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POLÍTICA
E IMPRENSA
FERNANDO
COLLOR
Mais que simples
lembranças, política e imprensa sempre foram em minha vida duas marcantes
e definitivas presenças. Como criança, na convivência permanente com meu
pai, jornalista, político e empresário no setor de comunicação. Na adolescência,
com a iniciação profissional no JORNAL DO BRASIL, meu primeiro
emprego, que mantenho vivo em minha memória, por muitas razões. Uma delas
a de ter sido proporcionado pela confiança dessa correta, rica e emblemática
personalidade que foi Carlos Castello Branco, jornalista exemplar. A outra,
pela evocação inesquecível da amizade de Rodrigo, seu filho, meu companheiro
e colega do Centro Integrado de Ensino Médio em Brasília, que nos aproximou
e marcou nossos destinos. O jornalismo, para mim, não foi só opção. Ter
mourejado num jornal que já era, como hoje, uma referência nacional, representou
um incomparável magistério e um aprendizado ao mesmo tempo de tenacidade
e humildade, qualidades essenciais dessa fascinante profissão que me têm
sido úteis ao longo de toda a vida.
As reminiscências
esmaecidas da infância e os anseios sonhados da geração a que se proibiu
a militância política transformaram-se, por força das circunstâncias que
a sina nos reserva na vida, em vocações de adulto. O aprendizado da política
foi sem dúvida mais desafiador que o do jornalismo. Essa dura batalha
que as práticas correntes transformaram em confronto de interesses e não
mais de idéias, e menos ainda de ideais, não se torna apenas uma luta
de resultados incertos e imprevisíveis. É hoje, como escreveu o polêmico
filósofo Hans Magnus Enzensberger, o mais precário e arriscado de todos
os ofícios.
Na política, conheci
o outro lado do jornalismo. E minha experiência pessoal, num período adverso
para todos os jovens, serviu para reforçar a convicção do político em
que me transformei, de que pode até haver liberdade de imprensa sem que
haja democracia, mas jamais existirá democracia sem que a imprensa seja
livre, pluralista e contraditória. A liberdade consentida ou concedida,
pela magnanimidade de César, não é nunca um direito, mas a própria contrafação
da democracia. Por isso, em todo e qualquer sentido sob o qual seja encarado,
o papel da imprensa tornou-se sinônimo de democracia, de liberdade e de
diversidade, requisitos sem os quais o jornalismo pode até existir, mas
não consegue viver.
Quando se confronta
e quando se vive ao mesmo tempo as práticas da política com as da imprensa,
como no meu caso, pode-se ter a exata noção de como se complementam e
de como são necessárias uma à outra, condenadas a conviver até a morte,
para que a democracia sobreviva. Não é sem razão que quando uma fraqueja
ou transige, a outra fenece e se abate. As primeiras vítimas de todo e
qualquer totalitarismo são sempre e invariavelmente, em todas as partes
e em qualquer tempo, primeiro a imprensa, depois o parlamento, símbolo
da política democrática. No Brasil, nunca foi nem poderia ser diferente,
pois aqui também a estrada da liberdade foi pavimentada, como a nossa
história, com o sangue, o sacrifício e o martírio de tantas vidas inocentes
e de tantas reputações dilaceradas e quase sempre esquecidas.
Há, no entanto, um
traço comum que, mais que qualquer outro, simboliza essa mútua dependência.
A política e o jornalismo são atividades sujeitas às mais inusitadas influências
e são capazes de sobreviver em cenários de permanente conflitividade.
Porém, quanto mais conturbado o ambiente em que ambas têm que atuar para
cumprir seu papel, mais indispensável e vital se torna que não percam
o equilíbrio, a isenção e a serenidade. Ambas são capazes de resistir
a todas as vicissitudes, como as que hoje vivemos. Só não podem ceder
à tentação da irracionalidade que, via de regra, tem significado sempre,
ao longo da história, a ruína de uma e a perdição da outra. E em ambos
os casos os resultados são sempre fatais e funestos.
*Jornalista, ex-repórter
do JB em 1969 e ex-presidente da República
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