| O Jornal do Brasil publicou na terça-feira
e ontem uma carta que se transformou no mais fiel relato
das últimas horas de Salvador Allende, que se suicidou
dentro do palácio La Moneda em setembro de 1973. A autora
é Miriam Contreras, a Payita, secretária-particular e
fiel assistente do então presidente. Miriam descreveu
a situação com riqueza de detalhes e seu relato preenche
uma lacuna importante ao preservar a memória da versão
dos vencidos.
O documento a que o JB teve acesso ressurgiu
na semana passada na publicação chilena The Clinic.
Foi escrito por Payita dois meses depois do golpe, quando
ela estava escondida dos algozes do general Augusto
Pinochet na embaixada cubana. O imóvel havia sido esvaziado
pelos ocupantes com o fim do governo socialista, mas
estava sob proteção da Suécia e de seu embaixador, Harald
Edelstam. A destinatária é Beatriz Allende Bussi, a
Tati, filha mais nova de Allende, já exilada em Havana.
Além de narrar os momentos finais de
Allende, Miriam traçou um emocionante relato do feroz
ajuste de contas contra a esquerda que se seguiu ao
golpe patrocinado pelos militares.
Os originais, com oito páginas, foram
datilografados por Payita - que preferia escrever à
mão _ para garantir que chegassem a Beatriz. A forma
encontrada para contrabandeá-los em segurança foi fotografar
as páginas e esconder os negativos num tubo de pasta
dental. Se o tubo fosse aberto, o filme imediatamente
se velaria. Felizmente, o objeto chegou às mãos da destinatária.
Tati, porém, teve um fim igual ao do pai: suicidou-se
em Cuba no dia 11 de outubro de 1977, quatro anos e
um mês depois do golpe.
O relato é cronológico, marcado por
cenas dramáticas nas quais Miriam descreve um Allende
só, defendendo o palácio a rajadas de metralhadora.
Na primeira parte, reproduzida ontem, Miriam descreve
a madrugada de 11 de setembro. Uma noite aparentemente
calma até que o alarme dentro do governo foi disparado
pela comunicação de que ''haveria um grande atentado
no dia seguinte''.
A secretária também nomina supostos
traidores de dentro do palácio. Como Alberto Uranga,
arquiteto e assessor, que lhe telefonou às 5h para tranquilizá-la
e dizer que o suposto ataque havia sido adiado.
- Evidente o seu contato com as Forças
Armadas, já que o golpe seria neste mesmo dia - comenta
Payita.
Ela explica, ainda, porque o pai de
Tati queria tanto a família fora do palácio a partir
desse momento.
- Ele não queria sacrificá-las e isso
foi a única coisa que sempre me pediu - diz.
Miriam Contreras morreu em 2002, em
Santiago - onde vivia depois do retornar exílio em Cuba
- sem esclarecer detalhes do suicídio do presidente.
Na carta, deixa entender que sabe, mas não os revela.
Os amigos garantem que ela o viu morrer. E depois saiu
do palácio pela Rua Morandé, fingindo-se de morta numa
ambulância.
Leia
a carta
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