|
Miria Contreras, conhecida como La Payita,
era secretária particular de Salvador Allende. Em carta
escrita a Beatriz Allende Bussi, a Tita, filha do presidente
chileno, dois meses depois do golpe militar e da morte
do chefe do governo, relata em detalhes o dia que antecedeu
a ação que levou Allende à morte. ''Na segunda-feira,
dia 10, seu pai se retirou do La Moneda tranqüilo e
de bom humor. Pouco depois, recebi um telefonema em
que me explicavam que estava sendo planejado para esta
noite um grande atentado'', conta Miria.
''Tentei telefonar para sua casa e pedir que não a
deixassem ir ao La Moneda, porque assim seu pai tinha
me pedido. A mesma coisa para a sua mãe e as suas irmãs.
Ele não queria sacrificá-las e isso foi a única coisa
que ele sempre me pediu'', revela a fiel secretária.
Leia a carta, abaixo:
"Querida Tati:
Já se passaram dois meses desde aquele
dia terrível, mas para mim foram como anos. Não sei
se você já sabe da morte do meu filho Enrique. Junto
com ele, estavam Bruno e os outros companheiros do GAP
[''Grupo de Amigos Personales'', defensor do governo
Allende], que vinham comigo de Cañaveral ao La Moneda
e foram presos na Intendência. Apesar de todos os esforços
que fizemos para que eles fossem libertados, isso foi
impossível, porque Mendoza [general golpista]já tinha
tomado a rádio e estava assumindo o comando dos Carabineiros.
(...)
Quando corri até a porta da Rua Moneda,
vinha chegando o auxiliar Grez, a quem pedi que me acompanhasse
até a Intendência, mas ele se recusou (Agora é auxiliar
de Merino). O general Sepúlveda [chefe dos carabineiros
destituído por Mendoza]também não pôde fazer nada e
seu pai pediu ao general Urrutia [imediatamente inferior
a Sepúlveda]que fosse pessoalmente tentar retirá-los
de lá, mas foi impossível.
Dias depois, soube que de lá os levaram
para a garagem subterrânea da Praça da Constituição,
para levá-los depois ao Estádio Chile. Em uma das casas
que me alojaram durante o primeiro mês, soube por um
dos vizinhos, um médico que também esteve detido lá
- o pobre estava bastante mal, quase transtornado por
tudo o que teve que viver por lá - que as torturas e
brutalidades que foram feitas com um grupo do GAP ali
presente eram uma coisa horrenda.
Isabel [filha mais velha de Payita]me
escreveu me contando que Enriquito morreu brigando (tinha
três balas), porque alguns conseguiram fugir da Intendência.
Tomara que tenha sido assim, mas tenho quase certeza
de que ele foi morto no Estádio, junto com os outros.
Eu tinha deixado Max [filho mais novo
de Payita]no Tomás Moro para que ajudasse na defesa
lá. Menos mal que Rubén o tenha visto quando todos já
tinham ido e conseguiu tirá-lo de lá.
Alguns amigos o esconderam por mais
de um mês até que o levaram para a embaixada francesa,
onde está esperando um salvo-conduto para sair. Achei
que isso aconteceria logo, mas parece que colocaram
muitos obstáculos.
Isabel não quer ir de nenhuma maneira,
diz que sua obrigação é ficar aqui. Já invadiram sua
casa várias vezes e lhe roubaram tudo. Colocavam a inscrição
''Allende'' para explicar aos vizinhos que eram armas
que tiravam dali. Isso eu soube também por uma das pessoas
que me alojou e que tinha uns amigos no mesmo prédio.
Não conseguiram salvar quase nada.
Levaram Enrique pai [marido de Payita]ao
Estádio Nacional e depois, à prisão pública. Levaram
tudo dele, até a caminhonete. A acusação pior é pela
oficina de Las Cañas, onde encontraram o túnel com todos
os seus acessórios. (...) Se eu soubesse que, me entregando,
o deixariam em liberdade, assim como os meus filhos...,
mas com eles é impossível esperar uma coisa assim, porque
a única coisa que querem é exterminar todos.
A mim me querem para poder inventar
histórias mais extravagantes. Estão convencidos de que
sei onde estão ou que tenho milhões de dólares que,
segundo eles, foram roubados pela U.P.
