Num momento imediatamente seguinte, o horror
deu vez à paranóia. Hollywood se leva muito mais a sério do
que deve e, neste delírio, se julgou alvo. Seria mesmo possível
que um cabal de terroristas barbudos, religiosos fanáticos,
escolhesse a première de uma comédia romântica estrelada por
Reese Whiterspoon para mandar mais um recado à Casa Branca?
Ou que plantasse uma bomba no lobby dos estúdios da Warner,
quem sabe em represália a todas as dinamites ACME do Coiote?
Uma bolsa deixada no lobby da Warner provocou
pânico. Evacuaram o estúdio, para descobrir que a possível
bomba eram baterias de celular. As premières demoraram quase
dois meses mas voltaram, porque sobretudo ninguém agüentava
mais a tristeza de uma cidade esvaziada de sua vocação primordial,
a de aparentar eterno êxtase.
Eu me recordo de que, na primeira estréia
pós-11 de setembro, da comédia Zoolander, de e com
Ben Stiller, todos - executivos, jornalistas, profissionais
variados - rimos mais, mas muito mais, do que era necessário
ou merecido. Ríamos de nós mesmos, de estarmos ali rindo,
do absurdo do fato de que aquilo fazia, estranhamente, sentido.
O efeito mais insidioso daquela manhã de
setembro viria a conta-gotas, nos meses seguintes. Um pouco
rarefeito ar de estado de sítio corroeu as alegrias, contaminou
as fantasias, devorou as liberdades.
Primeiro os filmes de guerra voltaram à
moda. O balão de ensaio foi um filmeco que estava na geladeira
do estúdio, Através das linhas inimigas. Quando ele
foi removido do gelo e colocado nas telas, no início de
2002, e estourou na bilheteria, a indústria pulou em posição
de sentido. O público não tinha criado uma aversão à violência,
o público queria violência, desde que provasse, por a
mais b, que era justificada, moralmente correta,
patriótica.
Patriótica. Ouviríamos muito esta palavra,
nos longos meses seguintes.
Eu sei que é muito mais fácil e simples
acreditar que existe um conluio tácito e implícito entre
Hollywood e Washington, que uma faz o que o outro manda,
unidos em interesses comuns. Infelizmente a coisa é mais
complicada e sutil. A relação entre estes dois poderes separados
por um continente é mais tensa e complexa do que parece,
e Washington mais de uma vez desconfiou que sua colega glamourosa
da outra costa estivesse mais contra do que a favor de suas
prioridades.
Mas Hollywood é uma indústria de parecer,
e não de ser. É uma indústria de atender o que o público
quer. A descoberta de que o público, manipulado pela Casa
Branca dentro de um dos mais velhos esquemas da história
- a união contra um inimigo externo -, queria ter essa idéia
reforçada em suas horas de lazer transformou a indústria
cultural americana num regimento marchando ao som do implacável
tambor do ''parecer patriota''.
Por isso, mesmo com toda a liberdade de
expressão americana, não fica bem tocar as músicas country
das Dixie Chicks, já que elas são críticas de Bush. Omitir
várias menções às tropas na festa do Oscar seria crime de
lesa-patriotismo. O mundo vai ver um filme atrás do outro
com americanos salvando o mundo, para que Hollywood possa
parecer patriota.
O mundo é grande e, atualmente, suporta,
com suas compras diretas e indiretas, mais da metade do
borderô da indústria cultural americana. Não sei em que
momento vão perceber que com estes filmes estão alienando
este público. Não sei em que momento isso vai ser mais proveitoso
do que ''parecer patriota''.
No final das contas, Spike Lee reescreveu
o roteiro de A 25ª hora para incluir a chaga aberta
do World Trade Center, e Peter Sollett fez com imigrantes
dominicanos o seu delicioso O verão de Victor Vargas.
James Cameron incluiu imagens da sua equipe estatelada com
as notícias do ataque no documentário Fantasmas do abismo.
Caetano sofreu imensa ansiedade e acabou
se mandando de carro para o México, destino semelhante ao
de vários profissionais que estavam em Toronto e tiveram
de rachar um ônibus para voltar aos Estados Unidos. O Oscar
de 2002 foi sem graça, sem tapete vermelho, e entrar num
estúdio, hoje, exige revista quase tão constrangedora quanto
a dos aeroportos.
Nas telas, por esta safra pelo menos, os
americanos continuarão trajando uniforme e salvando o mundo.
E me contam que, na tarde daquela triste
manhã de setembro, em Manhattan, num bar de hotel, Bruce
Willis assistia, pasmo, cercado de seus seguranças e assessores,
ao loop sem fim das imagens das torres caindo. Parece
que ele estava triste, tristíssimo, com o olhar tonto e
descrente dos heróis que, subitamente, se viram confrontados
com o absurdo de sua vã glória.
Ana Maria Bahiana é jornalista cultural
e mora em Los Angeles.