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o
início dos anos 60, o mundo parecia estar em ebulição. Os fatos
se sucediam com tal velocidade que pareciam um aviso sobre o que
estava por vir: Fidel triunfava com a revolução cubana, Kennedy
era eleito, Gagarin anunciava que a Terra era azul, o Muro de Berlim
já dividia as Alemanhas, surgiam os Beatles e os Rolling Stones.
O Brasil, com sua moderníssima nova capital, era bicampeão mundial
de futebol e vivia uma efervescência cultural, com o Cinema Novo
e a Bossa Nova. Na política, no entanto, após a euforia dos anos
JK, o momento era de perplexidade, sob o impacto da renúncia de
Jânio Quadros, com apenas oito meses de governo e as idas e vindas
das correlações de forças durante o governo João Goulart.
No Jornal do Brasil, em maio de 1961, Alberto Dines passou
a ser o editor-chefe, em substituição a Jânio de Freitas e consolidou
a reforma iniciada na década passada. Segundo Nascimento Brito,
diretor da empresa, Dines sistematizou as modificações, permitindo
que se chegasse à verdadeira consciência do que se convencionou
chamar de ''reforma do JB''.
Foi um período riquíssimo para o jornalismo e a cultura do país,
em que o jornal firmou sua posição na imprensa carioca e nacional,
ganhando uma nova dimensão como formador de opinião e como parâmetro
de modernização editorial e gráfica. O caderno B, espelho do comportamento
da época, lançou e acolheu nomes como Drummond, Clarice Lispector,
Fernando Sabino, Henfil, Ziraldo, Marina Colasanti, Carlos Leonam
e Zózimo Barroso do Amaral, entre outros, num jornal que ainda
contava com colunistas do porte de Carlos Castello Branco, João
Saldanha, Armando Nogueira e Alceu de Amoroso Lima.
Foi também durante a gestão de Dines, de 1961 a 1973, uma das
mais longas do jornal, que se criou o Departamento de Pesquisa
- que contribuía com dados e análises, para situar os fatos em
seus contextos e facilitar a compreensão do leitor - cuja atuação
gerou o surgimento de inúmeros bancos de dados pelo país. São
desta época ainda o Caderno Especial, os Cadernos de Jornalismo
e Comunicação e o Festival JB de Curtametragem.
Paralelamente, o cenário político se agravou e houve o golpe militar
de 1964. Mantendo sempre a sua independência e defendendo seu
ideário liberal, o Jornal do Brasil apoiou algumas medidas
do novo governo, mas nunca hesitou em combatê-lo nas situações
de arbítrio e repressão contra as liberdades democráticas.
Durante os vinte anos de duração do regime militar, como represália
por suas posições políticas, o Jornal do Brasil teve de
conviver com a censura prévia e a presença de censores na redação;
com a intimidação e a prisão de diretores e editores, em pelo
menos duas ocasiões; com a força, como na invasão de sua sede
em 1964 e com o boicote econômico por parte do governo, o que
causaria sérios prejuízos à empresa.
Nada, no entanto, o impediu de continuar a produzir bom jornalismo,
ganhar muitos prêmios, entre eles vários Essos e três prêmios
internacionais Maria Moors Cabot - para Nascimento Brito,
Alberto Dines e Carlos Castello Branco - ou de editar algumas
das páginas mais brilhantes e subversivas do período, como as
que anunciaram o AI-5, repleta de ironias e insinuações e a queda
de Allende, com forte impacto e beleza gráfica.
Em 1973, como parte de sua expansão, o Jornal do Brasil
transferiu sua sede para um novo prédio, na Avenida Brasil nº
500, projetado para abrigar todas as empresas do grupo e um possível
canal de televisão - que então constava dos planos da empresa
- num ponto estratégico para a logística de distribuição do jornal.
Foi um investimento de vulto que, por força das circunstâncias
que se sucederiam, teria influência nos destinos da empresa.
No final de 1975, o jornalista Wladimir Herzog era encontrado
morto no DOI-Codi de São Paulo, num episódio cuja apuração aceleraria
a volta à democracia pela qual o Brasil tanto ansiava. Muita coisa
ocorrera naqueles quinze anos: a minissaia, a pílula, o feminismo,
maio de 68, Woodstock, a guerra do Vietnam. Kennedy estava morto,
''Che'' Guevara também, mas Mao e Fidel viviam. O homem já pisara
a Lua e Lennon havia declarado que ''o sonho acabou''. Certeza,
apenas uma: o mundo jamais seria o mesmo após a década de 60.