Esta semana cerca de 600 detidos saíram
do Estado Nacional e foram levados ao Escritório Salitrera
Chacabuco (110 quilômetros para o interior de Antofagasta).
Entre eles estava Manuel Cabieses [diretor da revista
Punto Final]; outros foram levados a Pisagua
e à ilha Quiriquina, e outros serão levados à ilha Santa
María. Em Iquique fuzilaram seu amigo Freddy Taberna.
Arnoldo Camú [assessor do intendente de Santiago]morreu
em uma troca de tiros com policiais na rua. A cada dia
aparece nos jornais uma lista de entre cinco e dez extremistas
aos quais foi aplicada a lei de fuga.
As invasões têm sido monstruosas, especialmente
porque o objetivo deles é amedrontar as pessoas para
que elas não nos ajudem. Pessoas muito boas, com vontade
de ajudar, nem pestanejavam durante as noites em que
me ocorria chegar perto do toque de recolher (para que
não me deixassem na rua). O pior é que também não me
deixavam dormir. Nunca tinha visto em toda a minha vida
as pessoas que me alojaram, exceto três delas, mas a
pessoa que me contactou era maçom, da mesma assembléia
do seu pai e por carinho e respeito a ele cuidou de
mim me levando todas a noites a um lugar diferente para
que não me localizassem. Ao fim, quando já não tínhamos
o que fazer, começou a tentar me levar a uma embaixada.
Menos mal que Isabel pôde fazer o contato,
de modo que você já deve imaginar onde estou. A idéia
é que ninguém me localize, por isso não me deixam nem
colocar o nariz para fora. Lembre-se de como eu sofria
com o toque de recolher e imagine como será isso aqui.
Não sei quantos meses durará. Diga a Chica [outra secretária
de Allende]que estive várias vezes com Eugenio [marido
de Chica]e que dividimos um dormitório. Decidimos acompanhar
e consolar um ao outro. Ele tem muita saudade de vocês,
mas está tranqüilo em saber que estão bem. Mitzi [irmã
de Payita]se asilou. Estava muito comprometida, porque
só tinha seu JAP, de modo que os comunistas esconderam-na.
Além disso, a morte de Enriquito terminou com a resistência
dela. Você sabe que ela amava meus filhos como seus
próprios filhos. Queria lhe pedir, se puder sair, que
a ajude e procure uma maneira de continuar ajudando-a
de fora ou alguma forma de voltar. Não se esqueça de
que de todas nós, as irmãs, ela é a melhor.
Toda essa explicação como prólogo é
para que você conheça meu estado de ânimo. Tento continuar
a luta e tirar forças de minha fraqueza. É difícil,
mas vou conseguir. No sábado do seu aniversário, seu
pai se reuniu durante um almoço com o general Prats
[ex-comandante-em-chefe do Exército, substituído por
Pinochet]e Flores [ministro de Allende]até as 8h da
noite e me fez marcar para o domingo, às 10h30 o PC
e às 12h Pinochet e Urbina [chefe do Estado Maior].
Me fez pedir que fossem em trajes civis a Tomás Moro.
Na noite do sábado me fez procurar Bartulín
e um documento na casa de Adonis Sepúlveda com o resultado
das reuniões que a UP mantinha desde a quinta-feira
com objetivo de votar:
1- Acordo com a DC (Publicação Projeto
Hamilton de imediato);
2- Plebiscito;
3- Um governo de segurança e defesa
nacional;
No caso de que não concordasse com qual
linha seguir, o Presidente pediu que lhe deixassem decidir.
Na carta de Adonis, ele explicava a seu pai que depois
de várias reuniões não haviam chegado a nenhum acordo
entre os partidos e também não concordavam que o Presidente
decidisse.
Na segunda-feira, dia 10, ao meio-dia,
o PC me entregou uma carta (segundo soube por Víctor
[grande amigo de Allende]que se tratava de uma solução
em relação ao ponto do plebiscito, para, em vez dele,
definir o prazo presidencial para 4 anos) trazida por
Rodrigo Rojas [ex-diretor do diário do PC], que me comentou
que ali estava a solução a todos os nossos problemas
e que a entregasse de imediato a seu pai. Não soube
se havia aceitado ou não, mas quando se retirou do La
Moneda, perto das 10h, ia tranqüilo e de bom humor.
