| Olhares sobre 1964 |
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A tempestade seria inevitavelmente desencadeada antes que terminasse aquele outono de 1964. Os céus do Brasil estavam turvados por nuvens pressagas, os matizes cinzentos anunciavam turbulências de bom tamanho. Mas havia muitas interrogações em torno de tal certeza. Se relâmpagos assustavam à esquerda e à direita, como adivinhar de que lado viria o temporal? O presidente João Goulart começou a antecipar a agonia do próprio governo na noite em que pareceu viver seu mais luminoso momento. O comício da Central do Brasil, promovido em 13 de março de 1964, deveria sobretudo servir de alerta aos militares ultraconservadores: se tentassem consumar algum golpe de Estado, enfrentariam a esquerda finalmente unida, pronta para o combate e apoiada na vontade popular. É razoável, com o tempo decorrido, situar a Frente Ampla como o último espasmo do processo democrático retomado em 1945. Teve as bênçãos da paz internacional dada aos novos tempos. O movimento inédito de compactar divergências oposicionistas não chegou a ser o ponto de partida da longa e tortuosa jornada que, tantos anos depois, levou Tancredo Neves à vitória, embora com a arma tomada ao inimigo: o voto indireto. A gente estancou de repente. O Ato Institucional nº 5, promulgado em 13 de dezembro de 1968, confiscava praticamente todos os direitos dos cidadãos. Foi o instrumento utilizado pelos militares para aumentar os poderes do presidente e permitir a repressão e a perseguição das oposições. No poema ''A Morte do Leiteiro'', de Carlos Drummond de Andrade, duas cores se procuram, suavemente se tocam, amorosamente se enlaçam, formando um terceiro tom a que chamamos aurora. O período que compreendeu o regime militar já pode ser olhado pelo
retrovisor. Hoje, 40 anos depois, ele é tido como próspero. Não raro,
ouve-se cantar loas à política econômica conduzida por técnicos e
empresários ligados aos generais. O golpe que calou o Brasil, há 40 anos, hoje ainda desperta
emoções.. Antes de um golpe militar, o movimento que colocou o país nas trevas por quase 21 anos, em 1964, foi um golpe parlamentar. A ferida aberta na Constituição contou com o beneplácito da sociedade brasileira, que estava apavorada diante da possibilidade de o Brasil ser assolado por uma ditadura comunista. |
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