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SANTIAGO - O golpe militar de 11 de setembro
de 1973 ''seqüestrou a madrugada'' no Chile durante
14 anos, por meio de um toque de recolher que deixou
marcas na população, conhecida mesmo antes da ditadura
como a mais séria da América Latina.
Quase 8% da população atual do Chile, mais de 1 milhão
de chilenos que, em 1973, tinham entre 10 e 14 anos,
viveram sua adolescência e juventude num ambiente de
quartel, obrigados ao confinamento a partir da hora
do jantar. Os maiores de 14 anos em 1973, e que agora
somam 26,36% da população, tiveram de sucumbir à tristeza
de um país que, já por si, não se destacava por sua
alegria em comparação com o resto da América Latina.
O toque de recolher, de duração e rigor variáveis
ao longo dos anos até sua eliminação definitiva, em
1987, era rígido nas comunidades mais pobres e menos
rigoroso nos bairros ricos de Santiago, onde circular
em um veículo de luxo poderia evitar que se acabasse
na prisão.
Da imposição do toque de recolher surgiram dois recursos
originais dos chilenos para amenizar o confinamento
noturno: no primeiro deles, convidados para os jantares
acabavam dormindo na casa dos anfitriões.
O segundo acabou sendo a troca obrigatória do horário
de uma das atividades lúdicas mais velhas e universais
da noite. Em Santiago, surgiram os motéis que abriam
seus quartos em horário diurno, onde os casais menos
tradicionais podiam circular sem medo de acabar na prisão.
Foi nesta época também que surgiram os originais ''cafés
com pernas'', mescla de cafeteria e cabaré, onde os
fregueses eram servidos por garçonetes com pouca roupa.
Durante 14 anos, a noite ficou reservada para o descanso
obrigatório e a ronda de patrulhas militares e policiais;
e o dia serva para trabalhar ... e fazer rápida e furtivamente
o que era arriscado mais tarde.
[10/SET/2003]
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