Militares afastam pinochetismo
Trinta anos depois do golpe que derrubou o presidente Allende, Forças Armadas chilenas lutam para ganhar legitimidade
Matilde Wolter EFE

SANTIAGO DO CHILE - Trinta anos depois do golpe militar do Chile, as Forças Armadas se empenham em conseguir sua desvinculação definitiva com o ex-ditador Augusto Pinochet, através de uma imagem institucional que desperte legitimidade.

A difícil tarefa é liderada pelo chefe do Exército, o general Juan Emilio Cheyre, que saldar as contas pendentes com o país, principalmente em matéria de direitos humanos.

- Queremos uma força que seja respeitada não por seu poder, mas pela legitimidade de suas funções militares para o benefício do Chile, o que todos queremos - disse Cheyre.

O plano, aplaudido por grande parte da classe militar, não passaria de ''uma estratégia midiática'', para muitos analistas.

- A única coisa que interessa são situações concretas, as palavras e os gestos são importantes, mas não determinantes. As Forças Armadas continuam gozando de uma autonomia que se opõe a uma democracia plena - disse o analista em defesa e diretor do Instituto de Estudos Estratégicos e Seguridade Social, Raúl Sohr.

No terreno dos gestos e das palavras, em menos de dois anos, Cheyre não apenas colocou a imagem de Pinochet ''no passado'', como também deixou para trás um discurso ''agressivo e reivindicacionista''.

Com a aproximação do 11 de setembro e sem se afastar dos planos traçados para a reformulação das Forças Armadas, o general protagonizou outro momento com um ''nunca mais'' às violações aos direitos humanos e à violência política que provocou uma adesão majoritária, mas causou um mal-estar dentro do círculo pinochetista.

- O chefe do Exército fez grandes discursos mas, se se analisa com rigor, não se notam muitas mudanças - disse Viviana Díaz, secretária do Grupo de Parentes de Detidos e Desaparecidos (AFDD, na sigla em espanhol). - Passarão muito anos para que tenhamos confiança nas Forças Armadas.

Os assuntos pendentes são muitos, reforçam os analistas, que também destacam ''o atraso doutrinário e tecnológico'' em que Pinochet deixou o Exército.

Admite-se, apesar disso, que os chilenos vivem mais tranqüilos e os militares ''não gravitam nem remotamente'' na política nacional, como fizeram em 1973 ou no início dos anos 90. Mas os ativistas reiteram que os gestos, especialmente em matéria de direitos humanos, não bastam.

- As forças armadas ainda não reconhecem sua responsabilidade institucional relativa às violações dos direitos humanos - destacou Sohr. - Aqui não houve meros excessos de alguns indivíduos. As torturas, as violações e os crimes foram cometidos de forma generalizada em quartéis, nas academias e a bordo de navios.

Para Raúl Sohr, a possibilidade de uma nova mobilização militar é ''inconcebível'', mas o analista lembra que o Chile tem ''uma constituição que eles deixaram e que é respeitada cegamente'' pelos civis.

[08/SET/2003]

 


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