Ditador foge do público

SANTIAGO - Uma manifestação de cerca de 400 seguidores do general Augusto Pinochet foi realizada ontem para comemorar o golpe. Mas, perto de completar 88 anos, o ditador caminha com muita lentidão, apoiado no braço de alguém da sua escolta. Tem o aspecto de um avô bonachão, mas, quando raramente aparece em público, ainda é capaz de despertar o ódio dos que foram vítimas de uma das ditaduras mais repudiadas da América Latina.

Enquanto alguns o insultam e relembram as violações dos direitos humanos durante seu regime militar, outros o convidam para atos de desagravo. Embora afastado da vida pública, Pinochet ainda divide o Chile.

Augusto José Ramón Pinochet Ugarte nasceu em Valparaíso, no dia 25 de novembro de 1915, num lar de classe média e sem vínculos com o mundo militar. Depois de estudar em colégios católicos, em 1933 ingressou da Escola Militar, onde iniciou uma carreira que o levou, em 1971, a fazer parte do Estado-Maior Conjunto.

Em meio à crise política que sacudia o governo de Salvador Allende, Pinochet é designado comandante do Exército, em substituição ao general Carlos Pratts, que se opôs aos que pediam a intervenção das Forças Armadas para sair da encruzilhada. Pinochet assumiu o cargo no dia 23 de agosto de 1973, quando o golpe de Estado contra Allende estava em gestação e se aproximava uma brusca mudança na história do Chile.

Dezenove dias depois, despedaçou-se a democracia. As Forças Armadas atacaram o Palácio de La Moneda com fogo de artilharia e bombardeio aéreo, o que em poucas horas acabou com o governo da União Popular. Nesse momento, começou a ser tecida a história de uma das ditaduras mais repudiadas no mundo, por causa das detenções ilegais, das execuções sumárias, das torturas e desaparecimentos, que caracterizaram, durante quase 17 anos, um regime que não teve contemplação com coisa alguma que cheirasse a esquerda.

Os primeiros meses da ditadura foram especialmente sangrentos. Segundo organismos defensores dos direitos humanos, só durante o primeiro ano, cerca de 1.200 pessoas foram mortas ou desapareceram.

Os chilenos se manifestaram pelo retorno da democracia, mas o regime não deixou fácil a saída. Pinochet entregou o poder a Patricio Aylwin em 1990 e assumiu o posto de comandante-em-chefe do Exército; Em 1998, quando passou a ser senador vitalício.

No final desse ano, o ex-ditador foi detido em Londres devido a um processo aberto pelo juiz espanhol Baltazar Garzón, pelo desaparecimento de cidadãos espanhóis durante a ditadura. A extradição para a Espanha foi frustrada, quando o governo britânico acolheu um diagnóstico médico que dizia que seu estado de saúde não lhe permitiria enfrentar um processo, depois do que retornou a Santiago em 3 de março de 2000. Desde então, ele se mantém afastado da vida pública.

[08/SET/2003]

 


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