1976-1990
A volta para a democracia

Arquivo JB

A campanha das Diretas-Já mobilizou a população brasileira nas principais cidades do país

Em 1976, o governo do general Ernesto Geisel completava dois anos. O presidente tentava levar adiante o processo de abertura política ''lenta, gradual e segura'', em meio a resistências da extrema-direita militar. Simultaneamente, adotava medidas centralizadoras e estatizantes na área econômica, afetada pelo aumento dos preços do petróleo. O Jornal do Brasil discordava expressamente dos rumos impostos à economia, embora reconhecesse os avanços ocorridos na caminhada rumo à democracia.

Nesse quadro, o general Hugo Abreu, então chefe do Gabinete Militar da Presidência da República, montou um relatório confidencial - divulgado por Elio Gaspari em 1991, no Informe JB - batizado de ''Medidas contra o Jornal do Brasil''. Objetivo: reprimir ''a sua ação contestadora e subversiva permanente''. Entre as sugestões figuravam a suspensão do crédito e publicidade oficiais. Recomendava-se que o governo estadual participasse do esquema de pressões.

Outras medidas incluíam a liquidação sumária dos débitos da empresa com entidades públicas, sem qualquer espécie de negociação; pressões contra anunciantes do jornal, sob ameaça de corte de crédito oficial; investigação fiscal e política da empresa e de seus diretores; suspensão do credenciamento de repórteres da empresa no Planalto, ministérios e órgãos estaduais. Propunha, por fim, a censura a qualquer momento, mas preferencialmente ''a apreensão do jornal depois de impresso, antes da distribuição''.

Às voltas com o substancial investimento exigido pelas novas instalações na Avenida Brasil, que abrigaria a sede do JB entre 1973 e 2002, a empresa sofreria o impacto no seu equilíbrio financeiro. Mas nada alterou a trajetória do jornal inovador e inquieto, vocação que superou as restrições forjadas para fazê-lo perder a liderança em circulação e abalar o prestígio de formador de opinião.

Em abril de 1976, publicou-se o primeiro número da Domingo, revista que alcançou imediato sucesso editorial e repercutiu intensamente no meio jornalístico. Ao longo do tempo, a publicação modernizou-se e abrigou equipes sempre formadas por profissionais de primeira linha.

Cerco publicitário, censura, escuta telefônica, prazos improrrogáveis para colocar uma emissora de televisão no ar ... de nada o JB foi poupado na virada dos anos 80. Foi a única organização de imprensa a devolver concessões de TV. Tal fato se consumou em setembro de 1978, no Rio e em São Paulo. No plano político, com a sucessão de Geisel pelo general João Figueiredo e a aprovação da Lei da Anistia pelo Congresso, em 1979, o processo de abertura prosseguiu, apesar das ações violentas dos bolsões radicais, que provocaram dezenas de atentados no país, até o episódio da bomba do Riocentro, em 1981.

O Jornal do Brasil obteve um prêmio Esso com o desmonte do relatório das investigações do inquérito sobre o caso do Riocentro e teve importância fundamental na denúncia da tentativa de fraude eletrônica, pela Proconsult, nas eleições estaduais do Rio de Janeiro, em 1982, que visava beneficiar a candidatura de Moreira Franco e impedir a vitória de Leonel Brizola.

Ainda no início da década, o Jornal do Brasil voltou a se interessar pelo investimento em rede de TV, possibilidade aberta com duas licitações novas do governo federal. A campanha contra o jornal na disputa foi comandada pelo general Otávio Medeiros, então chefe do Serviço Nacional de Informações, que apontava o JB como um inimigo do governo Figueiredo.

Em 1983, com o falecimento da condessa Pereira Carneiro, Manuel Francisco do Nascimento Brito, que desempenhava havia anos funções relevantes no comando da empresa, assumiu a presidência. A década de 80 e a comunicação, em todos os seus segmentos, seriam marcadas pela revolução tecnológica, com o surgimento do PC, o computador pessoal, que trouxe a informática para o primeiro plano da modernização das atividades humanas e das empresas de comunicação.

Em fins de outubro de 1983, Nascimento Brito organizou um jantar, na casa do advogado Miguel Lins, em homenagem ao então governador de São Paulo, Franco Montoro. Em meio às conversas, emergiu a idéia da campanha pelas Diretas Já.

Quando o movimento conquistou as ruas, o Jornal do Brasil se engajou, até que o Congresso enterrasse o projeto. A partir daí, o JB vinculou-se à campanha que elegeu Tancredo Neves presidente da República no Colégio Eleitoral em 1985.

A informatização da redação teria início em 1986. Outros produtos de sucesso seriam lançados até o final da década, como os cadernos Cidade e Idéias e a revista Programa, que passou a circular às sextas-feiras.

O Brasil viu José Sarney tornar-se o primeiro civil a assumir a Presidência, com a morte de Tancredo Neves, após duas décadas de governo militar. Com Sarney, o Jornal do Brasil manteve relações difíceis, ao apontar suas fragilidades no exercício do cargo e criticar a prorrogação do mandato presidencial por um ano. Em 1988, o país passou a contar com nova Constituição, da qual o jornal foi um crítico feroz por considerá-la um documento que tornaria o país quase ingovernável.

O JB encerraria a década com brilhantismo, ao receber mais um prêmio Esso, pela entrevista de Zuenir Ventura com Chico Mendes. O líder sindical acreano dizia estar marcado para morrer e apontava os nomes de seus assassinos. Quinze dias depois foi morto.

A década de 80 se despediu com a queda do Muro de Berlim e o fim da guerra fria e do domínio soviético na Europa oriental. No Brasil, pela primeira vez desde 1960, o povo elegeu um presidente nas urnas: Fernando Collor de Mello, com o apoio do Jornal do Brasil, que se identificou, como ocorreria com todas as grandes publicações brasileiras, com as idéias econômicas liberais do jovem candidato.