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Tempos sombrios na América Latina

Emir Sader
Colunista

Restam Brasil e Argentina como eventuais líderes no continente O 11/9 já encontrou a América Latina enfraquecida por mais de uma década de farra especulativa e pela aplicação das políticas de ajuste fiscal. Colômbia, Argentina, Venezuela, Cuba... À exceção do México, com relações carnais com os EUA – consagradas pelo Nafta – do ponto de vista de Washington o continente era apenas um conjunto de problemas para o governo Bush.

A virada na política dos EUA, girando o seu eixo do “livre comércio” para a “guerra contra o terrorismo”, recolocou em cena um clima de “guerra fria”, com a militarização dos conflitos – de que o Afeganistão, a Palestina, a Colômbia e o Iraque são os exemplos mais claros. Quando a América Latina passou a sofrer os efeitos mais fortes do esgotamento das políticas neoliberais, multiplicados pela recessão internacional, a política belicista dos EUA rebaixou ainda mais o perfil do continente no plano internacional. Mesmo o México passou de parceiro a vítima dos problemas americanos, enquanto a Argentina entrava em colapso, compondo com o Brasil, o Uruguai, o Peru, o Paraguai, a Venezuela, a Colômbia, o Haiti e o Equador, o quadro da pior crise na América Latina desde os anos 30.

Entre as grandes potências, ganharam espaço no bloco dirigido pelos EUA os aliados fortes em termos militares e geopolíticos – Rússia, China, Paquistão. A América Latina passou definitivamente a ser apenas um problema – econômico e social em geral, militar no caso colombiano. Ao mesmo tempo, a mudança de política do FMI – sob tutela americana – dificulta a negociação com a Argentina e com outros países em crise. A esses efeitos gerais, a América Latina soma as conseqüências da nova conjuntura internacional. Em primeiro lugar, o agravamento da situação de guerra na Colômbia e a extensão do conflito por toda a sua região amazônica.

A Operação Colômbia se articula, por sua vez , com o Plano Puebla-Panamá e com a Alca, como instrumentos de consolidação da hegemonia americana sobre o conjunto do continente. A primeira pretende “pacificar” o continente, enquanto a segunda busca abrir mais espaços para a exploração da região andino-amazônica (com toda a riqueza da sua biodiversidade). A Alca, por sua vez, destina-se a formalizar a situação do continente como área de exploração praticamente exclusiva dos EUA.

Que perspectivas se apresentam para a América Latina desde o 11 de setembro e particularmente no seu primeiro aniversário? O que pode alterar o quadro é o fato de que, em poucos meses, haverá eleições – gerais no Brasil, presidenciais na Argentina – em países que podem liderar um processo de resistência à ofensiva americana. Foram os governos desses dois países – os de Menem e de FHC – que facilitaram a hegemonia dos EUA na região, ao enfraquecer o Mercosul e abandonar a possibilidade de exercer uma liderança alternativa à de Washington. Uma vez que o México – preso pelos acordos do Nafta – tem grande dificuldade para desempenhar esse papel e seu presidente, ainda na primeira parte do seu governo, ata o destino do país ao dos EUA, restam Brasil e Argentina como eventuais líderes alternativos na América Latina.

Essa possibilidade vai se concretizar, caso triunfem os candidatos opositores – de fato, não apenas de palavra – em outubro deste ano por aqui, em março do ano que vem por lá. A rejeição explícita à Alca, iniciativas de resolução pacífica da guerra colombiana e do conflito venezuelano, a construção de uma moeda comum (inicialmente para o Mercosul, posteriormente para o Pacto Andino e para o conjunto do continente), um projeto de integração latino-americana e uma política internacional multipolar são os elementos de uma liderança alternativa à dos EUA que só pode se impor pela ruptura da política neoliberal e pela transição concreta para uma economia pós-neoliberal.

Do contrário, a consolidação da Alca e o prolongamento da sangria econômica atual como efeito das políticas de ajuste fiscal levarão a um aprofundamento da crise social que já debilita praticamente todos os sistemas políticos do continente. Nesse caso, tempos ainda mais sombrios, com turbulências generalizadas, resultarão da crise interna gerada pelas políticas neoliberais e pelos projetos imperiais dos EUA.


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