Foto de Márcia GouthierTRISTÃO DE ATHAYDE

Em 1971, no auge da ditadura militar, Tristão de Athayde foi a única voz a protestar, publicamente, contra o desaparecimento do ex-deputado cassado Rubens Paiva, cujo corpo até hoje não foi encontrado. Segundo depoimento de testemunhas, Paiva morreu, provavelmente, no quartel da Polícia do Exército, no Rio, depois de sofrer maus tratos no quartel da antiga Terceira Zona Aérea.

TRÁGICA INTERROGAÇÃO (25/02/1971)

Há vários meses que o Brasil inteiro participava do drama provocado pelo seqüestro do cônsul Aloísio Gomide por terroristas uruguaios. Revoltou-se contra a implacabilidade do Governo uruguaio, que se recusou terminantemente a proceder, como os seus seqüestradores, da maneira racional e humana com que agiu, em casos semelhantes, o nosso próprio Governo. E finalmente acompanhou, comovido, os passos que a esposa do nosso cônsul deu para obter, particularmente, com o apoio da generosidade do povo brasileiro, o que não conseguiu da intolerância do Governo uruguaio.

Pois bem, chegou a hora de participarmos todos de um drama semelhante, ocorrido entre nós e que é cercado de circunstâncias ainda mais revoltantes. É o caso do engenheiro e ex-Deputado Rubens Beyodt Paiva, preso em sua residência no dia 20 de janeiro e até hoje totalmente desaparecido. Do nosso cônsul se sabe que esteve em poder dos tupamaros e foi libertado, graças a um resgate em dinheiro. Do outro seqüestrado, porém, nada conseguem saber, bem sua família, nem seus advogados. Nem mesmo se conhece, os motivos de sua prisão. Deputado federal por S. Paulo, teve seus direitos políticos suspensos em 1964. Mas nunca mais, desde então, participou de atividades políticas. Não foi aberto contra ele qualquer inquérito policial-militar. Não lhe foi feita jamais qualquer acusação. Dedicou-se desde então, exclusivamente, à sua família e à sua carreira profissional. Inesperadamente, no Dia de S. Sebastião, é preso, em sua residência, juntamente com uma filha de 16 anos e sua sua esposa. Aquela foi liberada no dia seguinte. Esta, 12 dias depois. Foram todos levados para o quartel da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita. Quando, dias depois, mostraram à sua esposa um álbum de fotografias dos presos daqueles dias, ela pôde ver claramente não só sua própria fotografia, e da filhinha, mas também a do seu marido. Solicitado habeas-corpus ao Superior Tribunal Militar, pelo advogado Lino Machado Filho, as informações dadas pelo comandante do I Exército foram de que nem o engenheiro, nem sua esposa nem sua filha tinham estado em unidades da área do I Exército!

A inquietação da família cresceu de vulto com uma notícia anônima, distribuída aos jornais e divulgada pela televisão no dia 28 de janeiro, insinuando que houve no Alto da Boa Vista uma operação de resgate (?), feita por terroristas, de um preso de alta categoria social. Notícia absolutamente inverossímil e desacompanhada de qualquer autenticidade ou da mais vaga comprovação. A vítima desse misterioso desaparecimento nunca pertenceu a qualquer movimento político, desde sua cassação como Deputado federal, e não tem ligação alguma com elementos subversivos. Só há três fatos inequívocos em todo esse enredo: foi preso em sua residência por agentes do poder público; recolhido a um quartel da Polícia do Exército e desde então ninguém consegue saber do seu destino. E tal situação angustiosa dura há mais de um mês, embora todos os recursos legais tenham sido utilizados para se conseguirem informações sobre o paradeiro da vítima desse verdadeiro seqüestro.

O mínimo a que tem direito a opinião pública em face de um atentado tão insólito, que não só angustia um lar de modo intolerável, mas põe em risco a segurança de todos os lares em nossa terra, é seguramente uma clara informação das autoridades públicas. E um inquérito promovido para averiguar os acontecimentos e localizar a vítima. Na carta que a Conferência Nacional dos Bispos acaba de dirigir, solidarizando-se com D. Valdir Calheiros, Bispo de Volta Redonda, há o seguinte trecho: "Ousamos esperar que, daqui para frente, não se prendam pessoas sem observância das prescrições legais de comunicação à autoridade judicial, tornando-as incomunicáveis sem que elas nem seus familiares saibam como esse fato sucedeu".

Que dizer de um caso em que se sabe como o fato se deu, mas não por que se deu e, o que é mais trágico, qual o destino dado à vítima de tão revoltante atentado!