Tinha encontro marcado em T. Moro com Perro [jornalista
e o assessor mais próximo de Allende]e Garcés, porque
pensava em fazer uma intervenção no dia seguinte. Pouco
depois de ele se retirar, Ariel Fontana [chefe do dispositivo
de segurança do presidente]me telefonou para explicar
que estava sendo planejado para esta noite um grande
atentado e que precisava falar com o Presidente. Como
Joignant, Máximo e Coco estavam lá fiz com que ele fosse
ao La Moneda, mas depois tiveram que ir encontrá-lo
em T. Moro, porque precisavam de seu consentimento para
partir de imediato de Santiago. (...)
Víctor, Jorquera, Uranga e Maxito estavam
ali comigo. Nos oferecemos para ficar à espera de notícias
suas. Por volta das 12h começaram telefonemas avisando
que havia mobilização de tropas desde Los Andes. Liguei
para Flores em sua casa para que ele me confirmasse
o fato antes de avisar a seu pai. Lhe pedi que telefonasse
a Pinochet se fosse necessário. Ele me disse que ia
telefonar para outras pessoas e que eu ligasse para
o subsecretário de Guerra, Valenzuela, já que eu o conhecia.
Ele estava dormindo, mas lhe expliquei o que estava
acontecendo e pedi que ele averiguasse. Uma meia-hora
depois, ele me telefonou comunicando que tinha falado
com coronel Ibáñez (o que esteve em Rancagua), que estava
de plantão no Estado-Maior, confirmando que era verdade,
mas que não se tratava do regimento inteiro, mas apenas
de duas companhias que vinham reforçar a guarnição de
Santiago, porque (terça-feira, 11) seria um dia ''duro''.
Ao perguntar a ele o que significava a palavra ''duro'',
explicou que neste dia se saberia sobre a acusação de
Altamirano e Garretón e os trabalhadores poderiam tentar
tomar vias, fabricas. Interfonei de imediato ao Presidente,
acrescentando a notícia da ordem de aquartelamento geral
até as 6h da manhã. O Presidente pediu o número de telefone
do general Brady e falou pessoalmente com ele, que lhe
deu todo o tipo de segurança. Seu pai voltou a nos interfonar
e nos deu a ordem de irmos descansar. Uranga ficou no
La Moneda para receber as notícias de Ariel. Eram 2h3
da manhã de terça-feira.
Às 5h, Uranga me avisou pelo telefone
que a operação dos terroristas P. e L. havia sido adiada
(evidente seu contato com as Forças Armadas, já que
o golpe seria neste mesmo dia). Às 7h45, nos avisaram
de T. Moro que a Marinha havia se rebelado, que o Presidente
estava indo ao La Moneda. Tentei telefonar a sua casa
para pedir ao Luis que não te deixasse ir ao La Moneda,
porque assim seu pai me tinha pedido. A mesma coisa
para a sua mãe e as suas irmãs. Ele não queria sacrificá-las
e isso foi a única coisa que ele sempre me pediu.
Tentei telefonar a sua casa para pedir
ao Luis que não te deixasse ir ao La Moneda, porque
assim seu pai me tinha pedido. A mesma coisa para a
sua mãe e as suas irmãs. Ele não queria sacrificá-las
e isso foi a única coisa que ele sempre me pediu.
Mas também não pude falar com Víctor,
em quem pensei para que avisasse e ajudasse vocês. Claro,
esse dia tivemos que sair de carro como sardinhas. Ainda
bem que a caminhonete também estava lá, mas muitos companheiros
ficaram lá, sem se mexerem.
Tinha pressa em chegar, segundo as ordens,
primeiro a Tomás Moro, para depois levar ajuda ao La
Moneda. Seu pai já tinha ido ao La Moneda e Mariano
estava encarregado de Tomás Moro. Havia ordem para ficar
ali, mas eu lhes roguei que me deixassem levar Bruno
e um grupo para ajudar.
Saímos com bastante sorte, porque encontramos
um motorista carabineiro que nos escoltou até [a esquina
do passeio]Ahumada com [a rua]Moneda. Ao chegarmos na
esquina da Intendência, começou a tragédia sobre a qual
eu já te contei. Das pessoas que estavam lá, você conhece
os nomes. Depois de vocês, foi o resto da Guarda do
Palácio, ao qual seu pai obrigou a deixar as armas.
