| Idiomas ou sotaques, nacionalidade, raça
e cor da pele, opções religiosas, sexuais ou religiosas
– nenhum desses quesitos parece relevante. Basta ter nascido
há pelo menos 50 anos, ter olhos para ver e ter visto
aquilo. Quem se encaixa nesse perfil jamais esquecerá
onde estava em dois momentos riscados feito cicatriz na
memória planetária. O primeiro ocorreu na noite de 20
de julho de 1969, quando o astronauta americano Neil Armstrong
pisou na Lua e o homem chegou ao céu. O segundo se eternizou
na manhã de 11 de setembro de 2001, quando terroristas
destruíram as torres gêmeas de Nova York e o homem desceu
ao inferno.
A conquista do espaço foi uma história com muitos
heróis e nenhum bandido. Só os protagonistas do grande
momento puderam contemplar o clímax da aventura com
os próprios olhos. A platéia espalhada pelo planeta
conformou em emocionar-se com imagens pouco nítidas
e o som prejudicado pela estática. O espetáculo exibido
pela TV hoje parece tão antiquado quanto um terrorista
de adaga na mão.
A segunda história também contou com muitos heróis.
Mas poucos deles sobreviveram. E houve bandidos demais.
E houve uma quantidade espantosa de mortes absurdas.
Os alvos alcançados pelos aviões pilotados por fanáticos
eram tão culpados pela ação política e pelos equívocos
brutais dos governos americanos quanto uma avó do interior
brasileiro.
Milhares de espectadores testemunharam tudo aquilo
ao vivo, perplexos demais para afastar-se das cercanias
do World Trade Center. Centenas de milhões acompanharam
pela TV, ao vivo e com as dimensões ampliadas pela moderna
tecnologia que parecia antecipar o futuro, a colisão
do segundo Boeing contra a Torre Sul, o salto dos suicidas,
o fogo e o calor, o calor e o fogo, mais fogo e mais
calor, o desespero impotente da multidão, a luta magnificamente
insensata dos bombeiros, e enfim a queda dos edifícios
monumentais.
Em 20 de julho de 1969, uma bela aventura terminou.
Em 11 de setembro de 2001, consumou-se o parto da nova
era do horror. Então começou o primeiro ano do resto
das nossas vidas.
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