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CARLOS
CASTELLO BRANCO
O golpe militar de
31 de março de 1964, que derrubou o presidente João Goulart, e o Ato Institucional
nº 5, de 13 de dezembro de 1968, que radicalizou a ditadura militar. Temas
de duas colunas de Carlos Castello Branco. Na primeira, a profusão de
informações vindas dos dois lados envolvidos. Na segunda, apesar do clima
opressivo, o colunista consegue antecipar, com precisão, o que seria a
longa noite de arbítrio na qual o país mergulharia.
MINAS
DESENCADEIA LUTA CONTRA JANGO (31/04/1964)
BRASÍLIA
- O manifesto do Governador Magalhães Pinto, recebido com euforia pela
Oposição e com desafogo pelo PSD, ao qual se ofereceu um novo pólo de
poder, repercutiu ontem na Câmara dos Deputados como o episódio decisivo
da mobilização de forças para conter o Presidente João Goulart. Líderes
udenistas, invocando como sintoma a união de Minas em torno do seu Governador,
assinalada pela presença do Sr. Milton Campos no elenco de auxiliares
do Sr. Magalhães Pinto, prognosticavam um desfecho da situação nacional
para as próximas 24 horas, segundo o Sr. Herbert Levi, ou para as próximas
72 horas, segundo o Sr. Arnaldo Cerdeira.
A dramática decisão
do Governador mineiro, que se sabe precedida de entendimentos com o Governador
de São Paulo e com o Governador do Paraná - o Sr. Nei Braga esteve ontem
em Belo Horizonte - estaria respaldada na unidade dos dispositivos militares,
inclusive federais, em suas respectivas áreas e dentro dos mesmos objetivos.
O ambiente em Brasília
impregnou-se de nervosismo desde o momento em que, em seguida às notícias
sobre a decisão de Minas, o Sr. Ranieri Mazzilli trancou-se em seu gabinete
para atender a um telefonema interurbano e em seguida partia para São
Paulo, depois de tomar providências relativas à segurança da sua família.
O Sr. Martins Rodrigues, líder do PSD, manifestou a convicção de que estávamos
vivendo as últimas horas do impasse.
Sabe-se que o Governador
Magalhães Pinto, antes de divulgar seu manifesto, guarneceu as fronteiras
do Estado e assegurou-se da identificação da guarnição federal com os
pontos-de-vista que exprimiu.
Com a relativa segurança
dessas horas de crise, informa-se igualmente que o Presidente João Goulart
estaria em face de um ultimato dos comandos militares com referência à
punição dos subalternos da Marinha prestigiados pelo Governo na recente
crise naval. O General Jair Dantas Ribeiro, cujo estado de saúde desafiaria
os prognósticos sombrios com que foi pintado nas esferas oficiais, estaria
pronto para reassumir a qualquer momento o Ministério da Guerra e com
a decisão de restaurar o respeito à disciplina e à hierarquia ameaçadas
pelos últimos acontecimentos.
Diante desse conjunto
de fatos e rumores, muitos políticos não hesitavam em prever uma renúncia
do Presidente nas próximas horas, como recurso tático para desencadear
uma resistência. Até o fim da tarde, no entanto, o Palácio da Alvorada
confirmava a decisão do Sr. João Goulart de comparecer à concentração
de dez mil sargentos, aos quais convocaria para a campanha das reformas.
O Sr. Ryff informava também que o Presidente recebera com tranqüilidade
o manifesto de Minas.
O Sr. Juscelino Kubitschek,
estimulado por civis e militares a fazer um pronunciamento sobre a situação,
teria aconselhado moderação ao Presidente no seu contato com os sargentos.
O Sr. Juscelino, aliás, não pôde atender ao apelo que lhe dirigiu o General
Jair Dantas Ribeiro para obter do Congresso a votação da anistia para
os rebeldes de Brasília, pois o clima na Câmara era ontem inteiramente
infenso a concessões ao governo federal e à sua política.
O ex-Presidente da
República, envolvido pela participação do PSD no movimento de inconformismo
comandado pelo Governador Magalhães Pinto, dificilmente poderia prestar,
a esta altura, qualquer serviço ao Sr. João Goulart.
Congresso para
São Paulo
A viagem inesperada
do Sr. Mazzilli e as sucessivas conferências de dirigentes parlamentares
do PSD, da UDN e do PSP com o senador Auro Moura Andrade, criar uma expectativa
paralela: a de que se adotam providências para a imediata transferência
do Congresso Nacional para São Paulo ou Belo Horizonte. Desde cedo, aliás,
deputados esquerdistas previam a configuração daquela hipótese e adiantavam
que, se tal ocorrer, a bancada governista permanecerá em Brasília, funcionando
sob a presidência do Sr. Afonso Celso.
O Chefe de Gabinete
do Sr. Mazzilli assegura, no entanto, que o presidente da Câmara estará
de volta à capital amanhã às 7 da manhã e comparecerá ao palácio legislativo
às 9 horas. O Presidente João Goulart, a esta altura, já deverá estar
em Brasília, pois era esperado nas últimas horas de ontem por seus oficiais
de gabinete.
Exército virou
Segundo relatório
sigiloso da Casa Militar da Presidência da República ao Sr. João Goulart,
90 por cento da oficialidade do Exército até aqui favorável ao Presidente
mudou de rumo desde o momento em que se abriram as portas do Batalhão
de Guardas para soltar os marinheiros rebeldes. A oficialidade considera
que a disciplina é intocável.
Não é golpe, mas
comunismo
No PSD, o Sr. Martins
Rodrigues alegava que não se trata de uma simples preparação de golpe,
mas da criação de um estado de fato com implantação do comunismo no país.
"Isso", disse, "não podemos admitir".
Sem Ademar
O Sr. Magalhães Pinto
preferiu lançar sozinho seu manifesto, ao invés de fazê-lo conjuntamente
com o Sr. Ademar de Barros. Quis, assim, assinalar divergência de comportamento
em face da crise.
PRIMEIRAS
IMPRESSÕES SOBRE O ATO DE ONTEM (14/12/1968)
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