1961-1975
Criatividade e ousadia para superar os anos de chumbo

Arquivo JB

Alberto Dines (E), com a ajuda de colaboradores como Carlos Lemos, sistematizou a reforma do JB

No início dos anos 60, o mundo parecia estar em ebulição. Os fatos se sucediam com tal velocidade que pareciam um aviso sobre o que estava por vir: Fidel triunfava com a revolução cubana, Kennedy era eleito, Gagarin anunciava que a Terra era azul, o Muro de Berlim já dividia as Alemanhas, surgiam os Beatles e os Rolling Stones.

O Brasil, com sua moderníssima nova capital, era bicampeão mundial de futebol e vivia uma efervescência cultural, com o Cinema Novo e a Bossa Nova. Na política, no entanto, após a euforia dos anos JK, o momento era de perplexidade, sob o impacto da renúncia de Jânio Quadros, com apenas oito meses de governo e as idas e vindas das correlações de forças durante o governo João Goulart.

No Jornal do Brasil, em maio de 1961, Alberto Dines passou a ser o editor-chefe, em substituição a Jânio de Freitas e consolidou a reforma iniciada na década passada. Segundo Nascimento Brito, diretor da empresa, Dines sistematizou as modificações, permitindo que se chegasse à verdadeira consciência do que se convencionou chamar de ''reforma do JB''.

Foi um período riquíssimo para o jornalismo e a cultura do país, em que o jornal firmou sua posição na imprensa carioca e nacional, ganhando uma nova dimensão como formador de opinião e como parâmetro de modernização editorial e gráfica. O caderno B, espelho do comportamento da época, lançou e acolheu nomes como Drummond, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Henfil, Ziraldo, Marina Colasanti, Carlos Leonam e Zózimo Barroso do Amaral, entre outros, num jornal que ainda contava com colunistas do porte de Carlos Castello Branco, João Saldanha, Armando Nogueira e Alceu de Amoroso Lima.

Foi também durante a gestão de Dines, de 1961 a 1973, uma das mais longas do jornal, que se criou o Departamento de Pesquisa - que contribuía com dados e análises, para situar os fatos em seus contextos e facilitar a compreensão do leitor - cuja atuação gerou o surgimento de inúmeros bancos de dados pelo país. São desta época ainda o Caderno Especial, os Cadernos de Jornalismo e Comunicação e o Festival JB de Curtametragem.

Paralelamente, o cenário político se agravou e houve o golpe militar de 1964. Mantendo sempre a sua independência e defendendo seu ideário liberal, o Jornal do Brasil apoiou algumas medidas do novo governo, mas nunca hesitou em combatê-lo nas situações de arbítrio e repressão contra as liberdades democráticas.

Durante os vinte anos de duração do regime militar, como represália por suas posições políticas, o Jornal do Brasil teve de conviver com a censura prévia e a presença de censores na redação; com a intimidação e a prisão de diretores e editores, em pelo menos duas ocasiões; com a força, como na invasão de sua sede em 1964 e com o boicote econômico por parte do governo, o que causaria sérios prejuízos à empresa.

Nada, no entanto, o impediu de continuar a produzir bom jornalismo, ganhar muitos prêmios, entre eles vários Essos e três prêmios internacionais Maria Moors Cabot - para Nascimento Brito, Alberto Dines e Carlos Castello Branco - ou de editar algumas das páginas mais brilhantes e subversivas do período, como as que anunciaram o AI-5, repleta de ironias e insinuações e a queda de Allende, com forte impacto e beleza gráfica.

Em 1973, como parte de sua expansão, o Jornal do Brasil transferiu sua sede para um novo prédio, na Avenida Brasil nº 500, projetado para abrigar todas as empresas do grupo e um possível canal de televisão - que então constava dos planos da empresa - num ponto estratégico para a logística de distribuição do jornal. Foi um investimento de vulto que, por força das circunstâncias que se sucederiam, teria influência nos destinos da empresa.

No final de 1975, o jornalista Wladimir Herzog era encontrado morto no DOI-Codi de São Paulo, num episódio cuja apuração aceleraria a volta à democracia pela qual o Brasil tanto ansiava. Muita coisa ocorrera naqueles quinze anos: a minissaia, a pílula, o feminismo, maio de 68, Woodstock, a guerra do Vietnam. Kennedy estava morto, ''Che'' Guevara também, mas Mao e Fidel viviam. O homem já pisara a Lua e Lennon havia declarado que ''o sonho acabou''. Certeza, apenas uma: o mundo jamais seria o mesmo após a década de 60.

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