Uma cidade olha para trás
Gerald Thomas
Woody Allen costumava dizer que NY tem o único termômetro humano no mundo que , além de revelar a tua temperatura, também mede o estado mental da cidade.

– Preste bem atenção nas caras das pessoas que vêm andando na sua direção e, ao mesmo tempo, tente criar um olho retrovisor para sentir o que se passa atrás de você, pelas suas costas. Se aqueles que vêem vindo estão com cara de que querem te matar ou te currar, e se você sente que, atrás, alguém está puxando a faca da cintura pra enfiar nas suas costas, então está tudo bem, tudo normal, é como se demonstra felicidade nessa cidade amada.

Allen falava da América da era Reagan. Isso já faz décadas. Muito mudou. Hoje, ninguém mais porta a arrogância e neurose de um predador. Essa expressão foi transformada, depois dos ataques de 11 de setembro, numa fisionomia apática, uma máscara que parece ser símbolo de qualquer trauma e emblema dos antidepressivos: o sorriso artificial, uma falsa cara simpática, tudo muito sinistramente bem administrado. A vida por um fio, mas tudo bem.

Tudo um pouco parecido com o Truman Show, onde tudo parece ser o que não é mais. E quando se olha pra trás, nota-se que essa pessoa também está olhando pra trás. Sera que estamos todos olhando pra trás? Sera que gostaríamos de estar congelados no dia 10 de setembro de 2001?

– Sem dúvida – diz T. Suzuki, dono do restaurante Basta Pasta, na Rua 17 entre a Quinta e Sexta Avenida. Suzuki tem um percurso de vida curioso. Neto de sobreviventes de Nagazaki, Suzuki (que mede mais de um metro e noventa) é um japonês que saiu de seu país pra ir jogar futebol no Santos Futebol Clube. Algo (que ele não revela) não deu certo e, anos depois, emigrou para Nova York e teve a brilhante idéia de abrir um restaurante italiano com um japanese twist. Virou a coqueluche da cidade. É lá que se encontram as pessoas do mundo fashion japonês, comendo um fettucini cozido dentro da enorme roda de queijo parmeggiano reggiano.

– Nunca tive medo de nada. Mas agora tenho. Acordo de noite apavorado e me pergunto o que ainda me atrai e me retém aqui. Metade da minha clientela desapareceu. O nosso entusiasmo espontâneo desapareceu. Suzuki não está só. Numa roda de, digamos, dez amigos, todos acham que passaremos por um longo e tenebroso inverno, já que Nova York é o zero do alvo, ou seja, a chamada “number one target city in the world”.

Sem exceção, todos estão repensando e reconfigurando suas vidas, inclusive eu. Me mudarei para a Alemanha no mês que vem, por causa da oferta de trabalho. Todos ainda amam Nova York de paixão, mas todos entendem que ela não se dá nada bem com a politica da administração Bush. São incompatíveis.

A América de hoje vive a maior autópsia de sua história. E essa autópsia dói, já que ainda não morremos e estamos somente sob anestesia local. O fascínio pelo crime aumentou, a sensação de vulnerabilidade tomou conta da supernação dos super- homens invencíveis. Os CEOs das grandes corporações viraram bandidos, ladrões descarados. A Igreja Católica passa pela sua maior crise (pedofilia, abusos sexuais e um silêncio sepulcral a respeito do assunto).

Estou escrevendo a uma semana da trágica data de 11 de setembro, que jamais esquecerei. Mas hoje também percebo, assim como todos os outros, que o que nos ancorava aqui com perseverança e patriotismo caiu ralo abaixo, junto com as torres do World Trade Center.


SETEMBRO DE 1973
CHILE

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SETEMBRO DE 2001
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11 de setembro de 2001

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SETEMBRO DE 2002
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Qual deve ser o modelo de sistema penitenciário no Brasil?

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11 de setembro de 2002

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Rebelião em Bangu I