Em 1976,
o governo do general Ernesto Geisel completava dois anos. O presidente
tentava levar adiante o processo de abertura política ''lenta, gradual
e segura'', em meio a resistências da extrema-direita militar. Simultaneamente,
adotava medidas centralizadoras e estatizantes na área econômica,
afetada pelo aumento dos preços do petróleo. O Jornal do Brasil
discordava expressamente dos rumos impostos à economia, embora reconhecesse
os avanços ocorridos na caminhada rumo à democracia.
Nesse quadro, o general Hugo Abreu, então chefe do Gabinete Militar
da Presidência da República, montou um relatório confidencial -
divulgado por Elio Gaspari em 1991, no Informe JB - batizado de
''Medidas contra o Jornal do Brasil''. Objetivo: reprimir ''a sua
ação contestadora e subversiva permanente''. Entre as sugestões
figuravam a suspensão do crédito e publicidade oficiais. Recomendava-se
que o governo estadual participasse do esquema de pressões.
Outras medidas incluíam a liquidação sumária dos débitos da empresa
com entidades públicas, sem qualquer espécie de negociação; pressões
contra anunciantes do jornal, sob ameaça de corte de crédito oficial;
investigação fiscal e política da empresa e de seus diretores; suspensão
do credenciamento de repórteres da empresa no Planalto, ministérios
e órgãos estaduais. Propunha, por fim, a censura a qualquer momento,
mas preferencialmente ''a apreensão do jornal depois de impresso,
antes da distribuição''.
Às
voltas com o substancial investimento exigido pelas novas instalações
na Avenida Brasil, que abrigaria a sede do JB entre 1973 e 2002,
a empresa sofreria o impacto no seu equilíbrio financeiro. Mas nada
alterou a trajetória do jornal inovador e inquieto, vocação que
superou as restrições forjadas para fazê-lo perder a liderança em
circulação e abalar o prestígio de formador de opinião.
Em abril de 1976, publicou-se o primeiro número da Domingo, revista
que alcançou imediato sucesso editorial e repercutiu intensamente
no meio jornalístico. Ao longo do tempo, a publicação modernizou-se
e abrigou equipes sempre formadas por profissionais de primeira
linha.
Cerco publicitário, censura, escuta telefônica, prazos improrrogáveis
para colocar uma emissora de televisão no ar ... de nada o JB
foi poupado na virada dos anos 80. Foi a única organização de imprensa
a devolver concessões de TV. Tal fato se consumou em setembro de
1978, no Rio e em São Paulo. No plano político, com a sucessão de
Geisel pelo general João Figueiredo e a aprovação da Lei da Anistia
pelo Congresso, em 1979, o processo de abertura prosseguiu, apesar
das ações violentas dos bolsões radicais, que provocaram dezenas
de atentados no país, até o episódio da bomba do Riocentro, em 1981.
O Jornal do Brasil obteve um prêmio Esso com o desmonte do
relatório das investigações do inquérito sobre o caso do Riocentro
e teve importância fundamental na denúncia da tentativa de fraude
eletrônica, pela Proconsult, nas eleições estaduais do Rio de Janeiro,
em 1982, que visava beneficiar a candidatura de Moreira Franco e
impedir a vitória de Leonel Brizola.
Ainda no início da década, o Jornal do Brasil voltou a se
interessar pelo investimento em rede de TV, possibilidade aberta
com duas licitações novas do governo federal. A campanha contra
o jornal na disputa foi comandada pelo general Otávio Medeiros,
então chefe do Serviço Nacional de Informações, que apontava o JB
como um inimigo do governo Figueiredo.
Em 1983, com o falecimento da condessa Pereira Carneiro, Manuel
Francisco do Nascimento Brito, que desempenhava havia anos funções
relevantes no comando da empresa, assumiu a presidência. A década
de 80 e a comunicação, em todos os seus segmentos, seriam marcadas
pela revolução tecnológica, com o surgimento do PC, o computador
pessoal, que trouxe a informática para o primeiro plano da modernização
das atividades humanas e das empresas de comunicação.
Em fins de outubro de 1983, Nascimento Brito organizou um jantar,
na casa do advogado Miguel Lins, em homenagem ao então governador
de São Paulo, Franco Montoro. Em meio às conversas, emergiu a idéia
da campanha pelas Diretas Já.
Quando o movimento conquistou as ruas, o Jornal do Brasil
se engajou, até que o Congresso enterrasse o projeto. A partir daí,
o JB vinculou-se à campanha que elegeu Tancredo Neves presidente
da República no Colégio Eleitoral em 1985.
A informatização da redação teria início em 1986. Outros produtos
de sucesso seriam lançados até o final da década, como os cadernos
Cidade e Idéias e a revista Programa, que passou a circular às sextas-feiras.
O Brasil viu José Sarney tornar-se o primeiro civil a assumir a
Presidência, com a morte de Tancredo Neves, após duas décadas de
governo militar. Com Sarney, o Jornal do Brasil manteve relações
difíceis, ao apontar suas fragilidades no exercício do cargo e criticar
a prorrogação do mandato presidencial por um ano. Em 1988, o país
passou a contar com nova Constituição, da qual o jornal foi um crítico
feroz por considerá-la um documento que tornaria o país quase ingovernável.
O JB encerraria a década com brilhantismo, ao receber mais
um prêmio Esso, pela entrevista de Zuenir Ventura com Chico Mendes.
O líder sindical acreano dizia estar marcado para morrer e apontava
os nomes de seus assassinos. Quinze dias depois foi morto.
A década de 80 se despediu com a queda do Muro de Berlim e o fim
da guerra fria e do domínio soviético na Europa oriental. No Brasil,
pela primeira vez desde 1960, o povo elegeu um presidente nas urnas:
Fernando Collor de Mello, com o apoio do Jornal do Brasil,
que se identificou, como ocorreria com todas as grandes publicações
brasileiras, com as idéias econômicas liberais do jovem candidato.