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IMPRENSA
E DEMOCRACIA REPRESENTATIVA
JOSÉ
SARNEY
A liberdade de imprensa
ocupa um papel singular entre as idéias que compõem o sistema político
concebido pelo mundo ocidental. É um dos direitos fundamentais da sociedade
democrática, precioso legado das lutas libertárias do homem, ao longo
da História.
O primeiro documento
constitucional a consagrar tal direito foi a Emenda I à ConstituiçÃo dos
Estados Unidos, obra pessoal de Thomas Jefferson. O autor da Declaração
da Independência e, como ele próprio gostava de ostentar como seu título
maior, fundador da Universidade de Virgínia.
Essa Emenda representa
o elo de inserção da imprensa em todo o arcabouço do sistema político
do Ocidente. É esse o aspecto de natureza política que desejo abordar,
abandonando a análise do que seja a imprensa moderna, como transmissora
de conhecimento, lazer, entretenimento e informação, quase enciclopédica
na sua interdependência com a arte de educar.
Os fundadores do sistema
de valores que compõem a democracia representativa incorporaram a inviolabilidade
de palavra, de opiniões e votos como prerrogativas inalienáveis dos representantes
do povo. São princípios que hoje estão associados ao dia-a-dia de qualquer
democracia que mereça esse nome e que tiveram origem no velho Parlamento
inglês, que assegurava aos deputados tais garantias a fim de que tomassem
suas decisões a salvo de qualquer pressão exercida pelo Rei.
As instituições inglesas
levaram tão a sério esse princípio de independência que chegaram ao extremo
de proibir a publicação dos debates parlamentares, para que o povo não
soubesse o que se passava no Parlamento, de modo que aqueles que estavam
investidos da representação popular gozassem de sólida imunidade contra
possíveis influências dos seus eleitores e da opinião pública.
Ao transportar tal
princípio para o primeiro documento político da América, Jefferson julgou
indispensável assegurar aos cidadãos de seu país meios capazes de contrabalançar
aquela prerrogativa dos parlamentares, garantindo-lhes a liberdade de
questionar os governos, ao abrigo de sanções legais. O instrumento que
imaginou para isso foi a liberdade de imprensa, amplamente garantida pela
Constituição dos Estados Unidos.
Porém, a imprensa
dos tempos de Thomas Jefferson era uma imprensa rudimentar, que imprimia
panfletos de uma folha e em tiragens quase simbólicas de duzentos exemplares,
se tanto. Hoje, imprensa, rádio e televisão são os principais veículos
de comunicação, a mídia, um dos maiores e mais promissores negócios do
mundo.
Graças aos vertiginosos
avanços tecnológicos, esses meios sofrem um processo contínuo de sofisticação
e expansão, abrindo um espaço constante na era da informação e do entretenimento
globais. Até onde esse fenômeno político e social fascinante e perturbador
poderá atingir e comprometer o sistema básico de valores concebido pelo
homem ao longo da História, o qual permitiu uma perfeita relação da imprensa
com o sistema político?
Esse constitui, sem
dúvida, o grande tema que se desdobra em um debate profundo e complexo
sobre o destino da democracia representativa. Já não vivemos sob o império
daquele sistema de independência dos poderes idealizado pelo gênio de
Montesquieu. O parlamento, concebido para ser controlado apenas pelo Poder
Judiciário, passou a sofrer rígido controle externo, de natureza eminentemente
política e pública, poder que passou a ser empunhado pela mídia.
O fenômeno produziu
um inevitável conflito de interesses e de competências, na medida em que
acirrou feroz concorrência entre imprensa e legislativo pela representação
dos interesses do povo. A opinião pública é o novo interlocutor da sociedade
democrática, cujos humores se manifestam através dos meios de comunicação
em tempo real, o que coloca, de forma imperativa, o desafio que consiste
em definir quem representa o povo, afinal.
Vale a pena rememorar
os tempos românticos, quando se especulava a respeito do papel da imprensa,
definida como "o outro poder". Hoje, ela desempenha, de forma concreta,
o poder do terceiro setor, exercendo todas as funções outrora exclusivas
do Parlamento, quais sejam : fiscalização, controle e acompanhamento.
E não o faz somente
quanto ao Poder Legislativo, mas também em relação aos Poderes Executivo
e Judiciário, cujas decisões estão constantemente sujeitas à severa vigilância,
influência e poderio da mídia. Esta denuncia, condena ou absolve, obedecendo
unicamente a impulsos ditados por seus próprios critérios.
