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RUI
BARBOSA
Desde o início de
sua história, o Jornal do Brasil já incomodava os titulares do poder.
O que Rui Barbosa não imaginava, ao assumir a empresa em 1893, é que seu
ideal de liberdade e sua bandeira pelos direitos individuais cavariam
um fosso entre o jornal e o governo. Em 31 de agosto do mesmo ano, irritado
com a cobertura do JB sobre a Revolta da Armada, o então presidente Floriano
Peixoto o intimou a deixar a direção da redação. Rui se negou a obedecer,
foi obrigado a se asilar no Chile e, posteriormente, na Argentina, mas
jamais traiu o ideal que o inspirou.
TRAÇOS
DE UM ROTEIRO (21/5/1893)
(...) O Jornal
do Brasil é constitucional a todo transe; eis, numa palavra, o nosso
roteiro político. Não pode, portanto, ser um derrocador. O alvião e o
martelo, deixamo-los para sempre no museu histórico da outra tenda. Da
nossa orientação de hoje em diante é penhor a nossa orientação até hoje,
desde que a revolução de 1889 encontrou a sua fórmula na Constituição
de 1891; batendo-nos pela lei contra o Governo, ou contra a multidão;
verberar o arbítrio, venha de cima, ou de baixo, dos nossos afeiçoados,
ou dos nossos inimigos, animar todas as reivindicações constitucionais,
lutar contra todas as reações. Nossa meta é a República. E a República,
ao nosso ver, não é o bastão do marechal com um barrete frígio no topo
e um agitador de sentinela ao lado com a fraternidade escrita no cano
do fuzil; não é a convenção de um nome, servida alternativamente por camarilhas
condescendentes ou revoltadas; não é nem o compadrio de nossos amigos,
nem a hostilidade aos nossos adversários. É a defesa da autoridade e a
sua fiscalização à luz dos princípios constitucionais. É o direito de
ter todas as opiniões e a obrigação de respeitar todas as consciências.
É o Governo do povo pelo povo, subordinado às garantias da liberdade,
com que a Constituição e o direito público universal limitam a própria
soberania popular. Eis a República, para cuja evolução queremos cooperar,
e de cuja consolidação nos oporemos com todas as forças aos perturbadores.
"Perturbar" a República, porém (fiquem definidos os termos), não é censurar
os que a aluem; é, pelo contrário, militar com os que a defendem, pugnando
"com a lei" contra os que a degradam.
Este jornal, pois,
não é uma oficina de agitação e ameaça, de subversão e guerra; é um instrumento
de doutrina e organização, de estudo e resistência, de transação política
e intransigência legal. Intransigência legal; porque contra a lei toda
transação é cumplicidade. Transação política; porque a política é a ciência
das transações inteligentes e honestas, sob a cláusula do respeito aos
cânones constitucionais. Os especuladores e os cínicos transigem sempre.
Os sistemáticos e os loucos não transigem nunca. Os homens de Estado transigem,
onde é lícito, oportunamente.
Não somos, portanto,
profissionalmente oposicionistas, nem governistas. Somos legalistas acima
de tudo e a despeito de tudo. O Governo, ou a oposição, não tem para nós
senão a cor da lei, que envolve o procedimento de um ou as pretensões
da outra. Fora do terreno jurídico nossa inspiração procurará beber sempre
na ciência, nos exemplos liberais, no respeito às boas praxes antigas,
na simpatia pelas inovações benfazejas, conciliando, quando possível,
o gênio da tradição inteligente com a prática do progresso cauteloso.
Poderemos acrescentar que o anonimato do insulto, da calúnia e da insinuação
irresponsável não terá lugar nestas colunas.
Numa quadra em que
a política absorve quase exclusivamente a vida nacional, parece natural
que ela dominasse o nosso programa, e preponderasse na indicação do nosso
rumo. Não quer isso, entretanto, dizer que esquecêssemos os outros lados
do espírito. A política é apenas uma de suas faces. As outras terão largamente,
nesta folha, o espaço, a honra e o culto, que se lhes deve. Penetrar por
todas essas relações da vida intelectual, no coração de nossos compatriotas,
é o nosso sonho. Oxalá que um pouco de realidade caia sobre ele e o fecunde.
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