas contraproducente, por uma ação política vigorosa. Queríamos conquistar os garotos para as nossas idéias. Em vez de armas, nas quais o inimigo era eficiente, queríamos que a juventude optasse pela política, pois nesse campo éramos mais competentes que o inimigo. Mas a juventude ficou com a primeira opção e repudiou a Frente Ampla – destaca Fadul.

Um ano havia se passado desde o golpe – um curto período, mas tempo suficiente para o então governador da Guanabara, Carlos Lacerda, que apoiara integralmente os militares, começar a exibir em artigos de jornal a sua insatisfação com os rumos do país nas mãos dos ditadores. Lacerda foi informado das articulações para a Frente Ampla pelo deputado cassado Artur Lima Cavalcante e simpatizou com a idéia de integrá-la. Juscelino, traído por Castello Branco, também acabara de aderir.

– Abriu-se uma divisão entre os que não queriam a adesão de Lacerda e os que defendiam a postura de que a Frente, sendo um projeto de curto prazo para restaurar a liberdade pública, não podia rejeitar ajuda. Leonel Brizola foi um dos que mais combateram a entrada de Lacerda no grupo. Todavia todos acabaram entendendo que era preciso unir forças para derrotar o inimigo comum. Uma vez alcançado o objetivo, cada um seguiria o caminho que melhor lhe aprouvesse – lembra.

Portanto, as três maiores forças políticas do país naquela época, contando com Jango, cerraram fileiras para vencer os golpistas. A batalha se daria na disputa de 1965. Castello, porém, prorrogou o próprio mandato, deixando claro tratar-se mesmo de uma ditadura. E iria durar.

De 1965 a 13 de dezembro de 1968, quando foi fechada pelo Ato Institucional nº 5 (AI-5), a Frente Ampla atuou nos bastidores, engajando-se na luta contra a ditadura. Dela surgiu o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), ainda em 1965, formado pelos que divergiam do regime.

– A Frente trabalhava com o MDB e, ao ser fechada, já tinha encontrado um veículo para continuar atuando na legalidade. O MDB era onde a Frente Ampla desaguaria naturalmente. Os militares acabaram nos favorecendo nesse sentido – finaliza Wilson Fadul.

 
[07/MAR/2004] <<< Voltar