Outro fenômeno importante
se encarrega de vulnerar o sistema clássico da democracia representativa.
Trata-se do fato de que os representantes são eleitos para mandatos periódicos;
mas, diante do intenso ritmo imposto pelos tempos modernos, em que os
fatos acontecem e se comunicam em tempo real, seus mandatos envelhecem
com vertiginosa rapidez, de modo que o dia da eleição fica distante em
poucos meses.
De tudo isso resulta
dramática perda de legitimidade, transformando os mandatários em fantasmas
assustados com a fragilidade de sua representação. Trata-se de mal que
assola parlamentos e executivos do mundo inteiro, gerando o que os estudiosos
chamam de crise da "democracia representativa". O grau maior ou menor
dessa legitimidade é aferida pelas pesquisas de opinião pública, que procuram
sondar os misteriosos desígnios da vontade popular.
O Muro de Berlim não
se precipitou apenas sobre as estruturas do mundo socialista. Ele também
desabou sobre a democracia representativa, base da democracia liberal.
Antes, com a bipolarização,
a amarra da ideologia dava um toque de tal modo passional às ações políticas
que se impunha o interesse maior em preservar o modelo ocidental antagônico
ao do mundo socialista. Hoje, diante do funeral das ideologias e do ocaso
das utopias, o modelo clássico da democracia representativa, em boa parte
formal e virtual, é desafiado a enfrentar a realidade de uma sociedade
democrática que, por um complexo sistema de capilaridade, derrama-se sobre
todo o tecido social, criando um sentimento de cidadania que cada vez
mais fortalece a sociedade civil, afastada dos centros de decisões gerado
pelo modelo clássico.
Nesse sistema, é a
mídia o grande instrumento de circulação da informação, liberta do controle
do Estado e coberta pelas garantias jeffersonianas. De modo que é a mídia,
hoje, quem verdadeiramente expressa a opinião pública e, em grande parte,
ajuda na formação de seu pensamento, em um processo de duas mãos: ida
e vinda.
O que fazer diante
desse panorama perturbador? Não podemos julgar que esse sistema possa
ser contornado e que tenhamos poder para demarcar suas fronteiras. Ele
não tem volta. Esse fenômeno, que produz profundas alterações na natureza
do poder do sistema representativo, veio para ficar. Os parlamentos estão
condenados a conviver com essa nova realidade, conscientes de que sua
antiga e monopolista função terá de ser dividida com a sociedade civil
organizada, com os grupos de pressão, as Ongs, que passaram a exercer
o papel de vocalizadoras da opinião pública, sem excluir a vigilante influência
dos grandes interesses do poderoso mercado globalizado.
Creio que marchamos
para um tipo ainda não modelado de democracia direta. O sistema representativo
está ferido de morte. Ele perde a batalha para a mídia. O que vem? O futuro
ainda não se deixou desvendar. Apenas emite sinais. O que perscrutamos
no horizonte é um processo transformador gerando energias que explodem
de maneira caótica e imprevisível. Porém, o homem nada mais tem feito,
ao longo de sua trajetória na Terra, senão ajustar-se aos caprichos dos
tempos.
As mudanças que se
processam não atingem somente o sistema político. Alcançam a própria mídia
que, montada em um tigre liberto e indomável, não sabe ela mesma aonde
ele vai chegar. Cada vez mais ela se distancia dos padrões clássicos que
a geraram e se vê compelida, por um processo de sobrevivência e um mundo
governado pelo econômico, a migrar para o grande mundo dos negócios, alimentada
pelo interesse de seu público consumidor.
Uma interrogação
impõe-se diante desse universo midiático, sujeito às mudanças tecnológicas
imprevisíveis do futuro: o jornal, o mais vulnerável elo desse sistema,
tal como o conhecemos há séculos, vai acabar? Creio que duas coisas não
acabarão: o livro e o jornal. Não por motivos meramente históricos, mas
competitivos.
O jornal continua
a ser, na área da comunicação, uma descoberta tecnológica que não foi
superada: o produto final não precisa de energia, nem de ser ligado ou
desligado. Cai e não quebra e pode ser lido em qualquer lugar: no banheiro,
no trem, no ônibus. E facilmente torna-se comum, circulando de mão em
mão, sem desgastar-se. Cada jornal é um jornal. O de ontem guarda o sabor
e a autoridade do passado. É fonte histórica, crônica do cotidiano e repositório
de um tempo que não passa.
Nessa perspectiva,
até os seus excessos são corrigidos pela prática da liberdade.
Escritor, ex-correspondente
do JB e ex-presidente da República
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