Foto de Márcia GouthierANTONIO CALLADO

Em 1968, Antonio Callado cobriu a Guerra do Vietnam como enviado especial do Jornal do Brasil. Sob o título Vietname do Norte: o outro lado da guerra, o escritor e jornalista publicou uma série de crônicas, imprimindo, com olhar aguçado, uma visão muito peculiar dos horrores daquele período. Abaixo, três exemplos deste trabalho.

 

UMA DONA DO HEROÍSMO (19/10/1968)

Na província de Thanh Hoa, a 150 quilômetros ao sul de Hanói, falei de heroísmo diretamente com uma dona do assunto, a jovem Nguyen Thi Hang, de 24 anos, veterana em derrubar avião e prender piloto. Perguntei-lhe se não tinha tido medo no seu primeiro combate, quando tinha 20 anos de idade. Thi Hang se lembrava da data, 3 de abril de 1965. E da hora, 2 da tarde. E dos velocíssimos B-52, vindos de todas as direções, convergindo sobre a ponte de Ham Rong (Mandíbula do Dragão), no Song Ma (Rio do Cavalo). Lembrava-se da tensão, de esquecer a presença das outras milicianas ao seu lado. Mas o que é que tinha sentido?

Pediu-me um momento para pensar. Um momento. Não, não se lembrava. Houve o ruído ensurdecedor dos jatos passando por cima das baterias, das bombas. Nguyen Thi Hang se lembrava de que, passada a primeira vaga do ataque, a ponte continuava intacta, mas a aldeia mais próxima, sua aldeia, ardia em chamas. Então ela pensou nas crianças e nos velhos da aldeia, no arroz da sua cooperativa. Disto se lembrava. E, a seguir, da determinação, do ódio com que esperou que chegasse à sua alça de mira o próximo avião americano.

Ainda em Paris, a caminho de Hanói, perguntei ao Secretário Tieng, da representação diplomática do Vietname do Norte, qual era o segredo da resistência. Estávamos na Rue Leverrier n° 2, casa muito minha conhecida das incontáveis visitas que lhe fiz, em busca de um visto para Hanói. Pela primeira vez eu via na sala, de uma elegância correta, quase pobre, um jarro com flores. Rosas vermelhas debaixo do retrato de Ho Chi Minh. Era o dia 2 de setembro, aniversário da independência vietnamita, de 1945. Enquanto ganhava tempo para responder, Tieng disse:

- Dia 2 de setembro de 1945 não havia arroz no Vietname.

Olhou o retrato do Tio Ho na parede mas não obteve socorro. Sorriu e me disse:

- Quando penso na nossa resistência eu mesmo me espanto.


UM TROVÃO PERMANENTE (20/10/1968)

ENFIM, HANÓI (24/10/1968)