Uma cidade olha
  para trás


A mídia, campo
  
de batalha

Tempos
  sombrios na
  América Latina


Brasileiros
  relembram
  a tragédia


CIA e FBI não
  elucidaram ataque


O preço de cada
  vida perdida


EUA em alerta
  contra o terror


A capital do mundo
  chora novamente


Bush: “11/9 foi o
  início da resposta”


O lado invisível
  do abalo


Na economia,
  “terroristas” por
  todos os lados


Vôos do Brasil
  são cancelados


Afeganistão
  enfrenta uma
  nova batalha




A mídia, campo de batalha

Eugênio Bucci
colunista

Dizer “guerra ao vivo” já não vale mais. Isso aconteceu numa pré-história longínqüa, no Golfo, quando a CNN subiu aos céus feito um míssil para ali, no céu, implantar a era do telejornalismo globalizado. Instância internacionalista (e americaníssima) da imagem ao vivo. Dizer “teleguerra” também já não funciona. “Videoguerra” dá no mesmo; a analogia dos combates mortais, teleguiados, ao vivo, com os games que arregimentam adolescentes em constantes viagens alucinógeno-cibernéticas por todos os continentes, é uma analogia pífia perto do que se passa. Os pilotos nos caças são garotos viciados em games. Os garotos viciados em games são pilotos de guerra. Tudo isso porém é banal, usado, gasto. A era agora é outra.

O que o 11 de setembro inaugura é uma fase ao mesmo tempo igual às outras – a videoguerra, a guerra ao vivo, a teleguerra – e profundamente diferente delas. Igual porque contém seus elementos de games, de telejornalismo-show ao vivo, um reality show apocalíptico e generalizado, etc. Diferente porque, agora, a mídia não é mais um tentáculo a conectar a intenção de ataque ao alvo do ataque (como nos comandos eletrônicos dos arsenais militares), ou a conectar o local da destruição ao olho do público (como nas coberturas instantâneas), ou a conectar a decisão do governo à opinião pública (como nos discursos de Bush, se é que ele consegue fazer discursos).

Agora, a mídia é o local da guerra. Não um lugar meramente simbólico, isto é, um lugar em que os interesses das nações se enfrentam como se estivessem numa guerra pela simpatia e adesão da humanidade-platéia, mas o lugar real em que a guerra mesma, com suas explosões e seus cadáveres desintegrados, acontece. O 11 de setembro realiza a mais sombria das profecias dos estudiosos: o terror passa a acontecer no espetáculo e como espetáculo. A guerra já não é a continuação da política por outros meios, mas a realização integral do espetáculo despolitizado.

O alvo dos atentados de 11 de setembro não é apenas um ou outro prédio de Nova York ou Washington, mas o olhar global. O olhar foi o alvo – proposital ou não, pouco importa. Foi no olhar que a humanidade foi atingida. Cada cidadão que viu aquelas torres sendo mastigadas por uma densa nuvem de poeira negra se tornou instantânea e permanentemente um mutilado de guerra. De seus olhos foram extirpados ícones que integravam a rede imaginária da então vigente “ordem mundial”.

No vazio aberto pelos ícones arrancados, instaura-se o terror, na mais radical acepção da palavra terror. Ou instaura-se o fanatismo justiceiro, americano ou muçulmano, tanto faz. O fanatismo vingador. Adorando ou recusando o gesto dos aviões de carreira convertidos em armas de suicidas (nenhum artefato é inocente), quem viu ao vivo o 11 de setembro se tornou um bicho diferente do que era, um bicho sobre cujas retinas, de 11 de setembro em diante, a guerra globalizada evolui.

Atenção: essa guerra evolui como espetáculo e entretenimento, mas um entretenimento mortal. É como um gênio do show business que Bin Laden atacou. E, ao menos até agora, é como um convidado meio trapalhão que Bush vem tentando revidar. Já faz um ano. E é como se o tempo estivesse paralisado. Estamos em cena aberta e mal dá para saber o que a tragédia nos reserva.


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