A
mídia, campo de batalha
Eugênio Bucci
colunista
Dizer “guerra ao vivo” já não vale mais. Isso aconteceu
numa pré-história longínqüa, no Golfo, quando a CNN subiu
aos céus feito um míssil para ali, no céu, implantar a era
do telejornalismo globalizado. Instância internacionalista
(e americaníssima) da imagem ao vivo. Dizer “teleguerra”
também já não funciona. “Videoguerra” dá no mesmo; a analogia
dos combates mortais, teleguiados, ao vivo, com os games
que arregimentam adolescentes em constantes viagens alucinógeno-cibernéticas
por todos os continentes, é uma analogia pífia perto do
que se passa. Os pilotos nos caças são garotos viciados
em games. Os garotos viciados em games são pilotos de guerra.
Tudo isso porém é banal, usado, gasto. A era agora é outra.
O que o 11 de setembro inaugura é uma fase ao mesmo tempo
igual às outras – a videoguerra, a guerra ao vivo, a teleguerra
– e profundamente diferente delas. Igual porque contém seus
elementos de games, de telejornalismo-show ao vivo, um reality
show apocalíptico e generalizado, etc. Diferente porque,
agora, a mídia não é mais um tentáculo a conectar a intenção
de ataque ao alvo do ataque (como nos comandos eletrônicos
dos arsenais militares), ou a conectar o local da destruição
ao olho do público (como nas coberturas instantâneas), ou
a conectar a decisão do governo à opinião pública (como
nos discursos de Bush, se é que ele consegue fazer discursos).
Agora, a mídia é o local da guerra. Não um lugar meramente
simbólico, isto é, um lugar em que os interesses das nações
se enfrentam como se estivessem numa guerra pela simpatia
e adesão da humanidade-platéia, mas o lugar real em que
a guerra mesma, com suas explosões e seus cadáveres desintegrados,
acontece. O 11 de setembro realiza a mais sombria das profecias
dos estudiosos: o terror passa a acontecer no espetáculo
e como espetáculo. A guerra já não é a continuação da política
por outros meios, mas a realização integral do espetáculo
despolitizado.
O alvo dos atentados de 11 de setembro não é apenas um ou
outro prédio de Nova York ou Washington, mas o olhar global.
O olhar foi o alvo – proposital ou não, pouco importa. Foi
no olhar que a humanidade foi atingida. Cada cidadão que
viu aquelas torres sendo mastigadas por uma densa nuvem
de poeira negra se tornou instantânea e permanentemente
um mutilado de guerra. De seus olhos foram extirpados ícones
que integravam a rede imaginária da então vigente “ordem
mundial”.
No vazio aberto pelos ícones arrancados, instaura-se o terror,
na mais radical acepção da palavra terror. Ou instaura-se
o fanatismo justiceiro, americano ou muçulmano, tanto faz.
O fanatismo vingador. Adorando ou recusando o gesto dos
aviões de carreira convertidos em armas de suicidas (nenhum
artefato é inocente), quem viu ao vivo o 11 de setembro
se tornou um bicho diferente do que era, um bicho sobre
cujas retinas, de 11 de setembro em diante, a guerra globalizada
evolui.
Atenção: essa guerra evolui como espetáculo e entretenimento,
mas um entretenimento mortal. É como um gênio do show business
que Bin Laden atacou. E, ao menos até agora, é como um convidado
meio trapalhão que Bush vem tentando revidar. Já faz um
ano. E é como se o tempo estivesse paralisado. Estamos em
cena aberta e mal dá para saber o que a tragédia nos reserva.
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