Por isso, o grande ''arsenal'' que encontraram. Fomos
ficando poucos. Depois foram os dois - Tohá e Briones
- que se entregaram ao Ministério (o único que goza
de liberdade atualmente é Briones).
Que grande general era seu pai. Se tivesse
ouvido como dava as ordens e com que tranquilidade e
valentia enfrentava os acontecimentos. Todos nós ficamos
admirados. Ele dirigiu toda a operação bazuca e quando
voou a parte superior do tanque foi seu melhor momento.
Depois do bombardeio aéreo, o bichinho se suicidou.
Ele telefonou a T. Moro para saber de sua mãe e de vocês.
Este foi o único momento que vi em seu rosto uma mostra
de dor, quando lhe responderam que sua casa também havia
sido bombardeada. Não sei quem estava do outro lado
do telefone.
Depois, ele foi ao segundo piso e, do
nosso escritório, descarregou sua submetralhadora. Nós,
com Máximo e Bartulín, tentávamos tirá-lo dali e a única
coisa que queríamos era conservá-lo. Corri o tempo todo
atrás dele. Quando vocês saíram e o jipe não chegava
para buscá-las, seu pai voltou a telefonar para Badiola
lhe dizendo que vocês podiam ser feridas a por causa
do enorme tiroteio que havia lá fora e que impusesse
sua autoridade pelo menos uma vez na sua vida e fosse
apurar a situação. Ao fim da conversa com ele, seu pai
voltou, pegou o interfone para ligar novamente para
Tomás Moro, mas havia ficado interceptado com o Estado-Maior
e ouvimos claramente Baeza dizendo: ''Temos que matá-los
como formigas, que não fique rastro de nenhum deles,
principalmente de Allende''. Ao sair ao pátio de inverno,
seu pai pediu aos generais dos carabineiros que se retirassem,
o mesmo fez com o pessoal da escolta de carabineiros
e da investigação.
Enquanto esperávamos o bombardeio aéreo,
os tanques continuavam a disparar, o barulho era espantoso.
Seu pai nunca acreditou que se atreveriam a bombardear
o La Moneda. Estava convencido de que, por mais ódio
que houvesse, as Forças Armadas não se atreveriam a
tocá-lo e a destrui-lo pelo símbolo que isso significava.
Flores lhe pediu que o deixasse conversar
com os milicos, acompanhado de Vergara e Puccio. Seu
pai respondeu que fosse sem lhe dar muita importância,
acreditando, creio eu, que Puccio assim poderia se salvar.
Tentaram sair, mas não conseguiram.
Então, Daniel V voltou e pediu a seu pai que lhe dissesse
claramente o que eles iriam propor aos militares, caso
contrário ele não sairia dali. Seu pai lhes pediu que
trouxesse por escrito uma série de condições que ele
enumerou: segurança para a continuidade dos Sindicatos
dos Trabalhadores, nenhuma repressão contra a esquerda,
completo respeito a todas as conquistas dos trabalhadores
etc. Lhe retificou que lhe trouxessem por escrito e
aceito pelas Forças Armadas, mas que eles não fossem
assinar nada, porque ele deveria revisar. Este grupo
não voltou mais.
Como o incêndio continuava avançando
e ia haver um bombardeio aéreo, seu pai pensou na possibilidade
de pedir mais cinco minutos de trégua com o objetivo
de tentar cruzar a garagem e passar ao Ministério de
Obras Públicas, porque de lá tinha mais visibilidade
para poder continuar enfrentando-os.
Coco e J. Barrios lhe disseram que ele
já não podia continuar pedindo minutos de trégua, mas
ele, rindo, lhes disse que sabia o que estava fazendo,
porque em cinco minutos poderiam acontecer muitas coisas.
Isso não aconteceu, pois disparavam
por todos os lados e era muito perigoso. Depois fomos
à sala de refeições e ali, deitados no chão, tentamos
nos comunicar com os companheiros que estavam em frente
e olhar para o Ministério da Defesa, mas começaram a
lançar bombas que nos obrigaram a sair dali e procurar
máscaras. Lembro das caras de asfixia de Cacho, de Juan
Seoane (que ficou com seis companheiro até mais perto
do final).
Passávamos as máscaras uns aos outros.
Lembro que naquele momento os médicos trouxeram a enfermeira
totalmente asfixiada e seu pai tirou sua máscara de
imediato e lhe deu para que ela se recuperasse.
Juan Seoane atendeu a última ligação
do Estado-Maior, na qual avisavam que o bombardeio continuaria
para que nos rendêssemos antes que as tropas entrassem.
Seu pai nos reuniu no corredor ao lado
do salão Toesca no mesmo momento em que Cacho subia
avisando que as tropas já estavam na porta de Morandé
e nos disse que antes de nos rendermos queria que, juntos,
rendêssemos uma homenagem a Augusto Olivares, primeiro
mártir da revolução. Cacho segui adiante com um pano
branco, mas na metade da escada o vi lançar-se ao chão...
Não sei o que lhe gritaram de baixo naquele instante.
Voltei ao corredor onde o seu pai havia
ficado e ouvi os disparos da submetralhadora que vinham
da sala, para onde corri. Lá estava Máximo, que me fez
sair e me levou escala abaixo até a saída. Acho que
ele voltou apesar de tudo já ter terminado. (No momento
em que me retiraram não me lembro de ter visto nenhum
oficial, acho que o general Palacios entrou depois).
Na rua, nos puseram contra a parede,
com as mãos na nuca. Pensei que fuzilariam todos. Lembro
ter estado ao lado de Enrique Huerta, que não conseguia
se controlar e soluçava como uma criança pela morte
de seu pai. Nos revistaram mais uma vez.
Coco, nessa hora, me encorajava para
deixá-los fazer, porque já lhe parecia que iam atirar
em mim. Naquele momento, recomeçaram os aviões com suas
metralhadoras e os milicos fizeram com que ficássemos
com os rostos no chão no meio da rua. Cada descarga
do avião pensava que havia chegado nosso último segundo.
Num momento em que se descuidaram, levantei a cabeça
e vi a Intendência envolta em chamas. Como te explicar
minha angústia nesses momentos? Pensava que Enriquito,
Bruno e os companheiros poderiam estar lá.
De repente, senti que me tocaram com
um sapato e me disseram: Paya, o que está fazendo aqui?
Olhei e vi Jaime P. Naquela hora estava chegando uma
ambulância que vinha buscar os feridos. Me disse para
que me fizesse de morta e pediu ao enfermeiro que me
levasse.
Chegou um milico e perguntou o que eu
tinha, mas já tinha me colocado dentro de um saco de
batatas. Quando chegamos, tive a sorte de encontrar
poucos médicos de esquerda juntos que me ajudaram, me
emprestaram roupas e me levaram a um lugar onde fiquei
até o terceiro dia. Soube de alguns de nossos companheiros
que ficaram ali que parece que puderam escapar, como
Cacho, o dr. Ruiz, Bartulín. Achávamos que este último
estava escondido, mas acabei de saber que há poucos
dias o pescaram e o levaram ao Estádio. Parece que tem
sido bastante duro e tem sofrido muito. Na história
que publicaram do GAP o põem como o médico-chefe e muito
próximo a seu pai. (...)
Vocês já devem saber que os preços foram
às nuvem e, claro, com eles, as filas acabaram porque
ninguém pode comprar. Arsenio e Enrique Paris estão
mortos. No início, Jaime Barrios estava no Estádio,
mas depois não se encontrou mais e se espera o pior.
Hoje as notícias só falam do atentado frustrado ao Regimiento
Tucapel de Temuco por mais ou menos 15 companheiros,
dos quais 7 ficaram mortos, 2 presos e o resto é procurado
por todo o Exército.
Sua mãe tira do sério a Junta e os fascistas
em geral com suas viagens mundiais em busca de solidariedade,
Não há um dia que não saia uma foto e um artigo a respeito
dela. Envio a ela os nossos mais sinceros agradecimentos
e felicitações por seu trabalho, assim como para todos
vocês.
Bom, venha buscar a carta. Um monte
de abraços para todos. Diga a Luis que nos avise quando
seu filho nascer."
[09 e 10/SET/2003]
|